sexta-feira, 25 de julho de 2008

Com Obama há coisas que vão mudar, também na Europa.

Desde há alguns meses que me persegue a sensação pouco confortável, que várias situações que até aqui dávamos por adquirido estarão prestes a mudar. A principal causa reside na economia e no brutal desvio de valor que o “Ocidente” e de forma mais dramática os Estados Unidos, têm vindo a realizar, para os países produtores de petróleo e para as economias emergentes, como a China e a Índia. Resultado: o complexo militar americano, tal como está, parece ser cada vez mais insustentável para o orçamento do governo dos Estados Unidos.
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Acresce, que os candidatos democratas, em particular o provável vencedor das eleições americanas, Barack Obama, tem vindo a apoiar a criação de um Serviço Público de Saúde nos Estados Unidos, à europeia, o que acarretará ainda mais pressão sobre as despesas orçamentais.
Por isso tenho estado muito atento para saber o que vai dizendo por aqui e por ali o provável novo presidente americano. Inicialmente, pensava que uma das vias poderia ser a de um certo isolacionismo, até pela atitude face ao Iraque, mas nestes últimos dias de périplo por países como Israel e o Afeganistão, percebi que afinal não era essa a ideia. Mas qual seria? Como se poderia compatibilizar a manutenção de uma máquina militar que vale metade do orçamento americano, com o aumento dos combustíveis, a perda de valor do dólar, o défice e a dívida externa estrutural e as propostas de criação de um verdadeiro serviço público de saúde?
Ontem comecei a perceber. Em Berlim, num comício espectacular perante duzentas mil pessoas, Obama declarou:
“Se nós queremos ser honestos uns com os outros, sabemos que às vezes, dos dois lados do Atlântico, seguimos caminhos diferentes e esquecemos o nosso destino conjunto (…). Na Europa, pensar que a América está incluída naquilo que está mal no mundo, mais do que uma força que procura corrigi-lo, tornou-se comum. Na América, há vozes que negam a importância do papel da Europa na nossa segurança e no nosso futuro. Ambas as opiniões carecem de acerto (…) Neste novo século, americanos e europeus têm de fazer mais – e não menos. Parceria e cooperação entre nações não é uma escolha; é a única forma de proteger a nossa segurança e avançar no nosso humanismo comum.”
A mensagem geral de Obama é a de um apelo à união entre americanos e europeus e há uma frase que não esqueci: “we cannot afford to be divided”. E é quanto a divisões, que me quer parecer que a factura da defesa vai ter de ser “dividida” de outra forma. Isto também tem que ver com Portugal, que além de membro da União Europeia, é membro da NATO. Talvez me engane, mas quais são as alternativas? Vamos ver a continuação do folhetim.
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Nota:
Não resisti a incluir esta extraordinária foto da Associated Press do sítio do New York Times e que faz também a primeira página do International Herald Tribune. Curioso, que numa das primeiras filas do comício de Berlim, uma faixa que parece ter as cores alemãs, com o amarelo e com o preto, tem na realidade escrito a vermelho, "ANGOLA".

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