sábado, 5 de julho de 2008

O carácter amoroso dos portugueses por Teófilo Braga - I

A fazer fé em Teófilo Braga (1843-1924), os portugueses são muito dados a sentimentos exacerbados, em especial, no amor:

Tanto os escritores estrangeiros como os nacionais distinguem os portugueses pelo seu carácter amoroso; e a obra mais afamada das literaturas medievais, o Amadis de Gaula, funda-se sobre esse sentimento levado até ao heroísmo da fidelidade.
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As tradições de João Soares de Paiva, trovador que morre por uma princesa, de Dom Pedro I que coroa Inês de Castro depois de morta, do Beato Amadeu pela imperatriz Dona Leonor, de Bernardim Ribeiro por Dona Joana de Vilhena, de Cristóvão Falcão o poema de Cristovão Falcão [1512-1557], o cantor do Crisfal, por Dona Maria Brandão, dos Doze de Inglaterra, de Manuel de Sepúlveda por Dona Leonor de Sá, de Mariana Alcoforado, a apaixonada autora das Cartas da Religiosa Portuguesa, da fidelidade de Paulina que assombrou pela verdade do seu amor o próprio Casanova, que a exalta nas suas Memórias, todas estas tradições excedem o que há de mais extraordinário entre os outros povos.

Diante deste conhecimento, não admira que os escritores nacionais formulassem com tanto acerto esta característica. El-rei Dom Duarte, no Leal Conselheiro, diz: “em geral, os mais de todos portugueses, são leais e de bons corações”; e, Gil Vicente, falando dos portugueses, na tragicomédia das Cartas de Júpiter, acentua-se:”São extremos nos amores”. Na comédia Eufrosina, Jorge Ferreira de Vasconcelos define admiravelmente este génio amoroso: ”E não me negueis ser esta a principal inclinação portuguesa e desta lhe veio a cavalheirosa opinião de primor que tem sobre todos esses outros, e estimarem as mulheres sobre todos…, como atilado, gentil, galante e nobre esposo, compadece todos os efeitos do amor puro, não consente mal em sua dama, não sofre ver-se ausente dela, busca de noite e de dia onde e como a veja, queria sempre estar com ela, emagrece com cuidados e má vida, muda toda a má condição em boa, queima-se por dentro em pensamentos que humilde representa em lágrimas e suspiros, sinais de verdadeira dor. Em todo o seu querer unido e conforme com o dela, constante em sua fé e chama sempre em suas afrontas, como a alcança nunca a deixa até à morte e assim a faz senhora de si mesmo; não pretende proveito, salvo o dela pelo qual comete afoito todos os perigos; nem dormindo perde dela lembrança, antes nisso se deleita, determinando viver e morrer com ela, se desespera mata-se ou faz extremos mortais, tudo isto e muito mais se acha no bom português”…

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(continua)

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