domingo, 6 de julho de 2008

O carácter amoroso dos portugueses por Teófilo Braga - II

(continuação)

Aproximando desta última frase de Jorge Ferreira o que Cervantes diz dos portugueses, que era “quase costume morrerem de amor”, vemos que esta característica fundamental ainda subsiste, como no século XVI e XVII… nas Epanáforas da História Portuguesa, escreve Dom Francisco Manuel de Melo: “o nosso natural é entre as mais nações conhecido por amoroso…”
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Os espanhóis o confessaram pela boca dos seus maiores génios; Lope de Vega, na sublime comédia de Doroteia, diz com uma ingenuidade encantadora: “Eu, senhora, tenho olhos de criança e alma de português”. E Vicente Espinel, no Escudero Marcos de Obregon, deixa este traço: “namorava a todas como um português”.
Madame de Sévigné, respondendo a uma carta sentimental, receia tornar-se uma portuguesa: “il me parle de son coeur à toutes lignes: si je lui faisais réponse sur la même ton, ce serait une portugaise ».
Balzac personificava a paixão desvairada no tipo ideal do português Ajuda-Pinto. Edgar Quinet, nas Vacances en Espagne, descreve as portuguesas como irmãs da Sacuntala [refere-se, creio eu, a uma história da tradição hindu envolvendo actos de heroísmo por amor], assim apaixonadas e tristes; e Camões explicava a metafísica do lirismo português pelo gosto que as mulheres sentiam com um conceito de Petrarca [1304-1374, cujos poemas são dedicados a uma mulher, Laura, cujo amor é inatingível] ou de Garcilasso [Garcilasso da Vega, 1503-1536, poeta espanhol do amor, muito influenciado por Petrarca].

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De facto o lirismo português distingue-se por este exaltado subjectivismo, sem analogia entre nenhuma das literaturas modernas; as Folhas Caídas de Garret, as Flores do Campo de João de Deus, algumas das elegias de Soares de Passos, e, como fenómenos de recorrência étnica no lirismo brasileiro, os versos de Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, exprimem o mais que a alma humana pode sentir na linguagem a mais comunicativa. As canções populares, a quadra improvisada, os despiques de conversados, os fados plangentes, a cantiga solta, são cheias de expressões profundíssimas de verdade, relâmpagos para dentro do mundo moral, revelações subjectivas que não derivam de uma especulação mental, mas de uma passividade inconsciente; são como vozes da natureza, desde o cicio [um sussurro, um rumor brando, como o da aragem nas folhas das árvores] até à tempestade.
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E nesta poesia de amor, os poetas e o povo entendem-se instintivamente, porque os fidalgos dos séculos XIII e XIV introduziram nos seus Cancioneiros a corrente tradicional das serranilhas [a canção pastoril que era uma das formas líricas dos antigos trovadores portugueses, dedicadas a mulheres serranas, daí o nome], e esta seiva orgânica da inspiração não foi desconhecida dos grandes líricos portugueses, como Cristóvão Falcão e Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Camões, Francisco Rodrigues Lobo, Dom Francisco Manuel de Melo, António Gonzaga, João de Deus, e especialmente os brasileiros.
É o amor o grande tema da literatura portuguesa, e a própria epopeia nacional dos Lusíadas, foi criada pelo “amor do ninho seu paterno”, como Camões o confessa com simplicidade. É por isso que todos somos poetas numa certa idade; poetas e soldados como Camões, Diogo do Couto, Heitor da Silveira; um grande número conserva a paixão da poesia nas lutas parlamentares, como Garret, nas especulações matemáticas, como José Anastácio da Cunha, no meio dos trabalhos anatómicos, como Soares Franco, e até na cadeira de ministros”.

Em Elementos da Nacionalidade Portuguesa, na Revista de Estudos Livres
Seleccionado por João de Barros em O Povo na Literatura Portuguesa

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