quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Mostrengo de Fernando Pessoa





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Supunham os Portugueses, antes de haverem desvendado os mares, que eram estes guardados por monstros zelosos do seu domínio. Grandes desgraças esperavam quem se aventurasse a tão obscuras regiões. Ousaram eles tal empresa! No Mostrengo que Fernando Pessoa imagina, se materializam todos os fantasmas criados pela imaginação popular à volta do Mar Tenebroso. E no homem que vai ao leme, e, embora tremendo, não reconhece outro poder e outra vontade senão os do seu senhor El-Rei D. João II, estão representados todos cuja coragem ainda era maior que o seu medo, e assim nos abriram mundos desconhecidos.

José Régio
em Poesia de Ontem e de Hoje para o nosso Povo Ler, Colecção Educativa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956.

O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo,
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”


Fernando Pessoa

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