terça-feira, 15 de julho de 2008

Vindima no Douro por Manuel Monteiro

Arqueólogo, etnólogo e escritor de altos méritos, Manuel Monteiro conhece Portugal, e os usos, costumes e paisagens da nossa terra, como raros os conhecem. Do seu livro O Douro [1], estudo perfeito dos aspectos e dos recursos dessa região nortenha, extraímos o trecho sobre a vindima, em que descreve e evoca um dos momentos mais característicos da rude azáfama dos trabalhadores do campo.

João de Barros [1881-1960]

Enquanto por armazéns e lagares se ultima a faina de concertos, esfrega e lavagens no vasilhame, as vinhas animam-se de uma alegria vibrante e ruidosa.
Hora fugaz de desanuviamento para essa pobre gente, que, não obstante a amargura contínua da existência, ainda, pelo menos uma vez no ano, sabe rir e cantar!
As ranchadas de mulheres com as notas coloridas dos seus vestuários, agitando-se por entre as cepas à luz clara do sol do equinócio, o transporte dos cestos abarrotados de uvas, as canções em coro que gargalhadas e gritos entrecortam, a palrice entre os dois sexos, no geral, brejeira e de uma fervente volúpia que a atmosfera cálida espicaça e os olhares húmidos denunciam, evocam reminiscências das antigas festas naturalistas parecendo que se repercute ainda o eco báquico dos Evohé!...
A vindima propriamente dita, isto é, a separação dos cachos da vide pertence ao mulherio e ainda aos rapazes munidos de uma navalha ou tesoura cortam as uvas e as lançam, depois de escolhidas, nuns pequenos cabazes os quais se despejam em gigos ou altos cestos em vime em tronco de pirâmide quadrangular invertida, que uma vez cheios e indicados por varas enramalhadas, no alto, com parras, à semelhança dos tirsos [2] clássicos, são conduzidos por homens – os carregadores – para os lagares onde são por sua vez esvaziados. Os feitores vigiam atentamente a escolha para que não haja inadvertência deixando seguir junto, com o fruto bom e perfeito, o afectado, apodrecido ou verde. Cheios os lagares, procede-se à pisa. Esta lida fatigantíssima é feita a pés, como em Roma, na Grécia e no venerável Egipto. Os pisadores – calcatores – depois de lavados entram no calcatorium, isto é, no lagar, ou tanque quadrangular ou rectangular de cantaria, onde estão as uvas colhidas.
A primeira pisa – o corte – é a mais exaustiva e realiza-se desde as oito às doze horas nocturnas.
De começo a tarefa corre em silêncio, mas à medida que o esmagamento se completa, espalham-se os eflúvios do mosto rúbido que tinge as pernas dos lagareiros, e estes encetam os descantes acompanhados de uns instrumentos quase ex-históricos e um contentamento, rude e tonitroante, se avoluma e reina no ambiente alumiado pela claridade crua e fixa do acetilena, ou pela luz difusa do petróleo, que põe efeitos surpreendentes nas faces, lambusadas, escandecidas e dignas do pincel de Velasquez.
Depois deste trabalho denominado a meia-noite os lagaceiros saem para prosseguirem na pândega e voltam na manhã seguinte para sova, que dura até ao meio-dia e se repete uma ou mais vezes conforme a condição da colheita e a qualidade do vinho a obter…

em O Povo na Literatura Portuguesa de João de Barros
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[1] Não temos disponível quaisquer elementos para datar este texto, encontrámos apenas outros do mesmo autor datados de 1941.
[2] Bastão enfeitado com hera e pâmpanos, terminado em forma de pinha e que era o emblema de Baco.

3 comentários:

  1. Este painel de azulejos pode ser visto na estação de caminhos de ferro do Pocinho na Linha do Douro.

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  2. eu tenho o livro do douro de 1911, será muito raro?

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  3. Também tenho. Comprei-o na Feira da Ladra por 1 euro. Infelizmente para os alfarrabistas, no nosso país os livros antigos não são muito valorizados - mas felizmente para mim, que os adoro e compro barato.

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