sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

A propósito da prisão de Karadzic
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É possível pensar que virá o dia em que a humanidade não tolerará ditaduras, nem miséria, nem guerra. Temos ainda um caminho a percorrer, é verdade, mas com a nossa crescente indignação, firmeza, pragmatismo e bom senso, lá chegaremos. Nessa altura, os direitos humanos deixarão de ser uma declaração de boas intenções, passando a ter força de lei, capaz de punir os infractores, que não terão mais onde se esconder. Talvez sejam necessários mais 50 ou 100 anos, mas creio que já estivemos mais longe. A prisão de Karadzic* foi mais uma etapa nessa direcção**. Entretanto, continuará actual este poema de António Gedeão:

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer,
e o mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

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*Radovan Karadzic: político sérvio, alegado responsável por actos de genocídio, entre 1992 e 1995, envolvendo a morte organizada e sistemática de milhares de pessoas.
**O secretário geral das Nações Unidas (o sul coreano Ban Ki-Moon), através do seu porta-voz, veio declarar ser este “um passo para que se acabe com a impunidade”.

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