quinta-feira, 4 de setembro de 2008

As Pupilas do Senhor Reitor I – A esfolhada

Em finais de Setembro, princípios de Outubro realizam-se as esfolhadas (desfolhadas ou descamisadas), que são o trabalho de retirar a folha do milho: depois de cortado, o milho é transportado para a eira, onde se aproveita o ensejo de juntar as pessoas, para fazer daquela tarefa do campo, uma festa; quem tiver a sorte de encontrar uma espiga vermelha, grita “milho-rei!” (ou rainha) e tem de abraçar todos os presentes.
Antigamente, no meio rural, muito conservador dos costumes, era uma das poucas alturas em que aos rapazes namoradeiros era permitido abraçar as raparigas. A espiga do milho é depois guardada nos espigueiros. Nas Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis encontramos uma esfolhada:

A esfolhada fez-se na eira espaçosa e desafogada de José das Dornas, e por formosíssima noite de luar claro como o dia.
(…) O velho lavrador tinha dedo para dispor as coisas convenientemente.
Um monte enorme de espigas ocupava o meio da eira. Abertas de par em par as portas do cabanal aguardavam as amplas canastras para onde se iam lançando as espigas esfolhadas.
Sentados em círculo, à volta daquela alta pirâmide, trabalhavam azafamados, parentes, criados, vizinhos, amigos e conhecidos, que sempre afluem aos serões desta natureza, ainda que não convidados.
Não havia lugares de distinção aí. Cada qual se sentava ao acaso, ou, quando muito, conforme as suas secretas preferências.
A mais completa igualdade se estabelecera na companhia, desde o princípio dos trabalhos.
José das Dornas, que sabia, como ninguém, manter, nas ocasiões devidas, a sua dignidade de chefe de família, dava, desta vez o exemplo a sem-cerimónia, praticando jovialmente, até com o mais novo dos seus criados; e estes usavam para ele de liberdades que, fora do tempo, lhes sairiam caras. Pedro, rapaz sempre atencioso e grave no seu trato para com os velhos, naquela noite, tendo por vizinha uma séria e madura matrona da aldeia, requebrava-se em galanteios para com ela, e afectava rendidos extremos, com grande riso dos circunstantes e de Clara, a qual, pela sua parte, fingia uns
ciúmes igualmente aplaudidos da assembleia.
Uma velha, querendo aproveitar o seu tempo, tentou regular ali as suas contas com Nossa Senhora rezando uma das muitas coroas, de que lhe estava em dívida; e, a cada passo, rompia em vociferações contra duas raparigas entre as quais ficara e cuja palestra a fazia perder na fieira de padre-nossos e ave-marias da sua interminável reza.
Os arrufos da velha eram estímulo para risadas.
As vezes saltava ao meio do círculo uma criança com grandes bigodes, feitos de barba de milho, e a ideia era logo apoiada e imitada por todas as outras, com grande embaraço ao bom e pronto andamento da tarefa do serão. As mães ralhavam, rindo; os pais
faziam os mesmo; e disfarçadamente punham, ao alcance dos pequenos, novos instrumentos para idênticos delitos.
As raparigas e rapazes tiravam uns aos outros o gorgulho, que por acaso encontravam nas espigas, o que introduzia grande alvoroço na assembleia, e enchia os ares de gritos e de vozerias atordoadoras.
(…) - Milho rei! milho rei! milho rei! - rompeu uma voz, e esta tríplice exclamação tudo pôs em desordem; interrompeu o canto, e arrebatou Daniel à doce contemplação em que se deixara cair.
Aquele grito partira de José das Dornas, que fora o primeiro a cujas mãos concedera a sorte, enfim, uma espiga vermelha.
A festa mudou súbita e completamente de caracter.
À exclamação do lavrador respondeu grande alarido na assembleia. De todos os lados se pedia o cumprimento da lei da esfolhadas. Cabia pois a José das Dornas fazer a primeira distribuição de abraços.
O alegre lavrador não se fez rogar.
Seguiu-se então um espectáculo iminentemente cómico. José das Dornas ergueu-se do lugar onde estava para correr um por um, todos os outros, e, com profusão de abraços, dar o exemplo de observância à lei reguladora da festa.
Todo este cerimonial foi acompanhado das gargalhadas dos espectadores, e entremeado de observações jocosas do oficiante, o qual fazia valer sobremaneira o ato, graças ao génio folgazão que Deus lhe dera.
A cada rapariga que abraçava, José das Dornas, prolongando mais o abraço, dizia com visagens e gestos, que faziam estalar de riso os circunstantes.
— Na minha idade, aos sessenta anos, só o milho rei me podia dar destas fortunas! Ainda bem que a sorte mo trouxe às mãos.
Ao abraçar os homens, exclamava ele, com certo ar de desconsolação, comicamente expressivo.
— Que belo abraço desperdicei agora!
Passando pelos filhos, abraçou-os também, dizendo-lhes:
— Rapazes, tenham paciência. Eu sei que são destes abraços que vós quereis. Mas é lei, é lei. Os outros virão a seu tempo.
A um criado disse, meneando a cabeça:
— Ah! maroto! Ser obrigado a abraçar-te, quando tanta vontade tinha de te apalpar de outra maneira as costas! Ora vá, que talvez te não gabes de outra.
O certo é que, depois disso, começou a animar-se a esfolhada. As espigas vermelhas como se atraídas pelo bom colhimento feito à primeira, apareceram sucessivamente a diferentes mãos, e cada uma que aparecia dava lugar a episódios graciosos e a prolongada hilaridade.
Às vezes era uma rapariga tímida e acanhada, que não queria cumprir a sentença; e então todas as vozes se reuniam a exigi-la; e ela a recusar-se, e os vizinhos a empurrá-la, e todos a aplaudirem a rapariga, sorrindo e enleada de confusão, a correr a roda, e alta vozeria a celebrar com ovações a vitória sobre a rebelde; outras, era um velho ou velha, a que faziam tropeçar, ou abaixar-se para dar o abraço, e que depois cobriam desapiedadamente de montes e folhelho com aprovação e coadjuvação geral da parte jovem dos serandeiros; outras, um rapaz destemido, que, pela terceira vez, reclamava abraços, e contra o qual se tramava uma conspiração mulheril, a contestar-lhe a legalidade das pretensões, acusando-o de fraude e de trazer de casa as espigas vermelhas, de que se valia; animava-se então a discussão, mas afinal sempre se davam os abraços.
Todos porém, aceitavam as excepcionais liberdades desta noite de tradicional folgança, com a consciência de que não poderiam nunca fazê-las valer a justificar ulteriores e mais arrojadas aspirações.

Nota curiosa nesta cena do romance de Júlio Dinis é a importância que atribui aos astros. Diz ele a determinada altura como que a falar com os leitores:
O ser alumiado pelo luar é uma circunstância que redobra o valor da festa.
Eu creio nas influências planetárias - perdoem-me a fragilidade astrológica os homens da ciência positiva. Bem sei que passou já de moda esta crença tão arraigada nos mais severos espíritos de outros tempos; mas por mim, ainda não pude resolver a romper com ela de todo.
Penso em que o moral e o físico da humanidade andam sob o império de forças multiplicadíssimas, muitas das quais ainda estão por descobrir ou estudar, e não vejo que se possa desde já excluir do rol delas a luz desse planeta pálido, tão querido aos amantes e poetas.
Digam-me por exemplo, se uma esfolhada ao meio dia pode ter nunca a índole jovial das que se fazem à claridade da Lua? - se nela se concedem beijos e abraços com tão poucos escrúpulos? - se a gente se ri com igual vontade e franqueza? E não me venham
explicar isto só pelo efeito da meia obscuridade, que serena as repugnâncias dos tímidos, e excita a audácia dos arrojados; porque nunca vi elevaram-se ao mesmo grau de intensidade essas ruidosas alegrias e folguedos, quando a luz, ainda menos limpa de sombras, de uma só lâmpada ilumina o lugar do serão.
Forçosamente tem a Lua parte nisso. Não sei o que há na atmosfera em uma noite assim!
O espírito mais embotado para as suaves comoções da poesia, parece receber então um raio de lucidez e acreditar vagamente na existência de alguma coisa, acima dos prosaicos interesses da vida positiva; os corações mais fechados a arroubamentos de amor, sentem-se embrandecer, e de mais de um consta haver infringido, em noites dessas, velhos e porfiados protestos de isenção.
E negam a influência da Lua?! No coração dão-se fluxos e refluxos de sentimento, cuja teoria pode ter alguma coisa de comum com a do fluxo e refluxo dos mares. É uma velha crença esta, que me leva a supor a Lua favorável ao amor e indispensável à alegria das esfolhadas.
Júlio Dinis era um homem do seu tempo e um homem de ciência, pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que se licencia na Escola Médico-Cirúrgica do Porto com notas elevadas. Mas, pelos vistos, a sua formação científica tinha este pequeno pecado de crendice, aqui confessado com muito espírito.
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A ilustração da esfolhada aqui apresentada foi desenhada para as Pupilas do Senhor Reitor por Roque Gameiro

1 comentário:

  1. Participei numa desfolhada lá para os meus 12 ou 13 anos. É uma coisa linda de se ver e estar. Passei mais tempo a brincar do que a trabalhar, é claro. Tempos alegres e tudo o que é bom acaba... E também já li Júlio Dinis que nos ajuda a relembrar os tempos dos nossos antepassados do séc.XIX... Parabéns pelo blog que fica guardado nos favoritos...

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