segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Um Conto de Natal por Mário de Menezes

É o segundo ano consecutivo que trago aqui um Conto de Natal escrito por um médico e editado há cerca de 40 anos pelo Instituto Luso-Fármaco, numa publicação destinada a ser oferecida a médicos. O conto seleccionado para este ano, fazia parte do livro “Natal”, de 1968, e tem, ao que parece, um fundo de verdade, pelo que aconselho a ler a nota incluída após o final do conto.

“O Natal do Senhor Reitor”, adaptação de um trecho do livro “Memórias do Último João Semana”
Por Mário de Menezes [Mário Navarro de Menezes, Licenciado pela Faculdade de Medicina do Porto em 1918
]

Santo Aleixo de Além-Tâmega, é um dos povoados mais pitorescos e risonhos de Ribeira de Pena.
Estendido a meia encosta, paralelamente ao rio e muito próximo da sua margem direita, constitui um dos mais atractivos pontos, da atraente paisagem ribeirapenense, para os olhos de quem passa, lá por cima, pela estrada de Vila-Pouca de Aguiar ao Arco de Baúlhe.
Os cultores da literatura camiliana estão familiarizados com o topónimo Santo Aleixo de Além-Tâmega, porque esta aldeia foi o proscénio onde o autor fez representar a lindíssima, comovedora, Novela do Minho – “Maria Moisés”; novela, em que alguns camiliógrafos querem surpreender certos pormenores autobiográficos, como aqueles encontros amorosos da Zefa da Lage com o morgado de Cima da Vila, na Ínsua do Tâmega. Para os biógrafos de Camilo, esses encontros dos pais da Maria Moisés, na remansosa ilhazinha, não eram mais que reminiscências – a vinte e cinco anos passados – da sua vida em Friúme, e das suas entrevistas com Joaquina Pereira, bucólicas e quase infantis a princípio, comprometedoras depois, quando já só o casamento as podia sanar. Remédio único que veio a ser usado, mesmo com um noivo de dezasseis anos, mesmo sem o consentimento do tutor ou do conselho de família.
Precoce em tudo, o juvenil amanuense do tabelião de Ribeira de Pena!...
A aldeia de Santo Aleixo conta ainda hoje, como no tempo de Camilo, uma boa dúzia de casas solarengas, brasonadas umas, outras sem brasão, mas todas curiosas na sua arquitectura regional, setecentista. À roda delas e entre elas, acumularam-se as moradias de gente mais modesta, em geral tributária dos senhores proprietários – seus caseiros, jornaleiros e artífices.
Esta grande e airosa povoação faz parte do concelho de Ribeira de Pena cuja sede lhe é fronteira, na margem esquerda do Tâmega, portanto. E, para garantir a comunicação entre as duas margens, apenas existia antes de 1913, o chamado poldrado do Caneiro. Trata-se de uma pseudo-ponte rústica, constituída por padieiras estendidas sobre pés-direitos, quase à flor da água, e que poucos dias de chuva são suficientes para fazer submergir. Não há um só Inverno em que isto não suceda, uma e muitas vezes; e já do nosso tempo, houve um ano em que o poldrado esteve cinco meses, consecutivos, sem descobrir. Isto foi uma raridade, é certo; mas os períodos de submersão de várias semanas, é percalço todos os anos.
Ora, quando isto acontece, acontece, simultaneamente, que a corrente de água, tornada volumosa, se torna impetuosa, o que automaticamente suspende o trabalho das raríssimas barcas que, no Verão, atravessam o rio. É claro que, nestas emergências, o povo de Santo Aleixo tinha que se governar com a prata da casa, cortado o contacto com as coisas e as gentes da margem de além. Então, faltava tudo quanto a prata caseira não contivesse: o médico, a botica e os géneros de mercearia, eram as faltas mais prementes.
Esta coisa foi assim até 1913, ano em que um benemérito, coadjuvado por outros microbeneméritos, construiu uma ponte-pênsil, que, ao correr de alguns decénios, prestou inestimáveis ajudas à gente da terra. Era (e é, ainda) uma curiosa engenhoca aérea feita com arame zincado de ramadas, e fasqueada de madeira de carvalho, onde mal cabem três pessoas à largura, e onde os passantes quase chegam a enjoar, tão intenso é o seu balanço. Seja como for, o episódio joco-sério que se vai relatar, já não era possível acontecer depois que o grande empreendimento foi aberto ao trânsito.

Foi, até à morte, reitor da freguesia do Salvador, o senhor padre Álvaro, senhor de ascendência heráldica, natural de Santo Aleixo. Com a família muito próxima na terra onde nascera, nunca o abade se resignou a passar os dias festivos do Natal com os seus paroquianos, preferindo sempre a companhia dos seus familiares, no próprio ambiente onde se criou.
Ora, naquele ano, o padre resolveu deixar o Salvador mais cedo do que era habitual; visitava, de caminho, a Feira dos 20, feira anual da terra, que se realiza pertinho do poldrado, e finda ela, seguia directamente para Santo Aleixo. Mas a chuva, que durante alguns dias caíra do céu em catadupas, e que, no dia 20, de todo amainara, talvez para deixar que se fizesse a feira de ano, recomeçou a cair ao fim da tarde, e, quando o padre ao lusco-fusco daquele dia quase solsticial, atravessou o rio para além, já a água começava a cachoar nas padieiras do poldrado, com promessa evidente de o cobrir por completo, em poucas horas, se a chuva não cessasse de cair.
- Que sorte, hein!... Amanhã já não passava… - dizia, com os seus botões, o sacerdote, ao reparar no engrossamento da corrente.
Festivamente recebido, como sempre, pelas pessoas de família e pelos vizinhos, que deliravam com a convivência daquele conterrâneo, fidalgo e folgazão, a noite passou-a a receber amigos, a fazer as suas costumadas libações de verdasco, e a ouvir, regaladamente, no conchego alegre da ladeira, a chuva intérmina e ininterrupta que, com fragor, desabava sobre a terra.
Ora, na manhã seguinte, ainda na cama, ainda a bocejar e a pestanejar, deu fé o reitor de que, numa sala ao lado, decorria uma conversa em que a palavra bacalhau se repetia, amiúde, de mistura com referências à chuva e ao poldrado. Curioso e até um pouco suspeitoso, chamou e perguntou:
- Ó senhoras!... Então que se discute, logo de manhã?...
Discutia-se simplesmente que, por um atraso de expedição dos armazenistas do Porto, a loja da Cancela – então o único fornecedor de mercearia para a vasta região ribeirapenense – não pudera distribuir o bacalhau do Natal naquele dia 20, como era costume antigo, tendo anunciado que, sòmente no seguinte dia, a venda do artigo, entre todos nobre, seria possível.
Mas, como ir agora à Cancela, se no poldrado já se não passava desde a meia noite, e as torrentes de água continuavam sempre a engrossar o rio? Eis o assunto da conversação que as senhoras da casa entretiveram na saleta ao lado, e que, desde logo, fez arrepender o desolado padre de ter vindo.
- Iremos consoar sem bacalhau? Perguntava ele, compungido, à irmã e à cunhada.
Mas, felizmente, estavam ainda na manhã de 21 e, até 23 à tarde, havia muito tempo para o demolhar. Ponto era que se estancasse aquela maldita água, que, indiferente, continuava a despenhar-se por todos os córregos, por todos os pendores, para vir lançar-se, espumosa e suja, no sujo rio Tâmega, que, a cada momento, aumentava o seu volume e a impetuosidade do seu curso.
E todo o santo dia, o padre, enfiado, entanguido, com um xaile da cunhada aos ombros, andou pelas salas, de ronda às janelas, a inspeccionar o Sul, a inspeccionar o Oeste, a perscrutar as nuvens, na esperança de que elas se rasgassem e o sol, ao menos o azul do céu, surgisse finalmente por entre elas, triunfante, promitente de estiagem e… de bacalhau cozido. Mas nada. Sempre o mesmo negrume em todo o lado; sempre a mesma cavalgada de nuvens escuras na direcção nordeste e, de caminho, a derreterem-se em água, ensopando a terra, inundando os campos ribeirinhos…
- Com efeito!... – repetia o padre a cada passo – Natal sem bacalhau!... Pra que diabo saí eu do Salvador?...
E é que não havia recurso de improviso que, ao menos, atenuasse o mal. Toda a gente da terra, a contar com a costumada distribuição do dia 20, não quisera abastecer-se anteriormente, até mesmo porque o senhor Augusto de Cancela se ufanava, com razão, de apresentar sempre, nessa quadra festiva, os melhores exemplares da espécie – aqueles velhos bacalhaus de grande vulto e de lascas grossas, cuja vista era bastante para fazer crescer água na boca aos entusiastas.
Por isso, naquele ano, se não havia em Santo Aleixo bacalhau especial para cozer, igualmente o não havia, de menor categoria, para fazer uns tristes pastéis ou uns filetes, que alguns usavam no jantar da consoada. O reverendo, atormentado e desesperado, perguntava a cada pessoa que encontrava:
- Também foste esperto, como lá a minha gente? Natal sem bacalhau… Cáfila de brutos: guardam tudo para a última hora e agora os outros que aguentem…
E despedia, soltando uma obscenidade enraivecida.
E assim se passou o dia 21 e depois o dia 22: água sempre a cair do céu, água sempre a engrossar o rio.
Às noites, era velho costume dos seus amigos conterrâneos, irem jogar o solo com o abade, para lhe aligeirarem as horas longas daquelas noites longas. E era também costume velho do reitor, ter sempre a seu lado, junto dos feijões-fichas que serviam de marcas para o jogo, uma avantajada pichorra de verdasco com que, de pouco em pouco tempo, ia reacendendo os copos apagados dos parceiros. Isso obrigava as senhoras da casa a estarem atentas ao repetido apelo do abade, a cada passo anunciado, animadamente:
- Venha vinho… Venha vinho…
Nas noites daquele ano, de igual modo a mesa do solo se montou e a pichorra da vinhaça se instalou. Mas o atribulado sacerdote, desatento do jogo, sempre de ouvido preso à chuva que caía, mal se lembrava de beber e de reabastecer os seus companheiros, emudecidos e tristonhos com a mudez e a tristura do seu anfitrião. Por força de hábito, ainda, de longe a longe balbuciava o estribilho:
- Venha vinho…
Mas o brado saía-lhe frouxo, sem volume e sem interesse. E os próprios parceiros, acabrunhados, contagiados pelo desinteresse e alheamento do reverendo, esqueciam-se também de esvaziar os copos; e, uma vez ou outra, jeremiavam em voz baixa, subalterna e triste:
- Uma destas!... Passarmos o Natal sem bacalhau, senhor reitor!...
Em 22, à noite, tinham desaparecido todas as esperanças, porque, ainda mesmo que deixasse de chover, a altura das águas, em cima do poldrado, era tão grande, que, somente decorridos alguns dias de estiagem, a travessia voltaria a ser possível; e por isso, o reitor, ao enfiar-se nos frios lençóis de linho, procurou compenetrar-se dessa atroz realidade e conformar-se serenamente com ela. Mas, toda a grande noite volteou na cama sem lograr descanso nem resignação; e, logo ao repontar da madrugada, largou, disparou, para ir dar execução à artimanha que engendrara, durante a vigília.
Veio, acompanhado de um criado, para a beira-rio, arrostando corajosamente com o temporal que continuava a fustigar. E, do lado de lá, o inquieto padre procurava descobrir na margem fronteira, alguém que pudesse ouvir as suas ordens e se comprometesse a cumpri-las. E essas ordens, dadas em altos brados, em frases muitas vezes perdidas e muitas vezes repetidas, porque o marulhar das águas e dos ventos dispersava a maior parte das palavras, foram as seguintes:
- Que, em seu nome, dissessem aos criados da Residência, no Salvador, que comprassem, onde os houvesse, uma dúzia de foguetes da maior potência; que depois se munissem de uma corda de carro, pouco grossa, e da loja da Cancela trouxessem os melhores bacalhaus lá existentes. Isto feito, comparecessem ali, num areal da Azenha da Barca, para receberem novas instruções.
Os criados da Residência, quando lhes transmitiram as ordens do patrão, obtemperaram, atónitos:
- Foguetes?!... Para que diabo quererá o patrão foguetes, neste tempo?... E onde havemos nós de ir comprar foguetes, com um temporal assim?...
Coitados dos pobres… Tiveram que calcorrear todo o santo dia e parte da noite, debaixo de chuva, para conseguirem encontrar no fogueteiro de Ribas, em Celorico de Basto, a única meia dúzia de foguetes que o fabricante tinha em stock, e que, em vez de poderosos bombardeiros, como o padre queria, eram vistosos e garridos foguetinhos, de lágrimas de cores.
Toda aquela tarde, o reitor, impaciente, andara a descer e a subir o carreirinho que, da povoação, conduz à margem do rio: para baixo acicatado pela esperança de ver chegar os emissários propiciadores; para cima fustigado e empurrado pela chuva e pelo vento, que não consentiam demoradas permanências à beira-rio. Até ao anoitecer, porém, ninguém compareceu na azenha; e essa noite, com a da véspera, foram, certamente, as mais trabalhosas e mais dolorosas de toda a vida do atribulado sacerdote.
Mas, na manhã seguinte, logo ao alvorecer, vieram avisar que os homens da Residência estavam à espera na casa do moleiro da Barca, onde se haviam recolhido, encharcados, por noite alta.
O padre saltou logo da cama, alvoraçado e esperançado. Já era tarde, naquela manhã de 24, para se conseguir dessalar satisfatoriamente o bacalhau; mas tratando com águas fervescentes, de manhã à noite, ainda se arranjaria a que ficasse escapatório. E depois, c’os diabos, um tudo-nada de sal a mais até convinha: puxaria melhor uns quantos copitos pela festiva noite dentro.
O tempo mudara, finalmente. Já, durante a noite, se ouvira zoar a presa do Caneiro, sinal atmosférico infalível de vento nordeste. E esta mudança contribuiu também para que o reitor, ao chegar ao rio, aparecesse a esfregar, regaladamente, as mãos geladas, e abrir um largo sorriso de universal confiança e saudação: ao belo sol que começava a dourar o viso da serra fronteira, e aos belos espécimes de bacalhau lombudo que os criados ufanamente lhe mostravam de lá.
Mãos à obra. A traça que a gula do reitor arquitectara, não era mais do que a aplicação daquilo que ele vira, certa vez, num exercício de socorros a naufragos, na baía de Leixões: a montagem de um cabo entre as duas margens, mais ou menos como vira fazer além, entre a beira-mar e o suposto barco naufragado.
Naquela manhã, as instruções que vinham de lá ouviam-se muito mais distintas que as da véspera, sempre interferidas pelo vento e pela chuva; e, logo que a criadagem se inteirou do planeamento eclesiástico, o trabalhinho começou.
O padre, agora animadíssimo, esfregava e tornava a esfregar as mãos entorpecidas pelo frio, ao mesmo tempo que, de si para consigo, ia dizendo:
- Nada… Já não sou eu que vou passar o Natal sem bacalhau!...
Atou-se a ponta da corda à vara dum foguete, e o murraco aceso foi logo aproximado do polvorim que negrejava na extremidade do canudo.
- Aponta para aqui – recomendou o reitor, atento aos mais pequenos pormenores da operação.
Mas o fogueteiro improviso, habituado, desde sempre, a ver subir os foguetes em direcção ao céu, precipitou-se, não atendeu à recomendação, e deixou ir o foguetinho verticalmente, livremente. E, uma vez lá em cima, a peça pirotécnica deu os seus três estalos, uns atrás dos outros, abriu as suas rosas coloridas, e mergulhou na água barrenta do caudal, de onde foi rebocado pela corda.
O sacerdote, quando ouviu os três estalos repetidos, e viu entornar-se a cornucópia de flores variegadas, ia desmaiando de desespero:
- Que grandíssimos burros, Santo Deus!... Então estes idiotas não foram trazer foguetes de lágrimas, de três respostas?!... Raios vos partam, animais…
Era preciso recomeçar. E o padre, sempre absorvido pela sua empresa ingente, redobrou as recomendações para o segundo tentâmen:
- Agora cuidado, suas bestas; apontem bem para este lado. Isso assim… - comandava ele, ansiadamente.
Mas a segunda tentativa falhou também, como, por igual, falharam a terceira a quarta e a quinta. Os foguetes eram, já de si, de força muito limitada, e o trambolho da corda, cada vez mais embebida de água, constituía um travão adverso ao progresso deles. O reverendo enfurecia-se, desesperadamente, sempre que via os foguetes afocinhar na água, indiferentes à sua grande cólera e indiferentes ao grande temor que fazia tiritar a criadagem da Residência – nesses bons tempos idos, em que a criadagem ainda se deixava tiritar, frente a patrões irritados, por mingua do rico bacalhauzinho para o seu Natal.
Agora, além, já só existia um último foguete. Mas estavam lá também as três riquíssimas folhas do fiel amigo, a oferecerem-se, languidamente estendidas no areal da praia, com o seu indulto salino a rebrilhar ao sol, com as suas imaginadas fêveras, tenrinhas, a atenazar o padre.
- Com seiscentos milheiros de diabos!... Eu não conseguirei passar, ao menos, um dos peixes?... – balbuciava, já meio sucumbido.
Subitamente, pareceu que o amofinado sacerdote serenara. Era evidente que ao seu espírito esquentado, afluíra qualquer ideia nova, promissora, porque a sua face, vincada e inquieta, se tornara, de repente, tranquila e confiada.
Então, novas instruções dimanaram da margem direita, logo executadas pelos aterrados servidores da Residência, que batiam a sua maleita na margem fronteira.
Punha-se de lado a corda-trambolho, responsável principal dos fracassos anteriores; e, já que não era possível fazer-se a montagem do cabo transmissor, ir-se-ia agora limitar a transmigração bacalhoeira ao máximo possível, que fosse, ao menos, o mínimo indispensável.
Ao bacalhau mais cachaçudo, cortaram-se os grossos lombos, de lascas acamadas e rangentes, e atou-se, solidamente, essa peça apetitosa e preciosa à vara do foguete, a fazer corpo com ela, do lado contrário ao canudo-rastilho, para evitar a acção incendiária das faúlhas descendentes.
O eclesiástico, se, até então, estivera sempre com todos os sentidos amarrados às operações fracassadas, agora foi com a ansiedade que as almas confrangidas põem na luz da derradeira esperança, que orientou o auspiciado trabalho. E foi talvez por isso, que, desta vez, as recomendações finais aos seus colaboradores, foram emitidas num tom suplicativo, de quase humildade:
- Agora vede lá, rapazes… Não erreis desta vez, por amor de Deus… Aponta bem para aqui… Isso, assim, Manel…
Viu-se o morraco incendiar a pólvora do rastilho; e viu-se o foguete, um momento hesitante nos dedos do fogueteiro, como se estudasse o seu itinerário em função da carga a transportar, erguer-se um pouco no ar, e seguir depois, aos sacalões, em direcção à outra margem. Mas, talvez em razão desses movimentos sacudidos, zigue-zagueantes, como que a quererem alijar o contrapeso; acaso também porque as fagulhas tenham incendiado o atadeiro – o que é certo é que o peregrino naco de bacalhau lombudo, se desprendeu da cana e mergulhou, imediatamente, nas fauces vorazes do rio infame. E, uma vez sacudida a carga odienta, o foguetezinho estrondeou festivamente as suas três respostas, espargiu, no ar diáfano da manhã soalheira, o ramalhete das suas flores vistosas, e veio cair, extinto e para sempre inútil, mesmo aos pés imobilizados e descoroçoados do senhor reitor.

........................................................FIM

NOTA IMPORTANTE
Em http://www.staleixoalemtamega.com/ (FREGUESIA DE SANTO ALEIXO DE ALÉM-TÂMEGA - RIBEIRA DE PENA) pode ler-se:

Ponte Pênsil
«Perdida no meio da vegetação ribeirinha do Rio Tâmega, a unir as duas margens e populações de Santo Aleixo de Além Tâmega e Salvador, em Ribeira de Pena, encontra-se uma Ponte de Arame ou Ponte Pênsil, cuja construção remonta a 1913. A Ponte está suspensa por arames retorcidos sobre si mesmos. E são mais de uma centena que se contorcem num cumprimento de quase 20 metros. A força de suspensão enterradas nas fragas, em ambas as margens do rio Tâmega, oferece a garantia de segurança na sua travessia. Um percurso que é feito pelo passadiço de 1,5 metros de largura em madeira, que é também a base dos cabos de arame que dão origem às paredes laterais da estrutura.
Actualmente fora do uso para que foi construída, esta “ponte do engenho” já mereceu a atenção do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), apontando como peculiaridade do monumento o facto de a ponte estar suspensa por arames retorcidos sobre si mesmos. Actualmente, a manutenção da ponte está a cargo da Câmara Municipal de Ribeira de Pena que, no final do ano passado, procedeu à recuperação do passadiço de madeira. Cuidados que, no entender do IPPAR são imprescindíveis, considerando mesmo que, este monumento deveria estar classificado face ao valor municipal que representa. Enquanto tal não acontece, uma certeza persiste:
Este ex-libris da região de Trás-os-Montes continua suspenso, à espera de uma visita por parte dos mais curiosos.»
História da sua construção
«Conta a tradição que a Ponte de Arame de seu nome nasceu de uma ideia de um padre engenhoso, Álvaro Pimenta, natural de Santo Aleixo de Além Tâmega mas, pároco do Salvador.
Estando o Natal à porta e vivendo-se, naquele ano, um Inverno excepcionalmente rigoroso, o padre viu-se impedido de ir a casa em época tão importante. Mais ainda, não havendo em Santo Aleixo nenhum local de abastecimento dos mantimentos para a consoada, com o rigor do clima a não acalmar, as águas tumultuosas a provocar uma perigosa correnteza, a travessia para a outra margem para comprar presentes e o tradicional bacalhau para a consoada, estava posta em causa. Antevendo uma quadra de abstinência e de jejum, teve ideia de fazer chegar o bacalhau do lado de lá do rio utilizando um cabo de arame e uma roldana. Mas há também quem diga que o impaciente padre tentou resolver o problema do abastecimento do bacalhau, recorrendo ao sistema de envio por foguetes, com a ajuda de um seu empregado que estava do lado de lá da ponte. Contudo, o dito não teve competência para o efeito ou a força do foguete não foi a bastante, para que o feito não tivesse sido feito. E assim, foram dados os primeiros passos para a união das freguesias de Santo Aleixo de Além Tâmega e de Salvador, pelas suas margens.»

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