sábado, 24 de abril de 2010

Tarzan é angolano - III

Quase 100 anos depois, os admiradores de Edgar Rice Burroughs e de Tarzan continuam numerosos. Há uma quantidade imensa de textos que podemos encontrar sobre o escritor e sobre o herói na internet. Há quem sugira até o termo “Erbologia”, de ERB (Edgar Rice Burroughs), embora me pareça que o termo mais apropriado, mantendo o absurdo, seria “Tarzanlogia”. Pois bem, entre os mais famosos “tarzanlogistas”, destaco Philip José Farmer.
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Farmer (Indiana, EUA, 1918-2009) foi um grande escritor de ficção científica do século passado. Da mesma geração de Asimov e de Heinlein, foi o autor da espetacular saga “Riverworld/Mundo do Rio”, leitura obrigatória a todos os apreciadores do género. Farmer foi desde criança um admirador das histórias de Burroughs e em particular das de Tarzan.
Em 1972 Philip José Farmer publica uma entrevista com Tarzan na revista americana Esquire sob o título “Tarzan Lives/Tarzan Vive” - a entrevista foi incluída mais tarde no “The Book of Philip José Farmer” com o título “An Exclusive Interview with Lord Greystoke/Uma entrevista exclusiva com Lorde Greystoke”. Retiramos dela o excerto que nos interessa:

(...) Farmer: Em Tarzan dos Macacos, o primeiro livro de Tarzan, Burroughs diz que em 1988 a sua mãe, então grávida, acompanhou o seu pai a África numa missão secreta para o governo britânico. Eles alugaram um pequeno navio, mas a tripulação amotinou-se e abandonou os seus pais em terras africanas. Eles foram deixados nas costas da Angola portuguesa, aproximadamente a dez graus de latitude Sul ou cerca de 15 centenas de milhas a Norte da Cidade do Cabo. Mas parece-me que muitas das cenas do livro não poderiam ter lugar em Angola.
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Tarzan: Está correto. Na verdade os meus pais foram abandonados nas praias deste país, Gabão [a entrevista realiza-se no Gabão de acordo com a Esquire – mais tarde Farmer revelaria que de facto a entrevista se dera em Chicago], que era então uma parte da África equatorial francesa [ou mais corretamente, “Congo francês”]. Nasci a 190 milhas ao Sul daqui, no que agora é o Parque Nacional do Pequeno Luango. Acredito que qualquer pesquisador podia tê-lo deduzido dos factos. Existiam gorilas no meu território natal, mas não existem gorilas a Sul do Congo, e Angola localiza-se muito para lá do Sul do Congo. Também houve o caso do cruzador francês que foi a terra próximo do mesmo local, anos mais tarde, e que salvou o grupo do Professor Porter, incluindo a minha futura mulher Jane, mas que deixou para trás o Tenente Arnot, o meu primeiro amigo civilizado. Porque é que um navio de guerra francês estaria a patrulhar as costas de Angola, uma possessão portuguesa?
Farmer: Não existem leões, zebras ou rinocerontes nas florestas do Gabão. E acerca daquele episódio com a leoa, que Burroughs descreveu, em que o senhor lhe partiu o pescoço com um abraço por detrás, quando ela estava a tentar entrar na cabana dos seus pais para apanhar Jane?
Tarzan: A leoa foi na verdade um leopardo. Era do tamanho de uma pequena leoa, um dos grandes leopardos a que os nativos chamam injogu. Eu parti-lhe o pescoço. Como sabe, sozinho inventei o abraço por baixo dos braços, apanhando a parte traseira do pescoço, quando lutei contra o grande macaco mangani, a quem Burroughs chamou Terkoz.
Farmer: Bem, então como explica as discrepâncias entre Burroughs e os factos?
Tarzan: Senhor Farmer, a relação entre a minha vida e a narração de Burroughs é muito complexa. Por várias razões, eu decidi não lhe dizer tudo o que sei acerca dos métodos de Burroughs ou dos meus; mas posso falar-lhe sobre as suas motivações, algumas das quais pode já ter descoberto por si próprio. Em primeiro lugar, Burroughs era essencialmente um romancista. Ele não estava obrigado a ser limitado pelos factos, (...).
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Muito curiosa esta entrevista. Quando os factos contradizem com o nascimento de Tarzan em Angola [existência de gorilas], Farmer conclui pelo Gabão. Quando os factos dizem o contrário [existência de animais da savana], é porque Burroughs fantasiava porque era um romancista. Tentemos pois ser claros e consistentes. Nos finais do século dezanove, principio do século vinte, não existia qualquer informação para um americano sobre a distribuição dos gorilas em África (mesmo que tivesse lido Paul du Chaillu ou acompanhasse as informações da National Geographic e as notícias das expedições ao continente africano). Burroughs não poderia ter essa informação porque simplesmente não se sabia ainda. Na Europa ou na América. O que Burroughs conhecia muito bem era a cartografia e foi muito claro quanto à localização que não deixa dúvidas: Angola!
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Quanto aos barcos de patrulha franceses, eles teriam sempre de passar junto das costas angolanas quando se dirigiam para as colónias francesas que ficavam do outro lado do continente africano, como Madagascar, ou para as que ficavam na Ásia.
Quem nesse tempo fizesse essa viagem de barco, teria uma visão semelhante aquela descrita por Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens (De Angola à Contracosta, 1886):
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(...) A disposição, de mais em mais elevada, das terras opera notáveis mudanças na vegetação, e ao quadro que acabámos de descrever sucede-se, à medida que vamos para o interior, outro de mais risonho aspeto, pelas árvores gigantes que tudo cobrem com a sua folhagem, elevadas gramíneas e numerosas palmeiras oleosas.
No paralelo de Luanda, as grandes florestas aproximam-se muito do litoral, vendo-se em Cazengo e Golungo os mais formidáveis exemplares africanos.
Junto ao mar, enfim, e entre os rios Bengo e Cuanza, é triste o quadro que se revela na nudez das barreiras avermelhadas do Cacuaco, Dande, etc., e nas ondulações interiores de Caculo-Cassongo e outros pontos (...).
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Não só existiria floresta densa em Angola, como existiram desde sempre gorilas em Angola, no enclave de Cabinda (no Maiombe), e nada nos diz que noutros tempos não pudessem existir mais a Sul.
Outra hipótese além dessa: os mangani, supostos gorilas que teriam adotado Tarzan (ver NOTA) seriam na realidade gorilas ou alguma espécie diferente entre o homem e o gorila? Que eu saiba os gorilas não comunicam através de palavras articuladas como faziam os mangani, que chamavam aos outros gorilas, Bolgani (ver vocabulário dos mangani no artigo de Jairo Uparella já citado em Tarzan é angolano – I e http://www.straightdope.com/columns/read/1973/what-kind-of-ape-was-tarzan-raised-by).
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Certo, certo, é que Tarzan, segundo Edgar Rice Burroughs teria nascido algures em Angola, provavelmente próximo do Parque Nacional do Quiçama, em nossa opinião na foz do rio Cuanza.
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NOTA: A adoção de Tarzan por um animal ou um ser “animalesco” da selva africana, faz-me lembrar “Kurica – Romance dos Bichos do Mato” de Henrique Galvão (1895-1970) publicado em 1944, onde o jovem pequeno leão Kurica é adotado pela macaca Paulina [segundo Galvão as personagens deste romance na realidade existiram, e por isso inclui uma foto dos verdadeiros animais nas páginas iniciais do livro].
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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