quinta-feira, 13 de maio de 2010

André Brun (1881-1926): I - Autobiografia.

“Autobiografia” de André Brun, do seu livro “Consultório Psicológico, doenças do coração e miolo”,
Edições Gleba, 1935.
Notas da responsabilidade deste blogue

Nasci em 1881 em Lisboa, na Rua do Salitre no prédio onde então vivia e depois se suicidou Júlio César Machado(1).
Meu avô paterno, Regis Clement Brun, era rachador de lenha em Sassenage, cerca de Grenoble, e pai de treze filhos, dos quais o undécimo casou com minha mãe, Ana Lodoyskd Nougaraid, filha de François Laurent Nougaraid e André Seguis. Este meu avô materno foi, no seu tempo, um aventureiro. Começou por ser curtidor de peles. Como tal, iniciou e concluiu o seu “tour-de-France”. Foi, além disso e que eu saiba, negociante de carnes na América do Sul, diretor de museus de figuras de cera que passeou em Portugal e no Brasil; aeronauta, tendo feito subir um burro em balão de fumo; inventor com patentes requeridas para várias engenhocas entre elas um filtro popular e uma gasosa de flor de sabugueiro. Faleceu professor de francês, estimadíssimo por quantos o conheciam. Não cuido que possa haver criatura mais alegre. Sabia milhares de canções, desde as de Beranger(2) às de Desaugiers(3), desde as de Pierre Dupont(4) até às tradicionais dos mil recantos da França por onde tinha andado. Minha mãe era também muito alegre. Meu pai levava o dia trabalhando e cantarolando. Viera para Portugal para dirigir as oficinas de luvaria da Casa Malbonissou, do Chiado, e, pouco depois, tomou para si uma loja na Rua da Cruz dos Poiais, que chegou a ter celebridade em Lisboa. Cresci num ambiente de alegria e assim explico que tenha sido quase sempre alegre e que o meu bom humor só me tenha desamparado nas horas realmente graves da minha vida. Aos seis anos sabia ler. Aos oito fazia exame elementar com distinção. Aos dez começava o curso dos liceus. As ideias de meu pai eram ensinar-me o seu ofício para que eu continuasse a obra que ele tinha criado. Luveiro era então, realmente, um excelente ofício, mas um pouco violento e eu era quase microscópico. Continuei, pois, a estudar e achei-me às portas da Politécnica. Aqui se coloca uma esquina interessante da minha vida. Eu era francês. Os estudos feitos em Portugal de nada me serviam em França. Meu pai não tencionava lá regressar e pretendia terminar tranquilamente os seus dias. Eu sentia uma certa vocação para a marinha. Desconfio que era influência da leitura do Loti(5), pois ainda hoje não sei nadar.
Pedi a meu pai que me deixasse optar pela nacionalidade portuguesa e concorrer à Naval. Levantou-se uma formidável objeção. Meu pai fizera a guerra de 1870, tinha encasquetada(6) a ideia da desforra e, calculando que, quando ela chegasse já estaria velho, contava comigo para o substituir. “Et s’il y a la guerre?”(7).
Então eu tomei um compromisso solene:
- “J’irai, n’importe comment” (8).
Só assim ele consentiu que eu mudasse de nacionalidade. Concorri à Naval, fui rejeitado por falta de vista, tentei entrar para a Alfandega, fui rejeitado por falta de empenhos, e, tendo meu pai falecido quase subitamente, fui forçado a entrar para a Escola do Exército para o curso de infantaria.
Dentro dessa arma, rainha dos batalhões, atingi o posto de major que me foi dado por distinção nas trincheiras de França, onde cumpri o melhor que pude a promessa feita a meu pai. Tenho várias condecorações militares, entre elas a Cruz de Guerra e o Valor Militar.
Como disse, aos seis anos sabia ler. Tive o furor da leitura, li, li, li tudo que me foi parar às mãos. Com vários camaradas fundámos um cenáculo artístico “Águia” onde havia literatos, pintores, músicos, caricaturistas e que fazia quanto podia para imitar o de Murger(9). Foi aí que declamei os meus primeiros versos e li os meus primeiros ensaios de prosa. Eram meus companheiros Carlos Simões, Francisco Valença, Manuel Ribeiro, Fernando Germak, Carlos Walbeem, Eugénio Vieira, Munzó Navarro, Luís Silva, Bernardino Chagas. Apareciam de vez em quando Rocha Martins e Forjaz de Sampaio.
Foram ali escritas muitas das páginas que compõem os “Dez contos em Papel”.
Em 1907 comecei colaborando nas “Novidades” e no “Suplemento Humorístico do Século”. Ao cabo dum certo período desta última colaboração achei-me com o material suficiente para um livro alegre, quase de disparates, que levei ao editor Paulo Martins, da Guimarães & C.ª. O sucesso foi enorme. O “Sem pés nem cabeça” teve como sucessores o “Cada vez pior” e “Sem cura possível”.
Era género novo que aparecia no mercado dos livros.
Com efeito, antes, e a não ser “Lisboa em camisa” de Gervásio Lobato, onde havia um livro alegre escrito em português?
Em dezasseis anos editei vinte e dois volumes. Sou – e dizem-no o número de minhas edições e o dos exemplares impressos, bastante mais de cem mil – um dos escritores portugueses que mais se vendem. Isso nada prova acerca do mérito da minha obra, senão que o público por ela se tem interessado. A par da minha obra livresca, tenho obtido no teatro os mais lisonjeiros êxitos e alguns indispensáveis proventos. Entre originais, adaptações e produções, o meu nome figurou, até à data, em cinquenta e nove cartazes diferentes.
De todos os meus livros prefiro sentimentalmente “A Malta das Trincheiras” pelo muito que de mim mesmo lhe anda ligado. Artisticamente prefiro “A folhinha de qualquer ano”. É nesse livro variado, ferindo notas muito diversas, que é mais fácil estudar a minha personalidade literária, se é que a tenho digna de estudo.
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(1) Júlio César Machado, 1835-1890, escritor.
(2) Pierre-Jean de Béranger, 1780-1857, compositor francês de canções populares.
(3) Marc Antoine Désaugiers, 1739-1793, compositor francês de óperas cómicas.
(4) Pierre Dupont, 1821-1870, compositor e poeta francês.
(5) Pierre Loti, 1850-1923, oficial da marinha e escritor francês.
(6) Metida na cabeça – visto que um casquete é uma cobertura para a cabeça, como um barrete ou uma carapuça.
(7) “E se houver guerra?”
(8) “Eu irei, não interessa como”
(9) Henri Murger, 1822-1861, escritor francês, artista boémio do Quartier Latin.

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NOTA FINAL: Brun foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores em 1925. O nome então era Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Esse facto não está mencionado no texto, que provavelmente é anterior. Talvez de 1923.
Ver em

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Ver também André Brun: II - Bibliografia.
e André Brun: III - epílogo.
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

2 comentários:

  1. Parabéns! Em casa do meu avô havia um livro, “Os meus Domingos”, colectânea das crónicas humorísticas de A.B. no Diário de Notícias ao Domingo. Tinham muita graça. As caricaturas que as acompanhavam eram, se não estou em erro, de Francisco Valença. Recordo que tinham muita graça. Ao que parece, apesar da sua veia humorística, provavelmente por ter sido gaseado na primeira grande guerra, fazia-se de macambúzio. O avô de uns amigos meus, o capitão Carneiro, tinha ido visitá-lo depois de gaseado ao hospital de campanha em França. Perguntou-lhe: “- Então André, como é que vais? – Como é que tu queres que eu vá? De fato novo e sapatos pretos”. Uma outra que me contaram pode ser verdadeira ou apócrifa: Haveria em Lisboa (e, acrescento eu, provavelmente no Chiado), uns saraus literários em casa da D. Carlota Serpa Pinto. Uma vez André Brun foi a um desses saraus. As senhoras não o largaram, pedindo-lhe que contasse uma das suas histórias. André não queria. Depois de muito instado, lá acedeu: “- Isto passou-se na Arca de Noé. O leão foi ter com Noé queixando-se: - Ó Noé, tens que chamar a atenção ao macaco: Anda sempre a meter-se com a minha mulher. No dia seguinte foi o girafo: - Noé, diz ao macaco para não voltar meter-se com a minha mulher. Ao fim de um tampo, Noé já estava farto, e mandou chamar o macaco: - Ó macaco, vê lá como te comportas. Isto é um sítio de respeito, a Arca de Noé. Não é nenhum sarau literário da D. Carlota Serpa Pinto!” António Santos Fernandes, Estoril

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  2. Muito obrigado, e agradeço-lhe também o comentário e a recordação de André Brun. Ele tinha um jeito natural para fazer humor. Encontrei Brun por acaso num antigo alfarrabista e desde aí, tenho sido admirador. Consegui comprar e ler uma grande parte dos seus livros, na generalidade baratos e esquecidos. Não é impossível acontecer, que passada esta fase embasbacante dos bits e dos bytes, voltemos a valorizar a leitura dos livros - e, por muito que me custe - mesmo que não seja em suporte de papel. Então, André Brun será certamente redescoberto.
    Melhores cumprimentos
    Ricardo Esteves

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