sexta-feira, 21 de maio de 2010

André Brun: III - epílogo.

Prolóquio
Em “Os meus domingos”, terceira série, 2º milhar, de 1926, ano de falecimento do autor.
Notas da responsabilidade deste blogue.

Este é sem dúvida, o último livro que publico. Quero, pois, despedir-me de ti, leitor incauto, paciente e generoso.
Que as bênçãos do Céu se derramem sobre a tua cabeça! Que as rosas da ventura brotem do basalto da rua em que tu moras a cada passo que nele te apeteça dar! Que as notas de mil escudos te floresçam nos bolsos a cada suspiro que teus lábios soltem! Que o câmbio volte para a casa dos trinta e a gabardine cubra a preços razoáveis o teu corpo airoso! Que de todas as prosperidades que te desejo compartilhem teus parentes e aderentes, esposas, concubinas e hetairas(1) anexas. Estes são os votos sinceros deste teu humilde servo, prestes a deixar um mundo de enganos para ir gozar no Paraíso as delícias eternais e prometidas, em nome de Alá, por Mafoma(2), nosso profeta, aos homens de boa fé que conservassem a sua alma pura.

Todos me conheciam. Sabido era que, chegado aquela idade feliz dos quarenta e poucos, em que o homem é finalmente uma bela flor desabrochada, eu levava uma vida de trabalho modesto, independente, resignado e alegre. Não tinha outra ambição que não fosse angariar, sem prejuízo do vizinho, os milhões de centavos necessários à minha decente sustentação, indispensável agasalho e honesto recreio. Não punha as minhas intenções mais alto que o razoável. Não pretendia ser administrador gerente do Teatro Nacional, não intrigava para que me nomeassem liquidatário dos Transportes Marítimos e não pedira para ir à exposição do Brasil nem como intelectual, nem como barbeiro, nem como bailarina. Minha alma pairava, serena e sem motor, sobre os abismos sem fundo que separam outubristas de democráticos, nacionalistas de sindicalistas, extremistas de ultraconservadores e todos os dias, após as minhas abluções matinais, prosternava-me, voltado para Meca, e a Alá suplicava que entre os homens estabelecesse a concórdia necessária para a felicidade de todos e a integridade do meu esqueleto. Respeitava todas as crenças e todas as religiões, desde a cristã em que foi embalada a minha infância até à muçulmana, à qual me converti ultimamente após larga e proveitosa ponderação. Amava o próximo como a ele mesmo e não lhe desejava a mulher senão à sorrelfa(3) para evitar balbúrdias em casa e falatórios na vizinhança. Convivia quanto possível com os indígenas e nas horas em que, como o meu falecido confrade nas letras Lope de Vega, me parecia que para andar comigo me bastam mis pensamientos, fazia-o sem desprimor para ninguém e não desfazendo em quem está presente. Escrevia com pena inábil e despretensiosa, para possível regalo dos meus contemporâneos de boa boca literária e com o fim de auferir alguns indispensáveis direitos de autor, livros de singela trama e despretensioso estilo, bem como entremezes(4), comédias, farsas e outros divertimentos de tablado, tendo o cuidado de em meus escritos maltratar o menos possível a opinião dos outros e a sintaxe de concordância, senhoras a quem todo o respeito é devido.
Tratava de realizar os meus créditos – que nunca é bom deixar por mãos alheias – e de pagar as minhas dívidas. Cada noite recolhia ao meu catre e cada manhã dele me erguia com a consciência relativamente tranquila, não tendo a mínima responsabilidade, como é sabido, nem com os desgostos da Arábia infeliz, nem no descalabro das finanças nacionais, nem nas vicissitudes políticas do meu velho amigo e correligionário Lloyd George. Terminada a Grande Guerra, arrumara num canto do guarda-fato a minha espada de major e, tendo-a sacado com razão, embainhara-a, não direi com glória, mas com cuidado de a azeitar para que se não enferruje. Seguindo os conselhos da verdadeira sabedoria, esquecia o dia de ontem e não cuidava do dia de amanhã, quando, de súbito, Aquele que tudo sabe e tudo pode me anunciou a minha morte próxima.

Há quase três anos, regressado de França e das minhas peregrinações aos campos da Flandres e às boites de Montmartre, voltei a fixar residência nesta Lisboa que me vira nascer, em cujas setes colinas tinham folgado a minha infância, a minha adolescência e a minha mocidade. Durante os dez semestres que durara meu apartamento, entre outros problemas da vida agravara-se o da habitação e, na ânsia de procurar um teto que cobrisse a minha cabeça, depois de calcorrear meia cidade acabei por alugar, a peso de papel-moeda, um rés-do-chão á beira do hospital de Rilhafoles(5), numa das artérias do arteriosclerótico bairro do Conde Redondo.
Os meus penates são compostos essencialmente, como nove décimas partes das casas de Lisboa, dum corredor que liga a casa debruçada sobre a rua á que espreita os quintais da retaguarda. Dum e outro lado desse corredor abrem-se portas de vários compartimentos, tais como o quarto dos baús, o gabinete de pensar, a dispensa, o almário(6) das criadas. Na casa da frente fiz a minha oficina de homem de letras. No outro extremo, a vontade dos construtores situara a casa de banho. Esses construtores, ainda hoje senhorios da casa, eram no tempo em que o Deus dos cristãos andava pelo mundo e nem todos os animais falavam, um deles servente de pedreiro, o outro carpinteiro de obra grossa e ambos proletários inconscientes e desorganizados. Um dia veio-lhes a ideia de construir prédios e procuraram um dos muitos indivíduos que há por essa Lisboa dispostos a emprestar dinheiro mediante seguras hipotecas e avultados juros. Poucos meses não eram passados que não se erguesse do chão, nas piores condições de conforto e de segurança, o sonho desses dois lusitanos audazes e empreendedores. Mal foi construída a casa, logo sobre ela se precipitou a necessidade de vários, entre os quais me deverão contar a História e a Crónica.
As rendas eram fabulosas, se recordarmos as idades felizes a que mais acima discretamente faço alusão. Mas que remédio! O cidadão necessita por lei dum lugar onde habite, o pensador carece dum refúgio onde “emigre para o interior” quando assim lhe convenha, o homem de sociedade, depois da invenção dos bilhetes de visita, não pode passar sem uma casa às ordens de V. Ex.ª...
O pior, meu querido leitor, é que, há dias, mal acabavam de soar na velha catedral do relógio da casa de mastigar as onze badaladas das vinte e três horas, se ouviu na casa de banho um estrondo arrepiador e, ao passo que um curto-circuito geral enchia de trevas os restantes compartimentos, da citada casa de banho saíam gritos aflitos e lancinantes. Quando á luz duma vela se conseguiu verificar o que acabava de suceder, eu pude, sem ideia de pecado, contemplar as pernas da minha vizinha do primeiro andar penduradas dum formidável buraco aberto no teto do meu lavatory. Passado algum tempo e mercê de vários e engenhosos meios mecânicos, a pobre senhora foi extraída da sua perigosa situação e eu, de castiçal na dextra, deixei correr os olhos doloridos sobre as ruínas do esquentador, dos frascos de loção capilar e ergui do chão, onde jaziam em pedaços o boiãozinho da brilhantina destinada á ondulação do meu cabelo, por tantos suposta natural.

Recolhi á minha câmara, triste é certo, mas resignado. Os desígnios de Alá são sempre justos. Este é o princípio do fim. Depois do teto da casa de banho, vai abater o da cozinha, que já tem gretas maiores que as do edifício social. A seguir cair-me-á sobre a cabeça e quando eu estiver dormindo – quem sabe? Talvez sonhando, o teto do meu quarto. Todas as madrugadas, pela altura das três horas, eu oiço, através da diáfana(7) e estucada renda que nos separa, alguém déverser le trop plein de son coeur(8) num caseiríssimo utensílio de louça esmaltada. Dizem-me ser uma criada de idade que, na casa de cima e com pontualidade invejável por todos os doentes de bexiga, exerce as suas funções diuréticas. Pois é sob essa criada de idade que estou destinado a sucumbir uma noite destas.
Prepara, meu caro leitor, a tua sobrecasaca de comparecer, se estás disposto a acompanhar o meu préstito(9) fúnebre. Vou morrer vítima dos gaioleiros, dos homens das hipotecas e das repartições da Câmara Municipal. Mas perdono a tutti. Não lhes guardo rancor. Alá o determina! É a sua vontade que eu seja colhido ainda formoso e na flor da idade, antes que os anos me transformem numa barriga de água ou num podagra(10) senil. Assim seja! In’ch’ Allah! Se Alá quiser!
Quando a velha criada de cima desabar com seu vaso de louça esmaltada em cima desta cabeça, dentro da qual, como na de André Chenier(11), il y avait peut-être quelque chose(12), não derrames, meu amigo, lágrimas inúteis sobre o meu corpo inerte. Não te peço que plantes á beira da minha campa o chorão que Musset(13) requisitava á posteridade. Mas que a minha morte sirva de exemplo! Ergue a tua tenda num descampado; dorme ao relento fazendo das pedras cabeceira e das estrelas cobertor, como aconselha a trova(14); vai pernoitar às esquadras de polícia e vive de dia nos bancos de jardim; mas nunca a tua fantasiosa imaginação te sugira o alucinado propósito de residir nas casas novas do bairro Conde de Redondo!...

(1) Eram assim chamadas na antiga Grécia, as “companhias femininas”
(2) Maomé
(3) Dissimuladamente
(4) Composição dramática de género burlesco
(5) Hoje é o Hospital Miguel Bombarda
(6) Armário
(7) Transparente
(8) Derramar o conteúdo transbordante do seu coração
(9) Procissão
(10) Gota nos pés
(11) André Marie Chénier (1762-1794) – poeta francês
(12) Existiria talvez qualquer coisa
(13) Alfred Louis Charles de Musset-Pathay (1810-1857) – dramaturgo, poeta e romancista
(14) Penso que André Brun se refere a:
“Quem tem amores vai dormir
Na porta do seu amor
Das pedras faz cabeceiras
Das estrelas cobertor.”
Em “Recordações do escrivão Isaías Caminha” de Lima Barreto (1881-1922), escritor brasileiro, onde a quadra é apresentada como trova popular
Ver em
O Cancioneiro Geral dos Açores de Armando Cortês-Rodrigues inclui uma quadra
muito parecida:
“Hei de deitar-me a dormir
Á porta do meu amor:
Pedras serão cabeceiras,
As estrelas cobertor.”
(Sta.Maria)

André Brun, como aqui confessa, tinha-se convertido ao islamismo e acabou por falecer pouco tempo depois, mas por motivos completamente diferentes dos invocados neste “Prolóquio”. Exatamente às quatro horas e cinco minutos da madrugada de 21 para 22 de Dezembro de 1926. A descrição dramática do Diário de Notícias, onde Brun publicou inúmeras crónicas, é realizada por um amigo próximo, do jornal, que esteve a seu lado nos últimos momentos - talvez tivesse sido o próprio Eduardo Schwalbach, então diretor da publicação. O artigo não tem assinatura mas, o que me faz desconfiar de ter sido Schwalbach, é a autoridade de quem escreve e o facto de, a notícia, ter saído ainda na edição do mesmo dia, a 22 de Dezembro: “(...) André Brun foi sempre, fisicamente, um fraco. A vida das trincheiras na Grande Guerra e, principalmente, os gases asfixiantes concorreram para ainda mais depauperarem a sua saúde. Veio de lá excessivamente abatido e, desde então, a tísica da laringe e a tísica pulmonar, numa aliança daninha, entraram no afã de lhe encurtar a vida (...).”

Ver também André Brun (1881-1926): I - Autobiografia.
André Brun: II - Bibliografia.
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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