sábado, 5 de junho de 2010

Crenças Populares I - As doenças

“Ares e Males” por Antero de Figueiredo
Em Antologia Portuguesa organizada por Agostinho de Campos, volume com textos selecionados, da autoria de Antero de Figueiredo publicado em 1923 pelas Livrarias Aillaud e Bertrand

(Notas da edição original em parêntesis curvo)
[Notas da responsabilidade deste blogue em parêntesis recto]

Ah, as doenças!
Um ar as traz, um ar as leva! Qual? O ar da figueira, o ar do cisco, o ar da fresta, o ar do postigo – o ar disto, o ar daquilo. Como? Porquê? Ninguém o sabe.
- “Dá-nos o Tranglo-Mango”[1] – eis tudo!
Mas quem faz caso de doenças? Ninguém. Como vieram, vão. O melhor é atirá-las para trás das costas, que elas lá passam; e, se não passarem, temos as ervinhas que tudo curam, os unguentos que tudo saram, os emplastos que tudo levantam.
.
A eripsela talha-se com nove folhas de hera e nove pingas de água, ou seca-se com palhas-alhas em azeite fervido; o flato do estômago expulsa-se com cidreira e limonete; à espinhela caída levanta-se a brandeza[2] com emplastos confortativos de murtinhos abeberados em vinho. O fogo do cobrão (1) apaga-se com alhos esmagados em vinagre; as quartãs[3] desaparecem com chás de casca de carvalho; as impigens alimpam-se com saramagos esmagados, ou com esfregadelas de saliva, em jejum; as verrugas caem com leite de ceruda(2); e as catarreiras deitam-se fora com tarraçadas[4] de vinho quente e mel, tomado na cama e abafado com montanhas de cobertores de papa, de talhaduras(3) – todos os manteiros que houver na casa!
Se se trata de desnocado(4) ou mau jeito, chama-se o endireita, que, com esticões – puxa daqui, puxa dali – tudo leva aos jogadouros. Se é quebra de osso, nivelam-se os tutanos, encaneiam-se as carnes com tabuinhas ou malhais, e, depois de bem corridos os dedos pelos tendões, para os apertar, empapam-se as ligaduras em aguardente e sal, e espera-se que a Natureza obre por si. E obra: em poucas semanas, o osso da criatura ou bicho solda, forma calo, e por aquele sítio é que não arreda mais!
Ás vezes, porém, os males não se vão embora nem com ervas nem com mezinhas. O mal é outro: é mal de mau-olhado, de quebranto, de feitiço, de enguiço – de queixas várias, já agoiradas no uivar de cães, no piar de mochos. É carântula[5], é embruxamento. Para o curar, lá estão as mulheres de virtude. Essas, sim, são sábias a valer. Veem o invisível; ouvem o silêncio; cheiram cheiros que ninguém pressente; apalpam sombras; saboreiam a luz. Dirigem-se diretamente aos sopros vitais que ensalmam e encantam. Predizem. Não se servem de boticadas – mixórdias, mas de estremalhadas palavras de transposto sentido ignoto, doutas e espirituais, contendo poderes de magia afugentadora, que tudo degradam, tudo lançam fora. Essas mulheres sabem secretas rezas salutadoras – falas com santos – sapientíssimas. Ante elas, os espíritos ruins espantam-se e abalam. É um saber sagrado e que vem de toda a antiguidade!
Respeito!
(...)

[1]=doença provocada por um feitiço; do galego, tangano-mangano.
[2] =brandura; “levantar brandeza” creio que tem o sentido de “efeito miorrelaxante”; o oposto a dureza.
(1)=cobrelo; erupção da pele atribuída pelo povo à passagem de alguma cobra pela roupa.
[3]=febre intermitente.
(2)=celidónia; erva-andorinha.
[4]=tigelada.
(3)=mantas.
(4)=deslocamento, desarticulação. Voc. pop., formado talvez por influência de nó (articulação).
[5]=caracteres ou imagens de que se servem os feiticeiros.

Ver também Crenças Populares II – As moiras encantadas
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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