sábado, 12 de junho de 2010

Crenças Populares II – As moiras encantadas

“As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve” por Ataíde Oliveira (1), Tavira, 1898.
Notas da responsabilidade deste blogue.

Na introdução do livro, Ataíde Oliveira apresenta a conquista do Algarve aos mouros, pelo rei Afonso III, como acontecimento de “celeridade pasmosa”. Muitos mouros fugiram e outros, talvez acreditando que “nova invasão sarracena viesse colocar tudo no antigo estado, ou porque se doíam de deixar este belo torrão, em que tinham sido criados, preferiram ficar na província, escolhendo as cavernas e as furnas para a sua habitação, de dia, ousando apenas sair alta noite. A habitação nas cavernas não lhes era estranha. Em vista do exposto fácil me parece explicar a origem das lendas das mouras encantadas e dos encantamentos.”
Fosse como fosse, os receios ficaram, e não apenas no Algarve [embora aqui mais frequentes], mas um pouco espalhadas pelo país. Ataíde Oliveira conta esta história:
“Quando uma velhinha do campo me narrou o episódio de uma moura, que pretendia atrair a si com promessas de diamantes e outras riquezas um mancebo, percebi que tremia.
- Mostra estar com medo! Observei-lhe.
- Se lhe parece! Se o mancebo tocasse somente com um dedo na mão da moura ficava eternamente perdido...
- Porquê?
- O simples toque de um dedo era o bastante para o moço perder os santos óleos, que recebera no batismo, e ficar ali preso por anos sem fim.”
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Uma das razões que dá maior interesse ao livro, é Ataíde Oliveira fazer as descrições na primeira pessoa, com casos concretos. As personagens com quem fala, são geralmente pessoas de idade.
“Bati á porta de uma casa de fraca aparência e apareceu-me uma velha quase cega.
- O que quer?
- Sou um pouco curioso e desejo que me conte alguns episódios referentes à moura Cassima, respondi.
- Naturalmente tem pouco que fazer e...
- Ilude-se a meu respeito: desejo simplesmente consignar num livro essas tradições de tempos antigos (...).
- Entre.”
E após se instalarem o melhor possível, começa a conversação.
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“- Eu era muito criança, ouvi contar a minha avó que, em certo dia de Junho, aproximou-se seu avô da fonte e viu dentro desta, sentada numa cadeira de prata, uma senhora a pentear seus cabelos de ouro com um pente que parecia um grande brilhante. O avô de minha avozinha ficou muito assustado, mas não se atreveu a afastar-se dali.
- Talvez fosse ilusão...
Minha avó repetiu-me muitas vezes o que o avô lhe contara e que ele afirmava com uma espantosa convicção. E seu avô nunca mentira, segundo a opinião da minha santa avozinha. Noutra ocasião, continuou a velhinha quase cega, andavam uns meus vizinhos trabalhando na eira, muito perto da fonte da moura...
- A fonte Cassima?...
- Não, senhor. A fonte Cassima (2) fica aí em baixo, a uns cinquenta metros, a fonte da moura fica ao lado e tem a aparência de um bajanco (3)... Como ia dizendo, um dos trabalhadores veio buscar água á fonte Cassima e passou defronte da fonte da moura a uns cinco metros. Viu então expostos ao sol numa esteira belos figos. Estranhou que em Junho já houvesse figos ao sol e aproximou-se da esteira para se certificar. Apanhou uns cinco e meteu-os nos bolsos. Neste momento reparou então que á entrada da fonte estava uma mulher vestida de moura, que lhe disse: apanha, apanha... O meu vizinho assustou-se e pôs-se a correr em direção da eira, onde contou aos companheiros o que lhe sucedera. Como duvidassem, ele tirou dos bolsos os figos, mas só encontrou cinco carvões.
- É notável! Observei na minha ingenuidade.
- Dele foi a culpa, porque se ocultasse o que tinha visto, em vez de carvões encontraria cinco peças de ouro.
- E isso há muito tempo?
- Teria eu uns cinco anos, e eu tenho setenta e nove. Numa noite, continuou a velhinha, estava minha mãe deitada com meu pai, que chegara de Faro, e eu dormia no berço. Pela meia-noite ouviu minha mãe bater á porta da rua. Receosa de que continuassem a bater, e acordassem-nos, ergueu-se da cama e foi á porta. Abriu o postigo e viu três mulheres.
- O que querem a estas horas?
- Amanhã, antes do sol nado, diga a seu marido que alugue duas cavalgaduras e as traga para aqui. Quando seja meia-noite, conduza a senhora as cavalgaduras á fonte da moura e carregue-as com o ouro que encontrar á entrada da fonte, e que ali está em monte como um monte de trigo. Depois de carregadas traga-as para sua casa, podendo então contar tudo ao marido.
- Quem são as senhoras? Perguntou minha mãe.
- Somos as tristes encantadas.
E desapareceram imediatamente. No dia seguinte contou minha mãe o que lhe sucedera. Então meu pai respondeu:
- Parva! Se te calasses seríamos muito ricos.
No entanto o meu pai foi alugar as duas cavalgaduras, minha mãe conduziu-as á fonte da moura, mas o monte de ouro tinha desaparecido. Se minha mãe se tivesse calado, seria eu hoje muito rica.
- Pelo que me conta há por aqui mais de uma moura...
- Mouras e mouros. Aqui bem perto há a fonte das Romeirinhas, onde têm aparecido mouros e mouras. Quando eu tinha os meus dezasseis anos, foi vista á meia-noite uma formosa moura a pentear-se com um pente de ouro. Na vila não são poucas as mouras e mouros encantados.
- Nunca ouvi falar disso na vila.
- O mundo finge-se hoje muito desprendido destas coisas, e os que acreditam nestas verdades não ousam contá-las com receio das línguas malévolas. Pois creia que há muita gente que o senhor pode consultar e que sabe de tudo tão bem como eu.”

(1) Ataíde Oliveira (Algoz, 1842 - Loulé, 1915), foi um arqueólogo português. Licenciado em Teologia e Direito, dedicou-se à arqueologia e à história das povoações no Algarve. Tornou-se um dos maiores autores sobre a história e o folclore da região, tendo publicado diversos estudos. Fundou, igualmente, o jornal O Algarvio em Loulé. [Em Wikipedia. Fonte citada: Ferro, S. (2002). Vultos na Toponímia de Lagos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos.]
(2) Fonte Cassima, outro local em Loulé, onde se diz existir uma moira encantada, de nome Cassima, filha do último governador mouro da cidade.
(3) Bajanco. Cavidade na qual se conserva a água. Trata-se de uma depressão no manto calcário, também, por vezes, designada de pocinho, bajouco, chabanco, chabouco.
[Encontrei o significado de "bajanco" em
http://www.scribd.com/doc/23304001/Tecnologia-e-Economia-Agricola-no-Territorio-Alcobacense-Seculos-XVIII-XX-VolII]
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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