domingo, 11 de julho de 2010

Almeida Garrett: a Monarquia Portuguesa e a Igreja.

Bem sei que esta coisa dos blogues é principalmente para cada um escrever por si próprio. Porém, se tenho estes textos admiráveis de gente capaz de escrever muito melhor do que eu, não será lógica a troca?
Este breve artigo de Almeida Garrett que transcrevo quase na íntegra, foi publicado em O Cronista no ano de 1827. A edição do livro que possuo, é de 1992, da Editorial Estampa. O título, “Portugal e os Jesuítas”, é suficientemente elucidativo, apresentando uma interpretação pouco conhecida, de um importante aspeto da História de Portugal.
A nota única com parêntesis curvo é de Garrett, as outras com parêntesis reto, são da minha responsabilidade.

(...) A primeira raça dos nossos reis, daqueles grandes capitães e não menores políticos que fizeram querida dos Portugueses a monarquia, e arreigaram entre nós o princípio, não destruído ainda por tantas oposições, de que a realeza era o seguro paládio [1] da nossa liberdade e independência; essa primeira raça começou logo desde Afonso Henriques a manter e fomentar o espírito de resistência contra os princípios teocráticos que então subjugavam o mundo, que muito tempo depois o dominaram, e ainda hoje o perseguem e querem submeter a seu império.
É verdade que em diversas épocas da monarquia foi por vezes necessário transigir com as leis ou com as circunstâncias do tempo; mas o sistema da independência do poder civil, da justa liberdade dos povos e do horror ao teocracismo constantemente se manteve no gabinete dos nossos reis, como o fogo sagrado de Vesta [2] de cuja perpétua duração dependiam os fados do povo romano.
E quem dirá todavia que não eram religiosos aqueles príncipes ilustres, que a toda a parte levaram o estandarte do evangelho, e plantaram a cruz de Cristo nos ângulos mais remotos da terra?
Mas a seita formidável que já então existia bem como existe hoje, embora conhecida por outras denominações, e que sempre olhou para Portugal com olhos de vingança, não descansou enquanto o não empolgou todo nas garras e o entregou lacerado ao ludíbrio de seus inimigos, para escarmento [3], como já disse, dos povos da terra.
Para conseguir porém esta vitória era necessário iludir os veladores daquele santo fogo, fazê-lo apagar, ou amortecer ao menos.
Grande arte, grande habilidade era necessária nos ministros e executores de projeto tão difícil.
Apareceram-lhe quais os desejavam. Os Jesuítas se incumbiam da execução da sentença de extermínio lavrada contra Portugal. Esta foi a sua primeira façanha política; foi o nosso país o teatro da sua primeira glória, e que estabeleceu a reputação das suas armas invencíveis.
Ainda estavam quentes na memória e saudade dos povos as cinzas de D. João II, ainda fazia palpitar os feitos portugueses a recente lembrança daqueles filhos de D. João I, família mais ilustre e generosa que ainda se viu em tempo nenhum, em nenhum povo, à roda do trono. Os nomes do infante D. Henrique, o sábio, de dom Fernando, o santo, mártir da pátria, o Régulo [4] da história portuguesa, de dom Pedro o protetor dos povos e das suas liberdades, o maior homem de estado do seu tempo que pereceu vítima da sua pátria e de seus generosos princípios, de dom João que sacrificou diante da honra e glória nacional todos os afetos de coração e todos os preconceitos de nascimento, são nomes que não precisam de mais epíteto para serem conhecidos e comprovar o que disse.
Dom Manuel, herdeiro de tanta glória, de tantas virtudes e venturoso legatário do produto de tantos trabalhos, forçosamente continuou no sistema que lhe havia preparado a glória e fortuna do seu reinado.
Estava el-Rei D. Manuel mui seguro e possuído da bondade deste sistema de seus predecessores; e com isso não era possível vingar o plano de destruição de Portugal.
Mas veio seu filho [5], cujas boas intenções e desejo de felicidade pública não podem ser duvidosas, porém mais timorato e menos homem de Estado cedeu mais facilmente, e se deixou iludir dos embustes jesuíticos.
A inquisição estabelecida em Portugal por um ardil vergonhoso, foi o primeiro golpe decisivo dado na independência da coroa e da nação.
Desde este momento o teocracismo contou com a vitória, e a começou a cantar. Não faltou quem conhecesse este erro funesto, e calculasse as fatais consequências dele. E muitos escritores daquele tempo nos ficaram ainda nos monumentos da indignação dos homens de luzes, verdadeiramente religiosos, e amigos da pátria e do rei; basta ler as cartas de Sá de Miranda para se conhecer a verdade desta asserção.
Mas pela morte deste pio e mal aconselhado rei vieram a empiorar ainda as circunstâncias de Portugal. A regência sucumbiu completamente ao jugo monástico e à dominação jesuítica.
El-Rei D. Sebastião educado em princípios diversos dos de seus imortais antepassados, enfim vítima das maquinações dos jurados inimigos de Portugal, foi sepultar nas areias de África a sua coroa e a sua nação.
Não podia ser mais completo o triunfo do teocracismo e de seus ministros e exército, os jesuítas (*) [6].
No breve e triste reinado do cardeal-rei [7] pouco mais tiveram eles que fazer do que aprofundar a cova já aberta para a sepultura de Portugal, ou antes carregar a terra e a pedra do monumento sobre o seu cadáver já sepulto.
Sessenta anos jazeu no monumento a desgraçada pátria: e se não fora a incúria e impolítica do III Filipe (IV de Castela) e sobretudo o arrojado denodo da principal nobreza ajudada da pronta cooperação de todo o povo português, ainda hoje seríamos talvez verdadeiros hilotas [8] de Castela, nem teria o marquês de Chaves [9] e seus conjurados, necessidade de tanta luta e trabalho para nos entregar à dominação estrangeira.
Vexou-se, mas não desanimou o parido teocrático. Sua guerra surda continuou e redobrou de intenção.
D. João IV foi assassinado [10]; mas a Providência salvou Portugal deste novo golpe, e falsou o tiro do miserável instrumento do parricídio.
Entramos em época mais recente: não quero individualizar factos nem recordar desgraças [11], cuja lembrança pode ainda ferir a sensibilidade de alguém que porventura sem crime dos seus atos, e decerto sem nenhum próprio, padeça ainda das consequências dessa desgraça.
O sangue de el-rei D. José correu sobre o altar do jesuitismo ofendido; e se escapou, quase por milagre, com vida foi-lhe necessário para a conservar, não somente expulsar a traidora sociedade de todos os seus domínios, mas decepar as cabeças todas da hidra espalhadas pela Europa, e enfim ir a Roma feri-la no coração e fazer-lhe dar o último suspiro [12].
Permitiu assim a Providência que o teatro das primeiras glórias da sociedade fossem também seu afrontoso patíbulo [13]. (...)
.
[1] Paládio = salvaguarda.
[2] Vesta = deusa romana da casa e da família, simbolizada pelo fogo sagrado.
[3] Escarmento = exemplo.
[4] Régulo = jovem rei.
[5] Garrett gosta tão pouco dele, que nem o nomeia. Trata-se, claro, de D. João III.
(*) Nem sou nem desejo mostrar-me parcial em coisa nenhuma. Houve muitos jesuítas em Portugal que foram homens honrados, bons cidadãos, súbditos leais, e excelentes religiosos. Basta citar os nomes de S. Francisco Xavier, do seu historiador Lucena, do Padre António Vieira para se ver que mui honrosas exceções tem a geral imputação que em Portugal se há feito à sociedade em geral. Ainda mais: é certo também que muitas, ou pelo menos algumas, das incriminações que lhe faz a Dedução Cronológica [6] são infundadas.
[6] A Dedução Cronológica referida na nota (1), é um livro de acusação aos Jesuítas, cujo autor se presume ser o Marquês de Pombal, ou alguém sob a sua orientação.
[7] Tal como quando se referia a D. João III, ver [5], Garrett também não dá nome a este “cardeal-rei”, um inquisidor-mor, que ao falecer deixou a independência perdida. Trata-se evidentemente de D. Henrique.
[8] Hilotas = população quase escrava dominada por Esparta na Grécia antiga.
[9] O marquês de Chaves era um líder militar miguelista-absolutista, que recebia apoios de Fernando VII de Espanha, enquanto Garrett, era um fervoroso liberal.
[10] Garret refere-se a uma tentativa de assassínio falhada em 1647 contra D. João IV.
Ver em http://pedraformosa.blogspot.com/2007_08_01_archive.html :
“Por sentença, em processo sumário, lavrada em 12 deste mês, contra o vimaranense Domingos Leite Pereira, escrivão da correição do cível em Lisboa, que na procissão Corpus Christi quisera ou tentara assassinar a El-rei D. João IV, foi executada neste dia 16. A sentença condenava-o como traidor aleivoso, parricida, assassino e incurso no crime de lesa-majestade de 1ª cabeça, e por esse motivo, com baraço e pregão foi levado pelas ruas públicas, de rastos à forca, onde lhe deceparam as mãos no pelourinho e depois o enforcaram, sendo o corpo deitado numa fogueira para que não ficasse dele nem memória.”
Ver também o romance O Regicida, de 1874, da autoria de Camilo Castelo Branco sobre este assunto. O ebook encontra-se disponível no sítio do Projeto Gutenberg, pesquisando em http://www.gutenberg.org/wiki/Main_Page
[11] Dado que de seguida fala do reinado de D. José, Garrett pode pretender referir-se a certos acontecimentos do Antigo Regime, como a expulsão dos judeus, a horrível morte dos Távoras durante o consulado pombalino ou as terríveis perseguições de Pina Manique no tempo da louca viradeira. Julgo no entanto que está principalmente a pensar nas feridas abertas, e certamente ainda presentes em 1827, pelas Guerras Peninsulares. É que, verdade seja dita, alguns vintistas tinham sido colaboracionistas dos franceses. O que voltou a unir a nação foi o sentimento independentista anti-inglês.
[12] A Companhia de Jesus foi extinta em 1773 pelo papa Clemente XIV. Foi restaurada em 1815 por Pio VII, mas nunca mais voltou a ter a influência de tempos anteriores.
[13] Patíbulo = cadafalso. Garrett refere-se ao fato de ter sido Portugal, o primeiro país a expulsar os Jesuítas, em 1759. Alguns anos depois foi a vez de serem expulsos de França e depois de Espanha. Este processo viria a culminar na extinção da ordem.Ver [12].

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--



Sem comentários:

Enviar um comentário