domingo, 18 de julho de 2010

A crise II: a infeção alastra à Europa.

Embora num primeiro momento durante 2008, parecia que a crise que então se designava do subprime, se restringia aos Estados Unidos, na última parte desse ano começou a verificar-se que a contaminação financeira também se estendia à Europa. Os bancos europeus tinham igualmente adquirido títulos “tóxicos” em grande quantidade, e para que não houvesse uma corrida aos bancos, alguns governos tiveram de intervir, pagando pelo salvamento dos bancos ou mesmo nacionalizando e impondo controlos mais apertados sobre as operações financeiras, em especial com offshores e regras mais exigentes sobre a capitalização bancária.

A primeira vítima foi a Islândia. Um pequeno país que vivia à sombra de um sistema financeiro de raiz especulativa, que valia várias vezes o PIB do próprio país de origem, não teve capacidade de ajudar a sua banca e afundou-se. Existia o receio que o mesmo pudesse acontecer com a Suiça, um país com um setor bancário gigantesco (com o primeiro e o sétimo maiores bancos do mundo). Felizmente, não foi o caso. Quem sofreu, foram no entanto os países da União Europeia.

Em primeiro lugar o Reino Unido, principal placa giratória dos fluxos financeiros euro-americanos, em segundo, as economias cujo crescimento estava dependente não apenas de um sistema financeiro frágil mas sofriam também de “bolhas” imobiliárias, como a Irlanda, em terceiro, os países com maior dívida pública externa, como a Grécia e Portugal. Estes países endividados eram apenas a ponta de um enorme iceberg que urgia resolver antes que o mal se propagasse, sobretudo a Espanha, que sofria um pouco de todos estes males.

O Banco Central Europeu, a autoridade monetária máxima da zona Euro, cujo único objetivo de política monetária tinha sido até agora, evitar os riscos inflacionários, não tinha os meios de um banco central como por exemplo, a reserva federal nos EUA. Não podia emitir moeda para além de certos limites muito estreitos e por isso via-se impossibilitado de emprestar dinheiro em países em dificuldade, não podendo sequer adquirir títulos de dívida - “bonds”, dos estados membros da zona Euro. Esta política monetária tinha servido durante uma década para assegurar preços e juros baixos e um Euro forte, mas em situação de crise, não se dispunham dos meios de intervenção adequados.

Muitos estados e muitas economias tinham usado esse chapéu-de-chuva protetor do BCE durante uma década para se endividarem, mas agora com um crédito escasso, só conseguiam obter empréstimos a juros muito altos. A Alemanha, economia mais forte da zona Euro e país de contas equilibradas, opunha-se a que se alterassem as regras do BCE. A maioria dos outros países da zona Euro, defendiam a necessidade de uma intervenção mais ativa do Banco Central Europeu para fazer face aos novos problemas colocados pela crise financeira. Foi preciso esperar pelas reuniões dos dias 7-9 de Maio de 2010 para se tomar uma decisão comum.

A reunião das decisões

Estes dias de reunião dos responsáveis da zona Euro não foram fáceis. As anteriores conversas de Jean Claude Trichet, presidente do BCE, e de José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia tinham já convencido a chanceler alemã Angela Merkel de que não era apenas a Grécia, Portugal ou a Espanha que estavam em causa, mas toda a zona Euro.

Apesar dos apelos não se conseguia chegar a um acordo. Junker, primeiro ministro do Luxemburgo, queixava-se que nestas reuniões a maior parte do tempo era gasta em conversas de corredores. Os gregos descreviam a situação social no país como apocalíptica. Trichet insistia que o sistema financeiro internacional estava próximo do abismo. Sarkozy, apelava para a construção de um mecanismo de empréstimo e que o BCE deveria comprar “bonds” dos estados, caso contrário a União Europeia poderia desmembrar-se. Foi logo apoiado claro, por Berlusconi, Sócrates e Zapatero. Trichet reagiu mal, afirmando que o BCE não tinha competências para o fazer. Merkel apoiou Trichet. Naquele dia 7 ninguém chegou a acordo.

O dia seguinte foi um Sábado. Obama faz segundo telefonema a Sarkozy, em dois dias, a salientar a urgente necessidade da UE chegar a acordo (antes dos mercados asiáticos abrirem na 2ªfeira, madrugada de domingo para segunda, na Europa). Não houve reunião no Sábado. Fez-se uma paragem de 24horas para a Comissão (de Barroso) tentar elaborar algumas propostas que seriam para discutir no Domingo. Lá esteve o Zé Manel a trabalhar no Sábado.

Chegou então o Domingo, 9 de Maio. Não havia muito tempo e tinha de se arranjar uma solução. A reunião de Domingo era com os ministros das finanças e começou mal. O ministro das finanças alemão, Schäuble, adoeceu durante a viagem de avião e não podia estar presente. Tinha de se esperar por um representante alemão. Berlim decidiu enviar Maiziere, ministro do interior. As pessoas esperaram conversando, comendo sanduíches e pizzas. Começou finalmente a reunião. Durante o fim de semana, franceses e alemães tinham decidido um pacote de auxílio até 500 mil milhões de euros, mas não conseguiram durante a reunião estar de acordo quanto aos mecanismos. A Alemanha era contrária a uma ajuda institucionalizada da UE que poderia ser considerada ilegal nos tribunais, mas era favorável a um pacote de empréstimos bilaterais desde que os empréstimos fossem concedidos mediante o cumprimento de certas condições para os estados em dívida. Estava a aproximar-se a hora limite, uma da manhã em Bruxelas, hora que abriria a bolsa de Tóquio. Os órgãos de comunicação estavam impacientes e temia-se o pior. Como por milagre, surgiu a solução. Berlusconi e Sarkozy propõem uma conjugação de empréstimos, apoiados em garantias governamentais, organizados inter-governamentalmente. Era uma solução rebuscada que resolvia criativamente o problema, pondo todos de acordo. Já com cara de sono, eram 3 da manhã quando os detalhes foram divulgados e Trichet anunciou que o BCE iria adquirir “bonds”.

[A história destes dias é contada com mais detalhe, na edição do Financial Times de 11/05/2010]


--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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