sexta-feira, 23 de julho de 2010

A crise III: Portugal.





Um dos desportos favoritos dos economistas é correlacionar variáveis. Diz um: se os impostos aumentarem a atividade empresarial diminui e o desemprego aumenta. Diz o outro: o investimento público a diminuir em tempo de crise, é uma opção recessiva. Todos têm opinião e todos têm números para mostrar. É uma discussão que me faz lembrar o célebre gráfico da Igreja do Monstro do Esparguete Voador (ver em http://www.venganza.org/, que me desculpem as pessoas mais religiosas, não pretendo ferir suscetibilidades).
Quando o número de piratas diminui, a temperatura aumenta. Divertido, mas absurdo. A realidade económica portuguesa é muito menos divertida, mas igualmente absurda.
Vejamos se conseguimos não nos deixar enganar com os gráficos que construí, com a ajuda dos dados do PORDATA (http://www.pordata.pt/) até 2009 e do PEC1 aprovados pelo Governo Sócrates e pela União Europeia.

De 1999 (altura em que o euro substituiu o escudo como moeda escritural e passou a valer como meio de troca) até agora, a história da dívida do Estado está representada nos gráficos acima. Bem sei que os números do PEC1 já estão ultrapassados, mas servem para demonstrar o caminho seguido pelo país, depois da adesão ao Euro.
A parte superior da figura é um gráfico que corresponde ao valor total da dívida do Estado português em percentagem do PIB. De acordo com o Pacto de Estabilidade e Crescimento (aceite por todos os países da Zona Euro), este número não deveria ultrapassar os 60% do PIB.

O consulado de Guterres é bem demonstrativo das nossas dificuldades. Antes do Euro a dívida diminui. Após o Euro, a dívida aumenta, ficando no limiar dos 60%. Barroso e Santana estiveram sempre acima dos 60%. Quase atingiram os 70%. Sócrates depois de 3 anos (2006, 2007 e 2008), em que consegue parar o crescimento da dívida, teve 2 anos excessivos, em que consegue não apenas ultrapassar os 80% mas atingir este ano os 85%. A partir deste momento já nenhum investidor internacional deseja comprar dívida pública portuguesa a juros baixos. Quando emprestam, se a isso estão dispostos, consideram um risco alto (de incumprimento) e por isso fazem-se pagar a juros elevados. Valha-nos São BCE.

A razão da dívida é que o Estado gasta mais do que deveria gastar, como se vê na parte inferior da figura, no segundo gráfico, Guterres chegou a gastar em 2001, mais 10% do que aquilo que recebeu e no ano de Santana, 2005, atingiu-se 15%! Sócrates esteve sempre acima dos 5%, em 2009 gastou mais 23,5% do que recebeu e no PEC1 previu que em 2010 esse valor seria cerca de 20%. Imagine-se cada um de nós, a gerir assim o nosso orçamento familiar, em que todos os anos gastamos 5%, 10%, 15% ou 20% a mais do que recebemos e acumulamos dívida. Chega-se a um ponto em que mais ninguém nos empresta.
Entretanto, com tanto dinheiro emprestado, dir-se-ia que o Estado o aplicou e enriqueceu o país?

[Mais uma vez vou socorrer-me dos dados da PORDATA - graças à Jerónimo Martins e à equipa de António Barreto, que estes dados estão tão facilmente à nossa disposição].
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Em nenhum ano depois de 2000 o PIB cresceu mais de 2%. Temos até anos negativos (2003 e 2009). É uma economia anémica e geradora de desemprego.

O dinheiro não foi pois usado para o crescimento do PIB. Onde está? Penso que uma importante parte da resposta está no gráfico seguinte, a preços constantes (base: 2000) em milhares de euros.


Usámos uma boa parte do dinheiro emprestado para pagar importações. Mais de 10 mil milhões de Euros por ano a preços constantes de 2000, é a diferença entre importações e exportações.
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Conclusão: não fazemos crescer o produto, exportamos pouco para as nossas necessidades, não contemos o desemprego e nem sequer conseguimos pagar a dívida já assumida. E até 2008 não havia crise nenhuma internacional! Foi o país que fez isto sozinho.

Neste cenário, a meu ver, várias opções de política económica são essenciais:
1- Para evitar criar ainda mais dívida, o orçamento do Estado não pode continuar a ser negativo. Para isso, o Estado tem de ser mais seletivo nos apoios que presta. Excetuando os mais pobres, a gratuitidade universal não é sustentável. Não há nada gratuito, alguém tem sempre de pagar e os estrangeiros já não querem pagar mais.
2- Os limitados recursos de investimento e de crédito, precisam ser essencialmente dirigidos para empresas exportadoras e/ou que substituam importações. As grandes obras de investimento estatal retiram meios financeiros à economia produtiva, às exportações e ao emprego.
3- Estimular a poupança interna. É bom para o Estado e para o sistema financeiro, que assim se financiam internamente. Mas se pagam lá fora empréstimos a 5%, não vão pretender pagar ao Zé depósitos a prazo a 2%, pois não?
4- Oferecer condições para atrair investimento estrangeiro de qualidade. Veja-se o exemplo da AutoEuropa. Para ter cá bom investimento é preciso oferecer vantagens. A coisa não vai lá só com sorrisos e teatro.
5- Resolver de uma vez por todas a confusão da Justiça e da Educação. Temos sido incompetentes para resolver isto. Olhem-se para os melhores sistemas lá de fora e copiem-se os bons resultados. Se não há gente capaz para refazer o sistema, contratem-se técnicos estrangeiros para virem para cá ajudar a pôr isto a funcionar.
6- Apoiar o melhor possível os desgraçados que ficam sem emprego ou na miséria. Como se vê, o Estado já não tem meios para fazer face a tudo. Mobilizemos também a sociedade para a ajuda social e para as ONGs. É um dever de cidadania. Quando consciente, o povo português sabe ser solidário.

Se isto for feito, talvez evitemos o pior, que nem me atrevo a dizer (mas não deixo de pensar na Argentina). Temos tido um sinal de esperança: durante o recente período de desvalorização gradual do Euro, a dinâmica das nossas exportações.
Penso que estas questões são transversais aos partidos políticos que têm partilhado o poder desde o 25 de Novembro. Todos fizeram disparates, todos têm essa responsabilidade histórica.

NOTA: já depois de ter escrito este texto, li o artigo publicado hoje na imprensa assinado por Jean-Claude Trichet, presidente do BCE e intitulado “Não estimular mais – é tempo de todos se conterem”. Diz ele a propósito da política económica seguida como reação à crise de 2008:
“(...) vemos quão infeliz foi a simplista mensagem de estímulo orçamental, passada para todas as economias industriais sob o lema: “estimulem”, “ativem”, “gastem”! Felizmente um grande número de economias tinha espaço de manobra; outras tinham pouco espaço de manobra; e algumas não tinham qualquer espaço de manobra e deviam já ter começado a consolidar. Estratégias específicas devem sempre ser feitas à medida de cada economia. Mas há poucas dúvidas que a necessidade de implementar uma consolidação orçamental credível a médio prazo é válida agora para todos os países (...).”


--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

2 comentários:

  1. Olá.
    Descobri hoje o seu blog e achei-o deveras interessante, pois partilho do seu gosto pelo "Fabricado em Portugal".
    Vagueio imenso pela net pesquisando blogs e websites que contenham informação sobre literatura portuguesa (que foi a minha licenciatura), bem como pontos de interesse sobre a nossa cultura.

    Bem, isto tudo para lhe desejar boa sorte e que continue o bom trabalho.

    Cumprimentos
    Ana Paula

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  2. Muito obrigado pelo elogio! Cada vez mais o "Fabricado em Portugal" é uma marca em si própria, preferida por muitos consumidores como nós. E também gosto muito dos produtos fabricados por qualquer membro da CPLP. A nossa Pátria é a nossa Língua. E incluo ainda algumas marcas estrangeiras com forte componente produtiva ou exportadora em Portugal. Estou a pensar por exemplo na Nestlé Portuguesa, na Siemens e na Volkswagen-AutoEuropa, grandes multinacionais que contribuem para o nosso desenvolvimento. Sobre a Literatura em Português, é só a coisa mais bonita do mundo.

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