sábado, 7 de agosto de 2010

Observações sobre a oliveira por Raul Lino.


Por causa dos incêndios que quase todos os verões devastam largas áreas de floresta no nosso país, não resisto a incluir neste blogue um magistral texto de Raul Lino (ver também A Casa Portuguesa do arquitecto Raul Lino (1889-1974)). É do livro “A Uriverde Jornada” de 1937, e foi retirado da palestra “Espírito na Arquitectura”.

“No admirável conjunto da Natureza que nos rodeia, devemos apreciar as árvores não só pelo que elas representam de materialmente útil para a nossa vida, como também por constituírem elas o mais belo adorno que a paisagem possa ter. As diferentes regiões da Terra distinguem-se, entre outras coisas, pela variada distribuição das essências, pela abundância, escassez ou raridade com que estão semeadas; e há quem julgue ter influência na psicologia das gentes o facto de existir ou não, de ser abundante ou de minguar este género vegetal nas regiões povoadas.

De todos os tempos se tem atribuído personalidade às árvores mais vulgares, reconhecendo-se em cada espécie caráter particular adequado a certas noções religiosas, filosóficas ou simplesmente heráldicas. É sabido que o cipreste, com sua forma esguia, meditativa, sempre verde, apontando eternamente para o céu, simbolizava na antiga Pérsia a independência espiritual; o loureiro de fino recorte, incorruptível e – segundo a crença – resistente aos raios, significava, para os Antigos, fama; enquanto que entre os filhos de Mafamede, a tamareira, que prodigaliza os seus frutos, passa por ser a imagem da generosidade; o carvalho robusto significa força, a palma altaneira e triunfante vale por vitória – e assim por diante. A cada espécie corresponde uma noção que é sempre baseada nas características próprias da árvore, e assim se explica a longevidade destes símbolos vegetais determinados na sua origem, com certeza, por criaturas de sensibilidade superior e mantidos através dos tempos devido justamente ao acerto da sua escolha.
Não só artistas pintores, poetas também e músicos dos melhores, algumas vezes se têm inspirado na árvore como forte motivo de expressão, envolvendo num título sugestivo como: o castanheiro, a tília, a nogueira – um mundo de sensações...

De todas as árvores que povoam o bom solo de Portugal, porém, uma das mais belas – e também das mais caluniadas – é, sem dúvida, a oliveira. Das mais belas digo eu porque é uma das que melhor se integram na paisagem, casando-se perfeitamente com todos os terrenos e, sobretudo, em tal harmonia com a nossa atmosfera, que a sua ramagem em vez de se recortar no horizonte – como sucede nas outras essências – parece, pelo contrário, querer confundir-se, diluindo-se na suavidade do nosso céu azul. O tronco cinzento, envelhecido, da oliveira, torturado nos contornos, irrompe da terra em arrancos de labareda e é como que a imagem de qualquer continuado anseio que se estivesse purificando nas suas próprias cinzas. Pela cor incerta de prata esmaecida que apresenta, o tronco, burilado e contorcido, lembra velhas alfaias de igreja, poídas pela oração e pelos fumos de incenso, na penumbra das naves.
Esta árvore que tanta gente insensível soe chamar feia e triste, mas que já o nosso Fernão Lopes sagazmente dizia ser “a boa e mansa oliveira portuguesa”, pelo seu feitio ao mesmo tempo humilde e venerando, pela constância da sua ramaria de magoado verde que se dilui no céu como palavras duma prece eterna, pela generosidade com que no verão esparge as suas modestas florinhas da cor da cera, e, finalmente, pela qualidade do seu fruto que tempera a merenda dos pobres e que serviu para alumiar suas vigílias durante séculos e séculos, – esta árvore, a oliveira, não é só das mais portuguesas, é certamente a mais cristã de todas as árvores.

Foi ao abrigo de uma oliveira que Jesus Cristo soltou as derradeiras orações na véspera da sua imolação. Foi junto das árvores do Getsêmani que ele confirmou ao mundo a qualidade essencialmente humana de Sua natureza divina, sofrendo a agonia que todos os deuses do Olimpo jamais conheceram, – Getsêmani quer dizer lagar onde se espremem os frutos do olivedo.
Notem V. Ex.as que não foi junto de qualquer outra árvore que o Deus-Homem orou. É o que está dito nas Escrituras. Nem podia deixar de assim mesmo ser. Concebe-se porventura a oração num Horto que não fosse de oliveiras; Cristo à sombra de loureiros, de palmeiras ou de jacarandás – ainda que os tivesse havido na Palestina?
Por isso quem queira representar a Jesus no Horto, de modo verdadeiramente, profundamente cristão, terá de colocar a sua Figura prostrada ao pé de oliveiras, e só de oliveiras.
O artista que queira representar este passo da vida de Cristo, se for pintor, há que dar às árvores feitio e a cor da oliveira; se for escultor, poderá trabalhar não importa em que material – mármore, madeira, cimento ou até miolo de pão – mas terá sempre que indicar as particularidades da oliveira, estilizando-a de modo que melhor entender. Só assim fará obra cristã; porque se trocasse aquela essência por outra, logo prejudicaria o necessário efeito de unção, desprezando o caráter de humildade e fortaleza, de paz e brandura que só encontram expressão na árvore de cujo produto a Igreja se serve para duas vezes ungir a seus filhos – à entrada e à despedida deste mundo em que vivemos.”

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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