sábado, 11 de setembro de 2010

Origem do nome “Vencidos da Vida”

Lopes de Oliveira escreve o seguinte no prefácio – intitulado “Vae Victis!(*) – do livro “Vencidos da Vida” de Gomes Monteiro (Edições Romano Torres, 1944):
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(...) Conta-se que em certo dia de 1887 foram dar ao Tavares o Conde de Ficalho, António Cândido, Oliveira Martins e Carlos Lobo de Ávila; e que tão bem lhes soube o jantar, que o ajuntamento se repetiu, alargando-se com novos e escolhidos convivas.
Oliveira Martins, pouco depois fixou residência em Lisboa; nas águas furtadas dessa casa da Calçada dos Caetanos, onde ele depois iria morar, morava Ramalho Ortigão há vinte anos. O palácio do Conde de Ficalho ficava perto.
O ex-terrível fundibulário de As Farpas e o ex-historiador-panfletário socialista juntavam-se com outros amigos em casa do Conde, que, além do prazer da conversa, lhes proporcionou os prazeres da mesa.
Ramalho Ortigão, que tinha habilidades culinárias (há um petisco de batatas fritas da sua invenção) certo dia quis, nas suas águas furtadas, dar prova delas... Ora nesse jantar...
Ramalho tinha um pequeno intento reservado: – porque não fundariam um diner à moda de Paris?
Para ilustrar aquela proposta – quando tomavam o café, tirou duma estante da sua biblioteca La Vie à Paris, de Jules Claretie – o volume de 1881 – e foi lendo: – “diners Magny, Bixio, de la Marmite, de Boeuf Nature, de la Modéstie, de l’Homme qui bèche, des Auteurs sifflés, de la Boulette, de Rigobert, de la Vrille, Caldo Arrosto, de Dentu, de la Societé des Gens de Lettres, des Spartiates” – dezenas de ágapes de escritores e artistas, de políticos, de médicos, de celebridades mundanas.
A certa altura ouviu-se, com referência ao Diner du 9:
“Tous ces peintres, ces musiciens, ces graveurs, ces sculpteurs qui ont à la Ville Médicis, vécu d’une vie commune, tiennent à se retrouver ici, et fondé, par groupes de comtemporains, et je dirai par fournées de lauréats, des diners oú ils se revoient, attristés souvent, bien changés, les un glorieux, les autres battus de la vie”.
Oliveira Martins, distraído, só deu conta das palavras finais...
Battus de la vie! – exclamou, com o travor do seu habitual pessimismo – eis afinal o que todos nós somos: vencidos da vida!
Era uma tradução bem livre, todavia bem literária: serviu para a designação do grupo de jantantes, ao qual os homens de letras davam o colorido intelectual predominante.
Claro que o batismo fora bastante de acaso, e nem seria a gosto de Ramalho, que sempre foi pouco filósofo, e nunca pretendera ser ministro sem o conseguir...
Como todos sabem, o Grupo dos Onze foi constituído pelo Conde de Ficalho, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, António Cândido, Eça de Queiroz, Conde de Sabugosa, Bernardo de Pindela, Guerra Junqueiro, Carlos Mayer, Luís de Soveral e Carlos Lobo de Ávila.
Reconheçamo-lo: era uma bela equipa! (...).
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Mais à frente, na página 172 do mesmo livro, Gomes Monteiro conta uma versão diferente:

(...) A este respeito falará António Cândido entrevistado por mim, para o ABC [ABC – nº88 de 16 de Março de 1922], no seu confortável rés-do-chão da rua da Emenda.
O grande orador recordou os Vencidos da Vida, o grupo tão efémero como bizarro a que pertencera.

– “Oh! Os Vencidos da Vida! – evocou ele – Como tudo isso já vai distante. Dos meus dez queridos companheiros que, agitando a flâmula do bom humor, arreliaram a velha Lisboa de 1888, apenas restam quatro: Guerra Junqueiro, Conde de Sabugosa, Marquês de Soveral e eu. A ideia da formação do grupo surgiu, um dia, espontânea, imprevista, entre uma colherada de doce e uma gargalhada de champanhe no restaurante Tavares(**), da rua Larga de S. Roque [hoje, Rua da Misericórdia]. Oliveira Martins lembrara o título Vencidos da Vida, que todos aplaudiram, e, pouco depois, o Conde de Sabugosa compunha uns versos que, com música da “Rosa Tirana”, constituíam o hino do nosso grupo.
O Tempo, jornal lisboeta, sob a direção de Carlos Lobo de Ávila, publicara em artigo de fundo o programa desta associação, originalíssima, que não obedecia a disciplinas partidárias, a credos políticos ou a ambições videirinhas.”

(*) Tradução do latim é “Ai dos vencidos”.
(**) O Tavares continua a ser a catedral dos restaurantes da cidade de Lisboa, o restaurante mais antigo do país, fundado em 1784, luxuoso e renovado com o Chefe José Avillez a dirigir a cozinha desde 2008. Ver http://www.restaurantetavares.pt/
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

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