sábado, 16 de outubro de 2010

São Francisco de Assis e os Descobrimentos Portugueses


É um texto de Jaime Cortesão que dá que pensar. Sempre se ensinaram e aprenderam as causas dos descobrimentos de uma forma quase mecânica. A expansão da fé, as técnicas de marear,  o desenvolvimento do comércio. Mas é uma explicação que não explica tudo. Como se sai de uma sociedade opressiva e fechada para a aventura das descobertas e como nasce e se desenvolve o novo quadro mental necessário a toda a mudança de vontades e atitudes, são questões que ficam por responder.  
Escreve Cortesão em “Influência dos Descobrimentos Portugueses na História da Civilização” (1932):
Mas a esse ambiente [medieval] pessimista, que encarava a vida como um mal e a Natureza com terror, sucedeu um estado de espírito, ao contrário, otimista, entusiástico, solicitante em alto grau de energias. Que prodígio e que forças operaram a radical transformação? Ela deve-se, a nosso ver, em primeiro lugar, ao novo espírito religioso representado pelo franciscanismo e à sua imensa difusão, favorecida pela organização da Ordem fundada pelo Santo de Assis.
E Cortesão vai a seguir recuperar um texto escrito por si anteriormente:
“Em sua lógica travada, o predomínio dos franciscanos entre o clero secular e religioso nos últimos séculos da Idade Média e a inegualada eficácia do seu apostolado em todas as classes sociais; o sincronismo da sua influência nas artes e da transformação naturalista por eles iniciada na literatura geográfica; o vasto e simultâneo desenvolvimento da sua penetração na Ásia, na África e nos arquipélagos atlânticos; e, por fim, o paralelismo da sua difusão com os sucessivos progressos das navegações dos portugueses e os primeiros descobrimentos dos castelhanos, convencem-nos de que eles foram os principais criadores da mística dos Descobrimentos. Aproximando o homem da Natureza e substituindo um ideal contemplativo e de aspirações extra-terrenas por um cristianismo amorável e pragmático, o franciscanismo dissipou a sombra de maldição e terror que pesava sobre a Vida e sobre a Terra, e abriu caminhos à marcha do homem no planeta.”
E é claro que fui á procura de textos sobre essa nova atitude de “aproximação do homem pela natureza” preconizada por São Francisco. Penso que o seu “Cântico das Criaturas”, que se encontra em http://www.capuchinhos.org [um sítio muito bem feito] é um excelente exemplo:

Cântico das Criaturas
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
a ti o louvor, a glória,
a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar
e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão Sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumias.
E ele é belo e radiante,
com grande esplendor:
de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
pela irmã Lua e as Estrelas:
no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
pelo irmão Vento
e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno,
e todo o tempo,
por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
pelo irmão Fogo,
pelo qual alumias a noite:
e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
pela nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e governa,
e produz variados frutos,
com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
por aqueles que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados aqueles
que as suportam em paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor,
por nossa irmã a Morte corporal,
à qual nenhum homem vivente pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles
que cumpriram a tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor,
e dai-lhe graças
e servi-o com grande humildade.
Para mal dos meus pecados, não sou cristão, nem sequer acredito na existência de Deus e talvez por isso a influência do Santo no ideário mental medieval me tenha passado desapercebida. Quis saber mais sobre São Francisco de Assis. Talvez nalgum livro de história da filosofia pudesse ler algo. Na FNAC procurei nos livros de filosofia. A história da filosofia era contada dos gregos até à atualidade em livros franceses, ingleses e portugueses, mas não encontrei nenhuma referência a São Francisco. Se calhar tive azar, mas só nos meus velhos livros de textos do liceu, de Joel Serrão, “Iniciação ao Filosofar”, encontrei finalmente “De como, indo de caminho S. Francisco e Frei Leão, ele lhe falou das coisas que são a perfeita alegria”. E mais um bocadinho me foi revelado. Era um Santo bem disposto e alegre. Pesquisando na rede [ver por exemplo sfdeaassis], lemos que é o Santo Patrono dos animais e do ambiente e que nasceu em 1181 e faleceu em 1226, com apenas 45 anos. Dois anos mais tarde, era declarado Santo pelo Papa. Segundo Jaime Cortesão, alterou de tal forma o quadro mental medievo, que haveria de tornar possível a epopeia dos Descobrimentos.
--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

Sem comentários:

Enviar um comentário