sábado, 23 de outubro de 2010

Uma história para “Ser Poeta” de Florbela Espanca

Um dia, em 1923, uma grande poetisa portuguesa encontra num almanaque um poema que desperta a sua atenção “Ser poeta”. Era um soneto assinado por um brasileiro, o sr. Romualdo Pessoa. O nome não lhe dizia nada. Provavelmente era uma pessoa sem pergaminhos intelectuais e apenas um simples curioso, colaborador do almanaque.

Ser poeta (de Romualdo Pessoa)

Ser poeta é se sentir de quando em quando,
O coração vibrar em cada verso...
E ver em tudo uma ilusão cantando,
Ora num ditirambo, ora num terso.

Ser poeta é se possuir n’ alma, o disperso
Bando das rimas, sempre soluçando...
É ter por pátria apenas o Universo,
Qual uma estrela pelo azul marchando.

Deus, ao tirar o céu da treva densa,
Também construiu a terra imensa e bela...
E, enfim, querendo a génesis completa,

Fez, para iluminar essa obra imensa,
Lá no infinito – a rutilante estrela...
E cá na terra – o coração do poeta!
                                                                                                                                         
[De Romualdo Pessoa (Paraíba do Norte, Brasil), em “Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro”, edição da Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1923.]

Ao lê-lo, Florbela Espanca não pode deixar de discordar imediatamente. Também achou o soneto mal feito, atrapalhado e sem fluidez. Aquele título merecia melhor poesia. E para que não houvesse dúvidas para futuras comparações, começaria pelas mesmas palavras “Ser poeta é”.

Ser poeta (de Florbela Espanca)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

[Florbela Espanca, em “Charneca em Flor”, publicado pela Livraria Gonçalves de Coimbra em 1931, já depois do seu prematuro falecimento, mas ao que parece [ver em prahoje/florbela], o livro poderia já estar concluído três anos antes, em 1927.]


1ª estrofe:

Enquanto que Romualdo afirma que ser poeta é algo de relativo (“sentir de quando em quando” e “ver em tudo uma ilusão cantando”), Florbela afirma que ser poeta é algo de superlativo (“é ser mais alto, é ser maior”).

2ª estrofe:

Romualdo explica a inconstância do poeta, por ele estar perdido e confuso (“possuir n’alma, disperso” e “estrela pelo azul marchando”), Florbela justifica-a antes pela personalidade ardente e ansiosa (“mil desejos” e “ter garras e asas de condor”).

3ª e 4ª estrofes:

As  ideias expressas nas últimas duas estrofes por Romualdo Pessoa e Florbela Espanca, em jeito de conclusão, acabam por ser as mais marcantes do soneto que cada um escreveu para explicar essa criatura, o poeta: Romualdo atribui uma origem divina ao poeta e consequentemente à poesia (“Deus...fez...o coração do poeta!”), Florbela atribui essa origem a um sentimento bem mais terreno, o amor (“amar-te, assim, perdidamente...”).

Não sei se Florbela alguma vez leu o poema do sr. Romualdo Pessoa. A história foi por mim inventada. Mas parece-me bastante verosímil. 

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