domingo, 19 de dezembro de 2010

O Rei Sebastião I, o Desejado, e o Sebastianismo.

As crises e o desespero, como foi o caso da ocupação espanhola, do indescritível período anárquico das invasões francesas no início do século dezanove ou ainda da louca irresponsabilidade vigente durante o final da Monarquia e durante a Primeira República, fazem surgir o desejo do aparecimento de homens providenciais, salvadores da pátria. Não é só em Portugal que este fenómeno acontece, mas foi no nosso país, com uma tradição cultural saudosista, que nasceu o mito do Encoberto, ou dito de forma mais abrangente, do sebastianismo. Nesta interpretação, o Encoberto será um predestinado, uma encarnação sobrenatural do espírito de conquista de D. Sebastião, alma de um Quinto Império vieirista, um novo-velho Portugal glorioso.

Diz Pessoa no início da terceira e última parte da Mensagem [com o título O Encoberto] em D. Sebastião:

Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Um dos bons textos sobre o sebastianismo é da autoria do Conde de Sabugosa, membro dos Vencidos da Vida, em Donas de Tempos Idos, livro publicado em 1912.

D. Sebastião foi talvez um louco, um desiquilibrado, um nevropata, e as suas taras herdadas fizeram dele um ente anormal. Mas nem por isso deixa de ser o simbólico representante das aspirações de um povo, a quem o instinto da própria decadência impelia às empresas ousadas que lhe dessem a ilusão da antiga virilidade; a quem a fé agitava a alma fremente e arrepiada com as arremetidas atrevidas dos infiéis, ou fossem as do ardente fanatismo muçulmano aqui ao pé da porta, ou as geladas e agrestes rajadas calvinistas e luteranas que sopravam dos lados do norte; de um povo a quem devorava a sede de África, essa sede de África que ainda hoje se manifesta, embora, por forma diversa, nos dirigentes da velha Europa. A empresa africana, contrariada pelas exortações dos espíritos sensatos, não foi um ato de loucura individual, mas a resultante de um impulso coletivo. É por isso que o moço Rei, consubstanciando em si as partículas anímicas de todo um povo, foi o seu ídolo, ainda mesmo quando o arrastava ao suicídio sublime de Alcácer-Quibir, que representava o supremo arranco deste pequeno bando de aventureiros ocidentais. É por isso que, logo após a derrota e o desaparecimento, a figura do Rei começa a renascer das próprias cinzas, numa aura de amoroso enlevo que se transforma no sebastianismo.
O sebastianismo não é só a aspiração messiânica de uma raça, ou a mística esperança num milagre próximo, não é apenas o sintoma mórbido que indica a alucinação do náufrago ou do moribundo; não é somente uma consequência da caquexia [1] nacional, ou a aspiração nascida no pressentimento do próximo esfalecimento orgânico. É tudo isso, mas é muito mais. E como todos os sentimentos complexos, e como todas as ideias vagas, apresenta formas diversas segundo as épocas em que desabrocha.

É um arrepio pré-tumular, logo após a catástrofe.
É a nostalgia da pátria livre, durante os anos de escravidão.
É a esperança de um ressurgimento, de uma explosão de energias latentes, quando o organismo social começa a reaver a consciência da sua força.
É a expressão do desalento, quando sente esgotada a seiva vigorosa que lhe corria nas veias, durante a mocidade.
É o génio da raça portuguesa aventureira, generosa, irrequieta, procurando no inesperado e no sobrenatural a solução de problemas melindrosos.

E porque esse Rei encarnou tantas das qualidades que caracterizam o português, e tantos dos defeitos que lhe desvairam a alma; porque prefere as empresas heróicas combatendo inimigos longínquos, e as correrias atrás de uma quimera, às pacíficas ocupações da gestão dos negócios públicos; porque é mais um chefe guerreiro que um pastor de povos; porque nele a infantil e louca idealidade de D. Quixote domina o bom senso de Sancho Pança; porque caminha de olhos fechados para a ruína, levando consigo ao sorvedouro trágico a flor de Portugal, e na sua bagagem os apetrechos com que se haviam de correr as canas, e alcanzias[2], e organizar os torneios festivos no dia da vitória; porque não atende às vozes dos velhos e só pensa em quem há de cantar os seus feitos em futuras epopeias, ele é o vulto que mais prende a fantasia popular, e em louvor do qual se tem mais artificiosamente tecido e rendilhado uma nova Canção de gesta. Tem esse Rei o heroísmo, a generosidade louca, o quid [3] sobre-humano que seduz a humanidade. Vem trazido numa onda de profecias e de lágrimas que tanto impressionam a alma céltica.
As suas frases são curtas, incisivas, por vezes nebulosas. Tudo na sua existência é fora do natural; sai do banal. E a pluma que encima o elmo, arrancado ao jovem Capitão de Deus pelos Alarves no mais aceso da refrega, continua tremulando intemeratamente, através dos tempos pela História adiante.
Para mais despertar o interesse, e acirrar a curiosidade dos pósteros [4] há em volta dele um ambiente de mistério, e na História a incerteza do seu destino. É desse interesse, desse mistério, dessa incerteza que nasceu a lenda, e se compôs a mística toada de sebastianismo, que se perpetuou em sucessivas gerações. Ele ficou o Desejado! Ele ficou o Encoberto!


Notas deste blogue:
[1] Caquexia = fadiga, fraqueza.
[2] Correr canas e alcanzias =  as alcanzias eram bolas de barro para as quais se atiravam canas, em jogos praticados a cavalo.
[3] Quid = cerne, quê.
[4] Pósteros = os vindouros, os que virão depois de nós.

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