sábado, 29 de janeiro de 2011

I- Antes do futebol, eram as touradas: toureio no jornal.

Nas memórias de Eduardo Schwalbach (1860-1946), “À Lareira do Passado”, de 1944.
Estou numa fase de ler livros de memórias, e as de Eduardo Schwalbach, são um notável exercício de escrita – e como ele escrevia bem! Na minha interpretação, estas memórias são principalmente um agradecimento, no fim dos seus dias, às pessoas que com ele privaram e ao que a vida lhe deu. A todos expressa uma sentida saudade. Sejam monárquicos, como o notável Hintze Ribeiro, figuras reais, como D. Carlos e Rainha Dona Amélia, republicanos, como António José de Almeida e Afonso Costa, seus numerosos amigos ou colegas do teatro e do jornalismo.
Escolhi um quadro teatral dessas memórias. Eduardo Schwalbach dá-lhe o título “Touros e Touradas”. No ano de 1893, depois da sua passagem pelo Correio da Manhã, Eduardo Schwalbach assume, aos 33 anos, a chefia da redação do Diário Ilustrado. Segue-se a sua narrativa.

"(...) Logo na noite da posse do meu lugar de chefe da redação, no ponto aceso da labuta, deu-se início ao mais ultra-burlesco episódio que parecia guardado para a minha estreia, com o fim de não me desviar da estouvada vida do Correio da Manhã e, pelo contrário, de continuá-la com grande aprazimento do meu feitio brincalhão.
Cerca das onze da noite “Com licença?” e entra-nos pela casa um homem dos seus trinta anos e pico, de aspeto forte mas assarapantado e com um sotaque ilhéu. Perguntou pelo diretor, respondeu-se-lhe que vinha mais tarde: “Posso esperar aqui?” “Pois não”, e sentou-se numa cadeira junto da mesa e esperou umas boas duas horas, durante as quais, sem abrir bico, se entreteve a fazer, a desmanchar e a refazer pombinhas de papel. Já esta tarefa pombalina provocara uma troça e risinhos entre todos os que ali estávamos, e quando à uma hora, de regresso do Restaurant Club, chegou o Pedro Correia com o seu amigo José Galache, apontámo-lo, e ele entregou-lhe uma carta lida com visível prazer depois de verificada a assinatura.
- Que deseja? Perguntou-lhe Pedro Correia.
E o portador da missiva com o seu cantado sotaque:
- Uma colocação. Lá na Ilha ensinava meninos; cá em Lisboa já fui boi numas tourinhas.
Ó céus que tal disseste! Parou-se de escrever, e um mal reprimido ah! de alegria ressoou pela sala. Pedro Correia e José Galache a custo sufocaram as gargalhadas ao ouvi-lo atribuir-se o papel de boi amador como título de recomendação.
Convém aqui notar que naquela época a loucura pelas touradas igualava a de agora pelo futebol: como hoje nas ruas o rapazio, atirando a bola uns aos outros, acerta em quem passa, assim então, simulando touradas, chegava, por um acaso, a passar à capa o pacato transeunte.
Uma curtíssima pausa; o ilustre boi dá um passo em frente, fita o Pedro Correia e à queima-roupa, num tom de quem põe as cartas na mesa:
- Senhor Pedro Correia, a minha avó tem uma burra branca que é uma estampa, e já me disse que ma deixava em testamento. Pois pode V. Ex.ª contar com a burra se me obtiver uma colocação...
Aqui, diante da burra da avó, já todos da redação nos torcemos nas cadeiras, e o José Galache escapa-se para a janela a fingir um ataque de tosse para disfarçar o riso. Só o Pedro Correia, por um esforço hercúleo, se conservou firme. Com toda a seriedade como se aceitasse o contrato, ao passo que à socapa nos piscava o olho agaiatado, confirmou:
- Está bem; alguma coisa se há de arranjar. O que fica sendo desde já é boi cá do jornal, porque os rapazes, acabado o trabalho, costumam divertir-se com umas touraditas.
- Muito obrigado a V. Ex.ª! Agradeceu o nomeado um tanto comovido.
Não se pode esperar mais:
- Hoje! Já hoje! Implorámos num grito unânime.
- Pois sim! Confirmou o diretor também a pular-lhe o pé para a paródia.
E dentro dum quarto de hora, preparado o redondel e sob a inteligência de Pedro Correia que, mais uma vez oleográfico, num instante se imaginou a dirigir uma tourada de verdad, toda a redação, comigo à frente, dava começo à corrida. O boi saiu de primeira ordem: escarvava antes de avançar e marrar; nunca procurando o vulto, era duma lealdade cavalheiresca. Gargalhadas, um e outro trambulhão, aplausos e, ao findar, o José Galache, abraçando-o, disse-lhe “O meu amigo nasceu para boi; não há dúvida!” “Favores de V. Ex.ª!” respondeu lisonjeado o animalzito. “Até amanhã à mesma hora!” e com um “Vou ver o que se pode arranjar” do diretor para lhe dar ânimo, correspondido com um “E conte V. Exa.ª com a burra!”, toda a cuadrilla o acompanhou até à porta da rua. E com esta solenidade tomei conta do meu lugar. Nas minhas sete quintas!
Mas o caso não fica por aqui. Na noite seguinte, na outra e na outra a mesma cena, ainda mais puxada. À quarta noite... o boi faltou, e à quinta e à sexta. Estávamos desolados, que lhe teria sucedido? Eis que aparece o engenheiro Augusto Ferreira, mais tarde comandante dos bombeiros, pessoa alegríssima, que se dava otimamente com as do jornal. No meio da conversa conta-se-lhe a história do que se passara; ele ri-se e interroga:
- Mas querem outro boi?
- Se queremos?! Foi voz geral.
- Pois amanhã cá lhes mando outro que não há de ficar atrás do que recolheu às lezírias: é o Ricardo Esparvão da Silva Leitão.
Efectivamente vinte e quatro horas depois aparecia-nos o novo cornúpeto.
Quem era este boi nº2? Eu lhes digo: Ricardo Esparvão da Silva Leitão, que usava no pescoço, debaixo da camisa, uma enfiada de cornichos e com eles abençoava quem queria tornar feliz, meio maluco, meio manhoso, morou durante largo tempo defronte da Casa da Moeda onde era empregado subalterno. Um dia saiu-lhe a sorte grande num oitavo de bilhete: comprou um harmonium e foi para a janela tocá-lo em grande chacota, atirou com o emprego para as urtigas e depressa gastou todo o dinheiro com uma bribona qualquer que lhe passou o pé ao vê-lo outra vez pobre. E o nosso homem, sem um real e sem mulher, entrou a viver do auxílio dum e doutro, prestando os serviços de que o encarregavam e, diga-se a verdade, sempre honradito. Um dos seus patrões era o Augusto Ferreira: tendo-o posto ao corrente das funções que ia exercer e que de bom grado aceitou por se tratar de jornalistas, classe da sua simpatia, enviou-o em missão tauromáquica ao Diário Ilustrado, conforme se combinara. Durante algumas noites o distinto neófito desempenhou menos mal o seu papel, embora sem o arreganho do seu antecessor que, inesperadamente, a meio duma corrida, reaparece e detendo-se à porta, tomado de espanto, chapéu na mão e a voz titubeando entre indignação e mágoa, protesta:
- Vejo aqui outro boi! Reconheço que já sou demais nesta casa. Só me resta retirar-me.
Não o deixámos sair; apresentámos os dois bois um ao outro, apertaram ou, com mais propriedade, ensarilharam as mãos, o Esparvão benzeu com o seu colar de cornichos o colega, e este para justificar as suas faltas apresentou um atestado médico! As touradas continuaram por algumas noites com a alternativa de um para outro na mais íntima fraternidade, mas tout passe, tout lasse, tout casse, e não me recordo porque motivo cessaram as lides tauromáquicas. O Pedro Correia, por dó, arranjou para o ilhéu um lugarzito e o Esparvão foi devolvido à procedência.
Creio que este simulacro de manicómio se desenha como uma confirmação correta e aumentada da vida jornalística do Correio da Manhã, e mostra como naquele tempo – tudo tem exceções – se faziam alguns jornais, pois que o mesmo se dava no Jornal da Noite de Teixeira de Vasconcelos (...)".

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