segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

II- Antes do futebol, eram as touradas: a relação com o fado.

A relação entre o fado e a tourada sempre atraiu a minha curiosidade. Ela começa por ser, nos primórdios do fado, uma relação de alcova - o que vem a propósito, hoje, dia dos namorados - entre a Severa e o Conde de Vimioso. É contada no notável Lisboa d’Outros Tempos {*}, 1898, de Pinto de Carvalho (Tinop), que aqui parcialmente transcrevo.   {*}http://openlibrary.org/books/OL24361717M/Lisboa_d'outros_tempos_por_Pinto_de_Carvalho_(Tinop)

O conde de Vimioso foi a primeira figura do sportismo hípico, foi o lídimo herdeiro das nobres tradições do velho marquês de Marialva, o grande mestre da equitação, estribeiro-mor de D. José I, e , segundo muitos, o autor da Luz da liberal e nobre arte de cavalaria, impressa em 1790.
O conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, nascera em 28 de Julho de 1817, e morreu em 9 de Julho de 1865, havendo sido casado com D. Maria Domingas de Castelo Branco, condessa viúva de Belmonte, dama da Rainha D. Maria II, e filha dos segundos marqueses de Belas.
O conde de Vimioso sucedeu no pariato (1) a seu pai, o 5º marquês de Valença e 12º conde de Vimioso, par do reino desde 1826, ministro de estado honorário, e brigadeiro do exército. Mas o redondel é que foi a arena dos seus combates, e o Capitólio (2) das suas glórias. Apesar da sua estatura meã, era elegantíssimo a cavalo, onde se mantinha firme, ereto, como um busto de bronze florentino sobre uma coluna de mármore de Carrara. Cavaleiro de haute encolure (3), subjugava o mais fogoso cavalo, que, debalde, se encabritava apertado pelos seus joelhos de ferro; vencia as máximas dificuldades no exercício da gineta (4), com tanta facilidade e felicidade como metia farpas num touro. Vimioso fazia correr o seu cavalo, aligero (5) como o dum campino, que, de pampilho (6) na mão e barrete frígio ao vento, persegue o touro tresmalhado da manada na planura rasa da lezíria ribatejana.
Assinatura de Tinop
O conde de Vimioso, o mais notável de todos os cavaleiros tauromáquicos, era exímio nas sortes à tira ou à estribeira (7) como também lhe chamavam, e que ele realizava com a maior perícia nos touros levantados, isto é, nos touros que estão no primeiro estado, quando saem da gaiola de cabeça erguida, correndo sem fixarem os vultos. Sabia estar numa sala, sustentar conversação espirituosa com as damas, possuía mesmo muita graça, a faceciosa (8) graça portuguesa, sem nunca descambar na lerda chalaça. Mas, uma vez fora das salas, só o encontravam nos picadeiros, nas estrebarias, nas feiras de gado, acamaradado com toureiros, boleeiros (9), e troquilhas de cavalos (10). Era sua natural propensão, seu ínsito pendor.
Contam-se, a trecheio (11), as tretas e maranhas do Conde de Vimioso. Teve um cavalo que umas poucas de vezes vendeu por vários preços e umas poucas de vezes comprou por seis mil reis. Certa ocasião ofereceu-o ao sr. João Fletcher pelo dinheiro que tivesse na algibeira. Este aceitou a oferta, e deu-lhe seis moedas em papel, que então valiam 32 pintos (12).
Mandou guardá-lo na cavalariça do Almeida Navarro – na rua de S. Francisco, onde agora está uma vacaria – e, indo aí para experimentar o solípede, este atirou-o ao meio da rua. Fletcher corre ao Campo de Santana, onde, nessa ocasião, morava a Severa, e em cuja casa era habitual encontrar o conde. Fletcher propôs-lhe, por sua vez, vender-lhe o bicho, o que o Vimioso aceitou logo, comprando-lho por seis mil reis. Tornou a vendê-lo por trinta moedas a Eugénio de Faria, casado com a condessa da Póvoa, mas este, vendo que o animal era indomável, mandou matá-lo com um tiro. Vimioso, sabedor do caso, exclamou melancolicamente: – Lá se foi o meu morgado!
O Vimioso possuía um rocim já velho e cego, que não prestava nem para uma atafona (13). Aparecendo comprador mostrou-lhe a alimária, e dizia, gabando-lhe as qualidades: – O cavalo não é uma estampa, não tem vista, mas é bom, apesar desse senão. – O comprador regateou no preço, até que, havendo-lhe chegado à conta, comprou o animal. Passados dias, reconhecia, com pasmo, que o cavalo era cego. Voa a casa do conde de Vimioso, tentando desfazer o negócio sob a alegação de vício redibitório (14). Mas o conde ponderou-lhe que o não enganara, porque sempre lhe afirmou que o cavalo, não tinha vista. Era habilíssimo nesta ordem de transações, a ponto de iludir os mais astutos ciganos.
Falando-se no conde de Vimioso deve-se falar na Severa, porque juntos entraram na tradição oral trigueira, nervosa e sobre o magro, a Severa tinha uns negros olhos mandingueiros (15) como pura cigana que era.
Fizera parte das hordas de ciganos que bivacavam (16) na Carreira dos Cavalos, onde se entregavam a negócios variados, empregando sempre o embuste, que é um dos mais acentuados traços psicológicos desse povo, cuja filiação histórica é ainda hoje um problema insolúvel, posto que alguns o considerem hipoteticamente, o continuador dos Hykssos ou Pastores que invadiram o Egito depois da 14ª dinastia, e que aí dominaram durante quinhentos anos (sendo no seu tempo que entraram os hebreus), até serem expulsos pelo rei Ahmés I, ou Amosis, indo então estabelecer-se na Síria.
Ninguém, como a Severa, dispunha de um tão primoroso vocabulário regateiral (17), de tão crua adjetivação polémica, de tantas rabularias (18) garotas; ninguém, como ela, apreciava os encantos duma corrida de touros, as esperas do gado, o vaguear à toa e à tuna (19); ninguém tinha, como ela, os movimentos esquadrilhados, os sacarotes (20) petulantes no fado batido (21).
E quando uma ponta de embriagues lhe afogava os olhos numa ternura húmida, e, de cigarro ao canto da boca, passava a dedilhar na banza (22) um rigoroso, Por Dios! (23) dissipava a melancolia melhor do que a tradicional nepenthes de Plínio (24). Por isso a Severa cantava, fazendo gemer a guitarra sob as unhas acaireladas (24):

Eu já vi numa tourada
Um valente cavaleiro,
Era o D. José lanceiro
Pai da rapaziada.
Não se lhe deu para nada
Que dele tivessem dó
A combater c’um boi só.
Diz uma velha dali
Ai! Que ele está aflito,
Mas não pode dizer Tó.
[Nota do autor: “Folhetim do sr. Alberto Pimentel, publicado no Diário de Notícias de 12 de Junho de 1893”]

O conde de Vimioso adorava esse olhar agudo como uma espada, esses negros olhos gitanos ardendo  em febre, as voluptuosidades exaustivas, as carícias afrodisíacas dessa mulher crapulosa, cujo sangue, abundante em fósforo e em iodo, a espicaçava de lancinantes desejos cupidínios. Mordido pelo dente incisivo da paixão, pretendeu confiscá-la em seu proveito exclusivo, e, para esse fim, chegou a fechá-la à chave numa casa, como já tinha encerrado o seu amor na mais recôndita gaveta do coração. Mas a barregã, um belo dia, pendurou-se da janela, que era baixa, e, ao passar uma carroça de lavadeiras, deixou-se cair sobre as trouxas da roupa, e escapuliu-se. Outra vez, ainda, tornou a fugir ao conde de Vimioso, que, em vão, a procurou por toda a parte. A Severa – de anagoas (26) amarfanhadas, meias azuis, e tamanquinhas de polimento pespontadas a retrós – estava numa taberna do largo dos Inglesinhos, improvisando chularias à guitarra, nesses delírios do seu cérebro esquentado pelo álcool.
Os circunstantes gargalhavam estridulamente como soalhas de alcancareiros (27) em romaria sertaneja. Um amigo do Vimioso passava por ali, e viu a Severa na taberna. Deitou a cabeça para dentro e cantou:

Todos aqueles que são
Da nossa súcia efetiva
Lamentam a fugitiva
Da rua do Capelão.  
[Nota do autor: “Folhetim já citado”]

A Severa, ilustração de abertura do
livro homónimo de Júlio Dantas, 1901.
Fora descoberta; quis fugir, mas, desta vez, não pôde. No meio dos seus amores – através dos quais passou escuteira – foi o conde de Vimioso quem campou (28). Para ele todos os tesouros dos seus nervos, para ele todas as riquezas dos seus ardores sensuais! A Severa morreu aos 26 anos, depois de uma ceia de borrachos assados, regados por alguns quartilhos de crasso torriano [na História do Fado{**}, Pinto de Carvalho (Tinop) corrige-se: “Maria Severa morreu, segundo papagueia a lenda, de uma indigestão de borrachos regados de boa pinga. Mais uma vez, porém, somos forçados a retificar a lenda. A Severa adoeceu na sua casa da rua do CapeIão, á esquina do beco do Forno, e foi conduzida ao hospital, onde se finou na enxerga de uma enfermaria especialista”. Estávamos em 1846].

A morte desta marafona de viela foi considerada uma perda irreparável no mundo fadistal. Choraram-na nas tascas, nos bordéis, nos garitos (29) populares...
O faia (30) guitarrista e lovelaciano (31) derramou quentes lágrimas ao desaparecer essa rameira, que acordava as paixões que dormiam nas almas como armas em estojos fechados, ao morrer essa cantárida (32) que queimava o sangue dos homens para estuarem na febre dos caprichos eróticos, nas convulsões espasmódicas dos abandonos amorosos, nas curtas vibrações do prazer carnal.
E o seu De-profundis foi cantado pela poesia ácida dos bardos da rua...

Assim como as flores vivem,
Minha Severa viveu;
Assim como as flores morrem,
Minha Severa morreu!

Levantai-lhe um mausoléu.
Com um negro cipreste ao lado,
E o epitáfio que diga:
Aqui jaz quem soube o fado!  

Notas da responsabilidade deste blogue (aquelas coisas que tive de ir ver ao dicionário):

     (1)     Pariato: é um membro da Câmara dos Pares do Reino.
     (2)     Capitólio: colina romana onde se edificou o Templo de Júpiter e donde partiam todas as grandes vias, que ligavam Roma antiga a todo o Império.
     (3)     Haute encolure: do francês, pescoço levantado (do cavalo).
     (4)     Gineta: maneira de andar a cavalo com os estribos curtos.
     (5)     Aligero: que tem asas.
     (6)     Pampilho: garrocha ou vara de tanger ou açoitar o gado.
     (7)     Sortes à tira ou à estribeira: é quando o cavaleiro chama o touro na ocasião em que ele está do seu lado direito e lhe mete a farpa no momento em que ele prepara a pancada muito próximo da sua perna direita.
     (8)     Faceciosa: de facécia (galanteria).
     (9)     Boleeiros: cocheiros.
     (10) Troquilhas de cavalos: cavalos para trocas.
     (11) Trecheio: muito, excessivamente.
     (12) Pinto: unidade monetária equivalente a 480 réis.
     (13) Atafona: moinho.
     (14) Redibitório: efeito de tornar a vender ao vendedor por defeitos não declarados.
     (15) Mandingueiros: feiticeiros.
     (16) Bivacar: estacionavam ao ar livre.
     (17) Regateiral: de regateiro/a .
     (18) Rabularia: fanfarronada.
     (19) Vaguear à toa e à tuna: andar sem destino a vadiar.
     (20) Sacarotes: não descobri o significado; se a palavra estiver ligada a sacar ou tirar, faz-me pensar que possam ser “tiradas”, no sentido de “dizeres”.
     (21) Fado batido: fado com ritmo mais rápido.
     (22) Banza: guitarra.
     (23) Por Dios!: julgo tratar-se de uma exclamação de espanto perante a mestria da Severa no canto fadista; algo de semelhante quando dizemos em Portugal “Meu Deus!”.
     (24) Nepenthes de Plínio: Plínio descreve esta planta, cujo extrato é uma droga psicoativa.
     (25) Acaireladas: enfeitadas (na minha interpretação, por estarem sujas).
     (26) Anagoa: saia branca por cima da camisa.
     (27) Soalhas de alcancareiros: soalhas são pequenos pratos de metal, colocados aos pares na extremidade das pandeiretas; alcancareiros os tocadores de pandeiros 
     (28) Campar: triunfar.
     (29) Garito: casa de jogo.
     (30) Faia: fadista.
     (31) Lovelaciano: namorador.
     (32) Cantárida: inseto, que esmagado, é usado como afrodisíaco.

Nota final: Júlio Dantas conta nas suas memórias, que quando a peça A Severa da sua autoria, estava para estrear, Hintze Ribeiro terá pessoalmente intercedido para que não fosse mencionado o nome do conde de Vimioso. A descendência do conde era muito influente nas altas esferas do Estado Monárquico. Assim, em sua substituição, é criada a figura do “conde de Marialva”.

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