sábado, 19 de fevereiro de 2011

III- Antes do futebol, eram as touradas: quando o futebol chegou.

Henrique Galvão, figura de
muitas facetas, "warholizado".
O texto aqui colocado, é originário da cidade do Porto, de Julho de 1944, extraído do livro Irreverência (notas à margem da política e dos costumes) de 1946. Na sua maioria é uma compilação de artigos publicados na imprensa. O autor é Henrique Galvão, uma figura mítica da oposição a Salazar. Não era um ex-republicano nem anarquista ou comunista, pelo contrário. Enquanto militar tinha participado no 28 de Maio e tal como Humberto Delgado, foi durante muito tempo destacado apoiante do Estado Novo – entre outros cargos foi governador de Huíla, Angola, e diretor da Emissora Nacional. Quando do assalto ao paquete Santa Maria em 1961, apresentou-se como “jornalista”. Escrevia admiravelmente bem e os seus livros continuam subvalorizados até hoje, talvez porque a maior parte abordavam temáticas coloniais.

"Futebol e Família" por Henrique Galvão – transcrição parcial.
[notas entre parêntesis reto da responsabilidade deste blogue]

(..) Um dia esta família [pacífica], que gostava imenso de touros e cavalhadas, romarias e bailaricos... apaixonou-se pelo futebol. E o exercício, que principiou por simples divertimento espetaculoso, não tardou a pôr a Casa [a Casa, com maiúscula, é Portugal] em alvoroço. Formaram-se grupos, com os grupos produziram-se choques, conflitos, mais bulhas. Em cada andar formou-se um clube. E entre os que jogavam e os que assistiam ao espetáculo, de palanque, por causa de ídolos transitórios e de encontros emocionantes, surgiram novos pretextos para escavacar a mobília e pôr a casa em desordem.
Mas dir-se-ia que qualquer coisa de corrosivo suava desta paixão: ao espírito da família substituía-se, lenta mas sensivelmente, o espírito, digamos, de clube. O Pai, alarmado com o desassossego, viu-se obrigado a instituir uma espécie de Direção Geral dos Desportos, que fez quanto pôde para reconstruir a mobília e reforçar as paredes, o que, ao cabo, se não evitou os pontapés, conseguiu, pelo menos, acabar com o jogo violento.
E já se voltava um pouco ao antigo gosto pelas touradas e cavalhadas, quando principiou a disputar-se, entre outras famílias das relações da Casa, um grande campeonato – o maior e mais emocionante da história das lides... desportivas.

O nosso Homem, absorvido pelas obras que tinha em Casa e, aliás, incrédulo quanto às vantagens do futebol, como agente de formação física e moral das famílias, firmou, desde o princípio, o propósito de não entrar no campeonato o que, evidentemente, o não impedia de continuar bom amigo dos seus amigos.
- Bem basta, dizia ele aos filhos, que tenhamos de suportar a vozearia do exterior
e uma ou outra vidraça partida... por bolas que irão fora. Vamos trabalhar, cuidar da nossa Casa.   
Mas qual. A paixão do futebol estava de tal maneira entranhada no corpo e alma dos filhos, que estes, embora estranhos à competição, feitos público, o espírito de família calcado pelo espírito de clube, logo se dividiram em simpatias tão desvairadas pelos contendores, que quase deixaram de pensar no futuro da Casa. Uns pelo “Benfica”, outros pelo “Sporting” (os grupos mais fortes do grande campeonato)* – tanto discutiam e barafustavam que, pela primeira vez parecia diminuída ou enxovalhada a virtude secular que enobrecia a família.
O Pai, desolado, mas firme, dizia-lhes:
- Só a Casa conta; a Casa, a nossa Casa!
Mas os sportingófilos entendiam que a Casa só se salvava se toda a família entrasse para o Sporting. Os benficófilos, por sua vez, asseguravam em altos berros que era no Benfica que estava a salvação. E todos argumentavam, de mãos estendidas ou punhos cerrados, com lógica de cimento armado, cada um a favor do seu ponto de vista – e com tal azedume, que alguns andavam de relações cortadas com o próprio Pai!
Quando um dos grupos marcava pontos, a bulha recrudescia: “Benfica! Benfica!” ou “Sporting! Sporting!”.
O Pai bramava:
- Vamos para Casa. Temos que fazer. Não serão o Benfica nem o Sporting que farão em nossa Casa o que a nós cumpre fazer. A vida é mais alguma coisa que o futebol (...).

*Nota do autor:
Como esta história é muito antiga, não se trata evidentemente dos dois clubes de Lisboa que têm o mesmo nome – nem dos seus simpáticos adeptos. Simples coincidência de nomes.

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