sexta-feira, 18 de março de 2011

Um grande filme-documentário: Fantasia Lusitana de João Canijo

Portugal durante a segunda guerra mundial

Utilizando exclusivamente imagens e textos da época, o tema principal do filme de João Canijo são os refugiados estrangeiros em Portugal – especialmente, em Lisboa – durante o ano de 1940.
À volta deste tema, João Canijo introduz imagens da Exposição do Mundo Português, discursos de Salazar, desfiles da Mocidade Portuguesa, etc, que nos dão uma visão mais geral da época, com a perspetiva da propaganda do regime salazarista, únicas imagens disponíveis. Os textos dos “passantes” estrangeiros são pertinentes, todos eles, e casam na perfeição com as imagens.
Quem pretenda “cheirar” um pouco do clima português no tempo de Salazar não deixe de ver este filme-documentário [Que pena não se poder passar este filme nas escolas. Porquê a proibição?] Ainda senti um pouco desse ambiente, pois nasci em 1955. Uma das minhas primeiras memórias foi o anúncio dos massacres de colonos em Angola, em Fevereiro de 1961, na rádio, acontecimentos que marcaram o início de uma Guerra Colonial, só resolvida após o 25 de Abril de 1974.

Este filme é uma rapsódia documental: são factos, que João Canijo cola com mestria, produzindo um discurso coerente e acessível a todos. No final, é difícil alguém não perceber a relação entre a montagem da propaganda do salazarismo, a fantasia lusitana, e a terrível realidade que existia na Europa. Quanto à miséria do país durante aquela época, João Canijo não tem filmes para mostrar, simplesmente porque eles não existem em arquivo.

Com o DVD, já à venda, temos como extras, entrevistas com João Canijo, Irene Flunser Pimentel e Fernando Rosas. Curiosamente, não apreciei nenhuma das entrevistas. Digo apenas que, sendo pessoas conhecedoras da época, é pena que tivessem optado por misturar “opinião doutrinária” nas suas respostas, dando da realidade, na minha opinião, uma visão distorcida. Mas inibo-me de fazer aqui essas críticas para não menorizar o filme, que objetivamente tem apenas um pequeno senão: não faz sentido a inclusão da inauguração do Cristo-Rei em 1959. A explicação de Canijo não me convence, até porque a ideia original do projeto desse monumento é muito anterior à guerra - e mesmo que o não fosse, estamos perante tempos diferentes, 1959 não é 1940.

Se quiserem complementar o filme com uma leitura sobre a época, leiam a melhor obra que até hoje li, para compreender Salazar e o salazarismo: “Salazar, uma biografia política” de Filipe Ribeiro de Meneses da editora D. Quixote. Não deixem de comprar este DVD e de ver um filme indispensável.

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