segunda-feira, 25 de abril de 2011

Carlos Malheiro Dias (Porto, 1875 - Lisboa, 1941) e a intervenção americana na Primeira Grande Guerra

Carlos Malheiro Dias
Carlos Malheiro Dias foi escritor, político, jornalista, historiador, uma figura independente de quem recentemente tive o privilégio de ler “Os Teles de Albergaria”, publicado em 1901. Embora Malheiro Dias tivesse sido deputado regenerador às cortes da monarquia, neste romance sente-se o mal estar latente do regime monárquico e o sentimento anti-ultimatum, aproveitado pelos republicanos no 31 de Janeiro de 1891 do Porto.

Outro livro que recomendo é “Ciclorama Crítico de um Tempo”, uma antologia de textos de Carlos Malheiro Dias, selecionados por Fernando Dias, com curioso prefácio de Mário Mesquita - que lamenta a falta de estudo mais aprofundado sobre a sua obra, e editado pela Vega em 1982.

Das coisas que mais admiro em Carlos Malheiro Dias é a sua capacidade de interpretar os dias da história que por si vão passando. Por exemplo, a forma como ele vê, em 1918, a intervenção americana na 1ª Grande Guerra, começando por citar o Presidente americano Wilson: “Uma das maiores dificuldades que experimentei durante os três primeiros anos da Guerra, quando nela ainda não haviam ingressado os Estados Unidos, foi a de fazer acreditar às chancelarias das nações europeias que os Estados Unidos nada queriam e que, se na guerra entrassem, não seria para dela obter nada de substancial, nenhum território, nenhum comércio, nem outra qualquer compensação equivalente”. E diz mais à frente Carlos Malheiro Dias que “(...) não se entendia a legitimidade da intervenção de um país, que proclamara o propósito de viver só para ele, no gigantesco conflito europeu. Com que direito a pátria de Monroe [A doutrina Monroe, de James Monroe, presidente americano entre 1817 e 1825, era da defesa do isolacionismo, do continente americano relativamente às belicosas e poderosas potências europeias] interviria numa luta armada em outro continente que não o americano, quando o seu povo jurara obediência à fórmula: “A América para os americanos”? Foi, pois, necessário ao presidente Wilson desacreditar gradativamente essa doutrina arcaica e paralisadora; demonstrar, por uma série de experiências concludentes, que ela contrariava substancialmente o caráter internacionalista da sociedade política contemporânea; patentear que o isolamento continental era apenas uma conceção geográfica, e que a luta travada na Europa entre dois ideais adversos, tão vitalmente interessava as democracias da América como as do continente europeu(...)”.

Revista "Illustração Portugueza" de 1909,
Carlos Malheiro Dias era o seu Diretor.
Na capa Eduardo Schwalbach, cuja peça
"Os Postiços", estreara com grande êxito.


Wilson era um ideólogo de visão “progressista”, ainda hoje uma figura polémica na vida política americana. Mas mais do que a espuma dos discursos, Carlos Malheiro Dias, pressente uma nova etapa da política mundial, caracterizada pela supremacia dos Estados Unidos durante todo o século XX:”(...) toda a vigorosa juventude dos Estados Unidos marcha ao som do “The Star Spangled Banner” para os campos de batalha, onde se está decidindo a par da vitória da Democracia, o advento da enérgica e juvenil América no domínio moral do mundo.”

O olhar atento, pragmático e crítico de Carlos Malheiro Dias percorreu o final da Monarquia, a Primeira República e o início do Estado Novo. Não registo outro caso, de um monárquico condecorado pelo rei D.Carlos e por um presidente republicano, António José de Almeida.  

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