sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Insustentável Dívida Portuguesa

Procurei compreender, caso não tivesse existido a reprovação do PEC IV e esta crise política, e a manterem-se as tendências de subida dos juros desde a posse deste governo, quando é que atingiríamos o nível actual de juros. A minha conclusão foi que esse nível seria atingido 3 meses mais tarde, em Julho de 2011, e muito provavelmente Portugal estaria na mesma situação que está hoje e seria obrigado a pedir ajuda ao FEEF - Fundo Europeu de Estabilização Financeira/FMI – Fundo Monetário Internacional. (ver gráfico abaixo, com dados extraídos da Bloomberg, dos títulos a 10 anos, que me parecem ser aqueles que mais marcam a dívida de um país e tudo decidem).

Nem sequer chegaríamos à aprovação do próximo orçamento. A antecipação deste pedido de ajuda para agora, tem a vantagem de fazer baixar os juros e não andarmos mais 3 meses a arrastar o país com juros excessivos que teremos sempre de pagar. Assim, o alerta dos banqueiros foi um serviço ao país. A antecipação poupou-nos muitos milhões. Essa conversa de "banqueiro manda no país" é para quem acha que a banca não tem responsabilidades para com os seus clientes e accionistas. A banca deveria até ter atuado mais cedo, porque compreendeu antes de todos, o caminho inexorável para o desastre. Nunca compreendi a posição de alguma banca em 2009, de apoio ao TGV.
Um empréstimo intercalar de mais dinheiro, 20 ou 30 mil milhões, que o PS tinha esperança de fazer aprovar pelas instâncias europeias, só agravaria ainda mais a dívida e custaria mais austeridade e sacrifícios no futuro.

A vantagem de instituições como o FMI e o FEEF gerido pelo BCE, é estas instituições não terem uma lógica dependente dos políticos, e por isso, não serem sujeitos a pressões e influências dos grandes grupos políticos europeus, democrata cristãos, sociais democratas e liberais, que impediriam a adoção de soluções eficazes de emagrecimento do estado e das despesas.

Lima de Freitas, sem título, tinta da china sobre papel, 1957











































A solidariedade europeia e internacional existe, mas de forma muito limitada e apenas através destes programas destinados aos países em aflição. Mas não servem para pagar as nossas dívidas. Há quem fale em títulos do tesouro europeus, de "mais federalismo na UE" pensando que os outros pagariam as nossas contas. São ingénuos. Para nós, gregos e irlandeses, aplica-se, como é óbvio, o princípio de "quem deve, paga". O ódio aos credores é um ódio de mau pagador que não nos resolve os problemas e não nos fica bem, numa altura em que necessitamos da boa vontade internacional. A maioria dos credores são espanhóis, franceses e alemães ou portugueses, empresas e instituições que, muito naturalmente, não querem trocar os seus lucros por perdas.

Com uma dívida tão pesada, não creio que o programa FMI/FEEF seja suficiente e acredito que a partir de 2013, sejamos obrigados a reestruturar a dívida. Mas nada nos vai salvar de 2 ou 3 anos de muito intensa austeridade e nenhuma instituição internacional aceitaria uma reestruturação da dívida, sem um período prévio de austeridade e a demonstração da evidência dessa necessidade. O estado, a economia e a finança portuguesa, têm sido máquinas de produzir dívida nos últimos anos. Por exemplo, ao longo dos 6 anos deste governo, a dívida pública duplicou. Do que estou certo, é que esse caminho acaba aqui, quaisquer que sejam os resultados eleitorais. Do que tenho mais receio, é que a curto prazo o desemprego e a miséria aumentem. A nossa solidariedade individual e coletiva vai ser posta à prova.

Entretanto, tal como o estado, a cultura gastadora da classe média mantem-se, muitas vezes até ao último tostão do cartão de crédito: a classe média que deveria pensar no futuro, parece estar-se marimbando e continua por exemplo, a encher o Algarve na Páscoa, e jovens com e sem recibo verde, bares e discotecas. Os hábitos custam muito a mudar, mas vamos ter de gastar menos e de aprender a poupar. Os nossos avós, muito mais pobres que nós, tinham essa preocupação.

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