domingo, 8 de maio de 2011

Macedo Papança, Conde de Monsaraz

A poesia do Conde de Monsaraz tem-me divertido este fim de semana. A culpa foi de Augusto de Castro, e do seu livro dos anos 50, “Mestre Outono, Pintor”. O livro chamou-me a atenção pelo seu título, porque tal como Augusto de Castro, também prefiro a paisagem portuguesa no Outono, a minha estação preferida desde miúdo. Além disso, admiro a escrita de Augusto de Castro, e são já alguns, os livros dele na minha modesta mas queridíssima biblioteca. A páginas tantas, em “Poetas e Poesia”, Augusto de Castro refere Macedo Papança:

Macedo Papança
Conde de Monsaraz, 1912.
“(...)Macedo Papança foi rico e conde. Foi um homem encantador, gozando de largo e aristocrático prestígio no meio mundano e político. Foi Par do Reino”, e acrescenta Augusto de Castro que “Os portugueses não gostam destas acumulações”, lembrando que também “Camilo Castelo Branco foi visconde”, embora tendo-o sido “já tarde e na descida da doença e da desgraça”. E continuando “Almeida Garret foi também visconde, mas numa altura em que, na política e na sociedade, todos, à sua volta, eram duques, marqueses e marechais. Como tinha muito bons credores, perdoamos-lhe. Guerra Junqueiro foi rico, mas soube separar das vinhas e dos castanheiros de Freixo de Espada à Cinta o guarda-chuva do Parnaso e a lira do Poeta. Quando ia ver as suas propriedades do Douro deixava no Porto as barbas tolstoianas e as Musas. O capitalista nunca falou nisso no Chiado e, com o seu pequenino chapéu mole, o seu casaco preto de lustrina e a sua total isenção das aparências, ele próprio tinha o ar de ignorar as suas vides do Douro”. Disto isto, Augusto de Castro apresenta Macedo Papança, Conde de Monsaraz, que “teve a sua corte alentejana de artistas, um salão literário, uma vida larga, uma linda cabeça de Aedo [poeta e cantor ambulante entre os gregos antigos], foi palaciano e lavrador – e foi-o com faustosa clareza e sem pedir desculpa a ninguém. Essas coisas não se perdoam entre nós. Nós ficámos sempre incorrigivelmente fiéis à conceção do Poeta como um sujeito magro que engraxa pouco as botas, tosse um bocado nos intervalos das odes e é incapaz de fazer outra coisa que não seja ditirambos [composição poética que exprime entusiasmo]. O Poeta da Musa Alentejana a passear de carruagem brasonada na Avenida – eis uma coisa que leva, pelo menos, duas ou três gerações a esquecer. Nós gostamos de ter pena de alguém. Ficou-nos esse jeito do fado. A piedade é uma das guitarras nacionais.
É curioso que esse homem feliz foi precisamente quando instalado num título e numa alta situação social que melhor revelou a emoção duma ardente vida interior. Macedo Papança, ao chegar a Lisboa, vindo de Reguengos, era um vate sorridente e aristocrático. Foi o Conde de Monsaraz que regressou ao drama da terra, à écloga [composição pastoril em verso] da sua província, à alma das charnecas e dos montados, à viola do velho Brás e à graça matinal das azinhagas em flor.
Foi na época dourada da sua existência que ele sentiu melhor a humilde gestação do povo, o divino crepúsculo dos horizontes de sobreiros e de giestas em que nascera. Foi então que nele surgiu o admirável poeta regional que ia criar o lirismo alentejano e lhe ia dar o lugar que lhe compete, de um dos clássicos da nossa poesia moderna, ao lado de Cesário Verde e de Gonçalves Crespo (...).

Tendo lido isto, fui à procura de informação sobre Macedo Papança, 1º Conde de Monsaraz. Queria conhecer os seus dados biográficos e a sua poesia tão elogiada por Augusto de Castro. Encontrei alguns dados na Infopédia e na Wikipédia. Nasceu em 1852 em Reguengos de Monsaraz, onde era filho de um rico proprietário rural. Foi advogado, deputado, sócio da Academia Real das Ciências, da Academia Brasileira de Letras, da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Instituto de Coimbra. Foi Par do Reino em 1898 e condecorado em 1906 com a Comenda de S. Tiago de Espada. Exilou-se em Paris quando do 5 de Outubro de 1910, voltando a Portugal em 1913, falecendo pouco depois, na véspera do seu 61º aniversário. A Escola Secundária de Reguengos de Monsaraz tem o seu nome, Escola Secundária Conde de Monsaraz. Sobre a sua poesia, do que li - ver a notável Biblioteca Digital do Alentejo - seleccionei 3 poemas:

SALADA PRIMITIVA

Leitor, se amas o campo e a natureza,
                Se és bucólico e rude,
                E na tua rudeza
Só respeitas a força e a saúde;
Se às convenções da sociedade opões
O desdém pelas normas e preceitos,
Que trazem pelo mundo contrafeitos
                Cérebros e corações;
Se detestas o luxo e se preferes,
Francamente, às senhoras as mulheres,
E tens, como um pagão da velha Esparta,
Pulso rijo, alma ingénua e pança farta;
Se és algo panteísta e tens bem vivo
                Esse afagado ideal
Do retrocesso ao homem primitivo,
Que nos tempos pré-históricos vivia
Muito perto do lobo e do chacal;
Se um ligeiro perfume de poesia
                Que se ergue das campinas
Na paz, no encanto das manhãs tranquilas,
                Te dilata as narinas
E enche de gozo as húmidas pupilas,
Leitor amigo, se assim és, vou dar-te
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
                Uma antiga receita,
Que os rústicos instintos te deleita
E frémitos te põe na grenha hirsuta.
                Leitor amigo, escuta:

Vai, como o padre-cura, cabisbaixo
Pelos vergéis da tua horta abaixo
Quando no mês de Abril, de manhã cedo,
O sol cai sobre as franças do arvoredo,
Para sorver aqueles bons orvalhos
Chorados pelos olhos das estrelas
Nos corações dos galhos;
Passarás pelas couves repolhudas
                - Cuidado não te iludas,
                Nem te importes com elas!
Vai andando...
                Mas logo que tu passes
                Ao campo das alfaces,
Pára, leitor amigo,
E faz o que te digo:
Escolhe dentre todas a mais bela,
Folhas finas, tenrinhas e viçosas
                Como as folhas das rosas,
                E enchendo uma gamela
                De água pura e corrente,
Lava-a, refresca-a cuidadosamente.
Logo em seguida (e é o principal)
Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite
                Um fiozinho de azeite,
                Vinagre forte e sal,
E ouvindo em roda o lúbrico sussurro
Da vida ansiosa a propagar-se, que erra
                Em vibrações no ar,
Atira-te de bruços sobre a terra
                E come-a devagar,
Filosoficamente, como um burro!


S. JOÂO

Raparigas que bailam nas fogueiras
                Da noite de S. João,
Permita Deus, S. João, que tu as queiras,
                Loiras, trigueiras,
                Como elas são,
Inda antes do S. João do ano que vem,
                Ai, que tu queiras
                Casá-las bem!

Andam, coitadas, numa roda-viva,
Olhos em brasa, corações em fogo,
Nos braços do demónio que as cativa,
As beija agora e as abandona logo;
                Eu pois te rogo
                Que as raparigas,
Fiadas nas cantigas dos rapazes,
As não deixes levar só por cantigas,
S. João, e as cases.

S. João, se as não casares, que desgraça!
                Que há de ser delas?
Pergunta à Lua, indaga das estrelas
O olhar que as queima e a vez que as despedaça.
                Lá vão em bando
                Rindo e cantando,
                Lá vão aos pares...
Que desgraça, S. João se as não casares!

Com vinho forte as almas embriagas
                Por esses mastros
                De rua em rua,
Mas o demo anda à solta e roga pragas...
É preciso evitar que à luz dos astros,
Beijando a carne em flor, as prostitua.
                Olha, lá vão...
Não as deixes, por Deus, que as cresta a Lua.
                Casa-as, S. João!


O SENHOR MORGADO

O senhor morgado
Vai no seu murzelo,
Todo empertigado.
É um gosto vê-lo,
Próspero anafado,
Véstia alentejana,
Calça de riscado:
Homem duma cana!
Vai, todo se ufana
De ir tão bem montado
E ela na janela...
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
Vai nas próprias pernas,
Todo bambeado;
Tem palavras ternas
Para cada lado.
Quando passa, sente
Que é temido e amado;
Fala a toda a gente,
Topa um influente:
“Sou um seu criado...”
Eleições á porta,
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
Vai na sege rica
Todo repimpado:
Ai que bem lhe fica
O chapéu armado,
E a comenda ao peito,
E o espadim ao lado!
Que homem tão perfeito!
Deputado eleito,
Muito bem votado,
Vai para o Te-Deum,  
Seja Deus louvado! 

Este poema, foi musicado por José Niza e cantado por Adriano Correia de Oliveira, no Album "Gente de Aqui e de Agora", de 1971:

1 comentário:

  1. Enhorabuena por el blog;tiene raices y es muy interesante en su contenido...

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