sábado, 25 de junho de 2011

D. João de Castro (1500-1548): tromba marítima e tufão no Roteiro de Lisboa a Goa.

“A experiência é a madre das coisas”
Duarte Pacheco Pereira (1465-1533)

Em viagem para a Índia, é uma notável descrição, a que D. João de Castro aqui faz, de uma tromba de água e de ventos ciclónicos. Não tenho essa indicação, mas acredito que os fenómenos tenham ocorrido no Atlântico, em zona tropical, a Noroeste de São Tomé e Príncipe, ou a Nordeste do Brasil, uma zona de formação de ciclones que cruza com a rota para a Índia, entre Julho e Outubro.   

D. João de Castro
‘Domingo, 14 de Julho, todo o dia foi o vento sueste e lés-sueste [1], e assim como largava ou escasseava, assim fazíamos o caminho, o qual, descompensando um por outro, ficaria à meia partida [2] do Nor-Nordeste. Este dia, às dez horas de pela manhã, vimos da banda do Noroeste umas nuvens bastas e dobradas, e, do meio delas, descia ao mar uma amostra como tromba de alifante, a que os marinheiros chamam “manga”; e por derredor desta tromba ou manga, não havia coisa alguma que nos impedisse a vista, assim como nevoeiro ou cerração.
A parte desta tromba que apegava nas nuvens, afastava por uma parte, e outra fazia uma testa; e dali para baixo até o mar era muito roliça e redonda. A ponta que pegava no mar erguia um grande fervor por derredor e, segundo notávamos os que isto víamos, parecia chupar água e levá-la por dentro da tromba acima. Duraria isto espaço de um quarto de hora, e estaríamos arredados dela pouco mais de meia légua [3]; e, como se desfez, deu-nos uma chuva grossa com trovões. O princípio como se ordenou esta manga, foi aparecer no mar uma grande fumaça e fervência de água do tamanho de uma nau, e, em espaço de dois Credos [4], foi crescendo para o céu, até pegar nas nuvens, deixando figurada esta tromba, por onde subia água a elas.
De noite, começaram a dar muitos relâmpagos por todas as partes do céu, com grande número de trovões; os fuzis eram tantos que nenhum momento de tempo estava sem eles; o vento era sueste, escasso e fresco; governámos ao Nordeste, quarta do Norte [5].
O piloto e marinheiros haviam por coisa muito averiguada que todos estes sinais demonstravam calmaria, mas o mestre, receoso ou guiado por Deus, amainou as velas, sendo passados quatro relógios da prima [6], do que clamavam muito os marinheiros. E acabando as vergas de serem em baixo, deu em nós tamanho vento, qual até aqui não temos visto nesta viagem. Durou este vento grande e espantoso até o fim do quarto da madorra [7], e entrando o quarto da Lua [8], abonançou e tornámos a dar às velas, sem monetas [9], governando ao Nor-Nordeste; o vento seria como lés-sueste. Toda esta noite choveu muito, e o mar andou muito manso.’

Notas da minha responsabilidade:

[1] lés-sueste – entre o (L)este e o Su(d)este
[2] à meia partida – termos médios, entre os rumos da rosa dos ventos.
[3] meia légua – mais ou menos 2,5km
[4] espaço de dois Credos – tempo que se leva a dizer dois Credos; cerca de 2-3 minutos; tive de ensaiar e medir pelo relógio; estarei correcto?
[5] ao Nordeste, quarta do Norte – a quarta é uma das 32 divisões da rosa dos ventos; a minha interpretação é a seguinte: olhando para a rosa dos ventos, dos dois espaços entre o Nordeste e o Nor-Nordeste, o rumo corresponde ao espaço que está junto ao Nordeste.
[6] quatro relógios da prima – a expressão “hora de prima” designa as nove da manhã, mas neste caso, creio que ele se refere ao início dos trabalhos, após o “quarto da prima”, entre as 8 e a meia-noite; não faz sentido serem nove da manhã, visto estarmos no período da noite; o relógio mais referido como usado nos navios da época, era a ampulheta de areia com meia hora de duração, então quatro relógios equivaleriam a 2 horas; se foi esse o tempo que demoraram os marinheiros a recolher as velas, entre meia-noite e as duas da manhã, pendurados nos mastros e com a chuva e a escuridão, deve ter sido uma carga de trabalhos.
[7] até o fim do quarto da madorra – o mesmo que quarto da modorra, da meia-noite até às 4 horas da manhã.
[8] quarto da Lua – tenho dúvidas, visto que a seguir ao quarto da modorra é o quarto da alva, das 4 às 8 da manhã; a expressão quarto da Lua, julgo que deva ser uma expressão  correspondente a esse período do dia e que queira significar o poente lunar.
[9] monetas – são pequenas velas que se abrem por baixo das velas mais baixas dos navios (ou papafigos) quando está tempo bom; as monetas não se desenrolaram, creio que por precaução.

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