sexta-feira, 10 de junho de 2011

II - Os portugueses judeus: a “Nação Portuguesa” em Amesterdão.

Estava muito longe de supor, que iria ficar francamente surpreendido com o que iria encontrar sobre os portugueses judeus sefarditas no exílio. Tinha começado por notar a sua relevância na América e em especial em Nova Iorque. 

Mercador judeu retratado por Reembrandt
Os judeus de origem portuguesa em Nova Iorque tinham principalmente 3 origens:
- Recife, em Pernambuco, Brasil, que durante parte do século XVII, tinha caído em mãos holandesas e chamava-se “New Holland”. A ocupação holandesa no Brasil, tinha trazido portugueses judeus de Amesterdão. Quando Portugal reconquistou o território, os judeus, com medo de caírem novamente sob a alçada da Inquisição, fugiram para Nova Iorque, também sob o domínio holandês, então chamada “Nova Amesterdão”.
- Londres, onde viviam famílias portuguesas vindas principalmente de Amesterdão, como foi o caso dos pais do economista David Ricardo. Com a segunda metade do século XVII, o poderio holandês decaiu e o império britânico tinha já iniciado o seu domínio hegemónico, que duraria 300 anos. Londres afirmou-se como o centro do comércio e da finança mundial, atraindo banqueiros e comerciantes.
- Amesterdão, que parecia ser o centro mais importante da diáspora sefardita portuguesa.

Por isso, a minha atenção foi orientada para a Holanda, e em particular para Amesterdão. Pesquisei , com as palavras “amsterdam” e “jews”, a Amazon. A primeira surpresa foi a de muitos livros dedicarem os seus títulos aos portugueses judeus do século XVII. Um em especial chamou-me a atenção: Hebrews of the Portuguese Nation – Conversos and Community in Early Modern Amsterdam. Verifiquei que tinha sido vencedor nacional do troféu do livro judaico em História e prémio Koret em História, nos Estados Unidos. A autora é uma historiadora americana, professora universitária, investigadora e especialista em temas judaicos, Miriam Bodian.

A leitura do livro foi uma revelação para mim. A fuga dos portugueses judeus para Amesterdão era algo de natural, visto que a cidade era um porto de comércio colonial e as autoridades toleravam os judeus, não os perseguindo, e mais importante, tinham interesse em ver estabelecidos comerciantes com vastas ligações no império colonial português. Gente capaz de trazer para Amesterdão bens como açúcar, tabaco, especiarias, diamantes, etc. A perda da independência de Portugal em 1580 e a subsequente destruição de grande parte do poder marítimo português em 1588 com a derrota da “Invencível Armada”, abria um mundo de oportunidades. Foram criadas as companhias holandesas das índias Ocidentais e das Índias Orientais. Amesterdão tornou-se no maior centro europeu das especiarias e do comércio. 

Esta comunidade de portugueses, liderada por comerciantes ricos, auto-designava-se “Nação Portuguesa”, falava o português e fazia questão de orgulho na sua nacionalidade. Principalmente após a perda da independência do seu país. Queriam continuar uma espécie de Portugal extra-territorial, com cultura portuguesa mas de religião judaica. Uma das primeiras imagens que usaram, como sua representativa, foi a da ave mítica Fénix, a imagem da ave que renasce das suas próprias cinzas - podendo também simbolizar as cinzas, as fogueiras da Inquisição ou “autos de fé” e o “renascimento”, a redujaização de uma comunidade maioritariamente perseguida e batizada à força. Nacionalidade e religião determinavam o caráter fundamental da “Nação Portuguesa”.

Existiam numerosos judeus de origem portuguesa espalhados por todos os principais portos comerciais atlânticos e mediterrânicos, de Hamburgo a Istambul, passando por Londres, Alexandria, Tunis ou Veneza, bem como nas possessões coloniais portuguesas, Brasil, Cabo Verde, Luanda, Goa, Malaca, etc. Miriam Bodian cita o Padre António Vieira quando este afirma que na linguagem popular, em muitas nações europeias, "português" confunde-se com "judeu"

A sinagoga portuguesa hoje, em Amesterdão.
Mas nenhuma comunidade de portugueses judeus foi tão importante como a “Nação Portuguesa” de Amesterdão: construíram uma imponente sinagoga portuguesa (a Esnoga, que foi a maior sinagoga do mundo), ainda existente; eram exclusivistas e elitistas, não aceitando outras nacionalidades, além da castelhana – aliás, aceitavam judeus pobres de outras proveniências, como dos países escandinavos ou da Alemanha, mas apenas para criados ou para tarefas menores, não podendo estes ser membros da “Nação Portuguesa” ou frequentar a sinagoga (pagavam-lhes muitas vezes uma quantia para tomarem um transporte, estabelecerem-se noutro lugar e não ficarem em Amesterdão); criaram a “Dotar”, Santa Companhia de Dotar Órfãs e Donzelas Pobres, uma espécie de “segurança social” da comunidade, a que muitos judeus gostariam de pertencer, mas só poucos tinham direito – apenas para exilados de origem portuguesa e castelhana, vivessem em Amesterdão ou não [ver nota final].

Não consigo sintetizar a totalidade do livro de Miriam Bodian. Durante o livro, a autora tenta compreender o porquê deste apego e orgulho “étnico” à origem portuguesa, sem conseguir, quanto a mim, encontrar a explicação final. Essa “explicação” deveria estar em território português, na vivência anterior destes judeus que não queriam deixar de se sentir portugueses, apesar das perseguições e da maléfica Inquisição. 

Novamente, fui à procura de uma resposta que não encontrava.  

Nota final:
No preambulo dos estatutos da Dotar, diz-se que a sociedade seria “uma sociedade de portugueses, e  castelhanos, estabelecida com a graça divina, para casar órfãs e donzelas pobres desta Nação Portuguesa, entre os residentes de St. Jean de Luz a Danzig, incluindo a França, a Holanda, a Inglaterra e a Alemanha”.


Ver também I - Os portugueses judeus: o juiz Benjamin Cardozo.
e ver também III- Os portugueses judeus: em solo pátrio.

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