domingo, 31 de julho de 2011

Fernando Sylvan, grande escritor timorense da língua portuguesa.

Fernando Sylvan,
no lugar que nunca deixou, Timor.
(fotomontagem)

Fernando Sylvan ou Abílio Leopoldo Motta-Ferreira, foi uma figura destacada das letras de língua portuguesa. Nasceu em Timor-Leste em 1917 e vem para Portugal com apenas seis anos. Recebeu no Brasil, onde trabalhou, a medalha Pereira Passos pela sua atuação a favor da fraternidade universal em 1965. Foi professor convidado de universidades brasileiras, francesas e portuguesas. Em Portugal, foi presidente da Sociedade de Língua Portuguesa. Tem uma vasta e diversificada obra em géneros tão distintos como poesia, dramaturgia, ensaio e prosa. Foi-lhe concedida a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Resistente timorense, não chegou a ver a sua terra independente. Faleceu em 1993.

Ler Fernando Sylvan é um prazer tranquilo. Sylvan sabe como ninguém misturar o afeto com a sabedoria, a elegância com a tradição. Não apenas enriquecedor. Obrigatório.


A Cobra de Oiro do Rei de Lequeçan

Debaixo de cada pedra há um mistério; à sombra de cada árvore esfuma-se uma lenda. Mas nada é morto, pois tudo isso é alma, é vida, é segredo. Todo o timorense é espiritualista. E essa espiritualidade exprime-se principalmente pela maneira forte e amável como cada um cultua sua mãe. E ninguém será capaz de duvidar da palavra dela.
É que não está esquecido o que aconteceu aos dois irmãos do rei de Vèmassim e aos descendentes deles, condenados a tornarem-se na plebe mais plebe dos povos de Timor. Eles tinham-se esquecido de que só a mãe garante aos filhos o nome do pai. E o nome que ela disser é lei.
Pois os dois irmãos do rei de Vèmassim duvidaram da palavra da mãe quando ela lhes disse que o pai deles era a cobra de oiro do rei de Lequeçan. E como a palavra da mãe é lei, foram amaldiçoados até ao fim de todas as gerações. Mas o outro, o que acreditou na palavra e na honra da mãe, esse, foi abençoado e feito rei.

Cobra píton dourada
O rei de Lequeçan, e que depois o foi de Ué Massim, tinha um amuleto ou lulic de maravilhoso poder e que, metido numa preciosa caixa, trazia sempre na sua companhia: era uma cobra de oiro.
Numa noite em que o luar era tão claro, tão claro que o verde das florestas convidava os cavalos e os búfalos a não adormecerem, a cobra de oiro, libertando-se do seu refúgio de sono, transformou-se em homem. E que homem! Um homem todo de pele de café, com o mar cavado nos olhos e o vento a bailar-lhe nos cabelos!
 E havia a jovem irmã do rei de Ué Massim, cansada de ser viúva do rei de Behali. E a cobra de oiro feita homem de pele de café, com o mar cavado nos olhos e o vento a bailar-lhe nos cabelos fez reviver a carne da irmã do rei de Ué Massim, cansada de ser viúva do rei de Behali.
Nasceram três gémeos. E em todo o reino se perguntava pelo nome do pai deles. E as crianças, à medida que cresciam, ouvindo no ar o coro de tantas interrogações, perguntavam também pelo nome do pai.
Passara-se os anos. Os filhos da irmã do rei de Ué Massim, viúva do rei de Behali, fizeram-se homens. E, então, a mãe deles, que em jovem se cansara de ser viúva e que depois se cansava do silêncio que a desonrava, levou os filhos diante da caixa preciosa que encerrava a cobra de oiro do rei de Lequeçan e de Ué Massim  e revelou-lhes o mistério: a cobra de oiro era o pai deles!
Dois dos filhos vaiaram a mãe e apedrejaram o cofre da cobra de oiro. O outro acreditou no mistério do seu nascimento, porque só a mãe garante aos filhos o nome do pai. E o que ela diz é lei.
Então a cobra de oiro do rei de Lequeçan transformou-se de novo em homem de pele de café, ainda com o mar cavado nos olhos e o vento a bailar-lhe nos cabelos, como naquela noite em que o luar era tão claro, tão claro que o verde das florestas convidava os cavalos e os búfalos a não adormecerem. E a divindade humanizada ditou, bela e tragicamente, o destino dos filhos: o filho que não duvidara da palavra da mãe, e que era verdadeiro timorense, fundaria um reino, o reino de Vèmassim, e viveria enaltecido pelos seus súbditos. Mas os outros filhos seriam escorraçados e fariam parte da plebe mais plebe de Timor.

Esta lenda renasce de cada vez que nasce uma criança timorense. E cresce com ela. E por isso ninguém duvida da palavra de sua mãe. Porque, se duvidar, a cobra de oiro do rei de Lequeçan, ou outra cobra qualquer, ou a consciência, surgirá humanizada a castigá-lo. 


A Saída do Paraíso

No princípio do mundo, nada crescia. Mas existiam pessoas, montanhas, árvores, animais, rios, mares, tudo. Frutos e sementes de todas as espécies. Nada nascia nem desaparecia. Não caía uma folha, não se abria um fruto, não nascia uma criança.
Nem as pessoas, vendo-se umas às outras, procuravam saber para o que existiam. Não pensavam e se elas não pensavam também não falavam.
Diz-se que o luchan apareceu pronto com todas as coisas que o mundo ainda hoje tem. O princípio das pessoas, dos animais, das plantas e das coisas apareceram prontas. No luchan também foi assim, apareceu cheiinho daquilo que precisa de existir: sunguês, sanguês, ôbô, lagaia, galinha, cão, porco, rio, fruteira, coco, ar e luz.
Pois, no princípio de tudo, o que é que acontecia no luchan? Nada, absolutamente nada. Tudo existia, mesmo as pessoas. As pessoas eram já crescidas e nunca tinham sido crianças. Nem iam envelhecer, não havia sana nem sun. Não se sabia o que era nascer. Pessoas, animais, plantas nada propriamente tinha nascido. Existiam.
As pessoas não sabiam que relação tinham umas com as outras nem quem eram, nem para o que servia tudo o que as rodeava. Nem se era bom ou não o estar assim num tempo parado. Não estavam a dormir, mas também não estavam acordadas. Porque o não sabiam.
Mas a Lua passava e continuava a passar lá longe, por cima do luchan. Passou, passou, até que as pessoas sentiram e perceberam que a lua dizia coisas e fazia sinais que nunca eram os mesmos.
Praia paradisíaca em Dili

- O que é aquilo?
Foi a primeira frase que disseram, a primeira pergunta que puderam fazer. Todas as pessoas a fizeram. Começaram, então, a ser capazes de perguntar e de responder.
Perceberam que a Lua, de cada vez que passava, era diferente. Umas vezes, mostrava caras; outra, rios, montanhas, flores, mãos, frutos, gestos. E começaram a copiar e a imaginar e a aproveitar tudo o que as rodeava e comeram os frutos e serviam-nos umas às outras. Com isso, nasceu o tempo e a vida e entenderam o movimento.
Saíam do paraíso.
As pessoas já envelheciam e, por outro lado, nasciam crianças. As sanguês e os sunguês notaram as suas diferenças e souberam que isso era bom.
Nascia o amor. 
E riam!!!!!


Bandeira de Timor Leste






Corrigenda

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que soube viver
E pelo amor que tiver para dar.

2 comentários:

  1. Foi o Sr. Dr. Fernando Sylvan meu professor de Português, em Oeiras (LAFO) nos anos 58, 59 e 60. Tive inúmeros professores em todas as matérias. De todos, apenas recordo o Dr. F. Sylvan com muita saudade, carinho e respeito.
    Fui assinante das Selecções enquanto ele foi vivo e ali prestava grande colaboração.
    Rezo por ele todos os dias

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    1. Caro Anónimo anterior,gostava que me pudesse informar sff em que número das Selecções Fernando Sylvan colaborou. Penso que se está a referir às Seleções Readers Digest, não é verdade? Tenho a colecção completa dos anos 40, 50 e 60, mas não consigo encontrar algo de autoria de F. Sylvan.
      Obrigado e cumprimentos
      Rui Fonseca

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