domingo, 3 de julho de 2011

Ricardo Jorge (1858-1939): uma lição de literatura portuguesa – I

Ricardo Jorge
Quanto mais vou conhecendo a nossa história, mais entusiasmado vou ficando alguns aspetos particulares, como é o caso da história da medicina em Portugal: sempre o nosso pequeno/grande país teve dos médicos mais notáveis a nível mundial. Um desses grandes homens terá sido Ricardo Jorge [1], que hoje dá nome ao Instituto Nacional de Saúde e cuja biografia resumida pode ser lida aqui. Além da medicina e do seu perfil humanista, Ricardo Jorge era um conhecedor de cultura portuguesa, em especial da literatura, tornando-se numa das vozes mais interessantes de ler e de ouvir sobre o tema. Tanto assim, que em 1934, é convidado para ministrar uma lição no Curso de Férias da Faculdade de Letras de Lisboa, que intitulou “O Nosso Amorismo Novelesco nos Quinhentos – Sua Influência na Literatura Universal”. A comunicação foi realizada a 7 de Agosto do mesmo ano, no Museu do Conde de Castro Guimarães, em Cascais. Não me proponho transcrevê-la na íntegra, por demasiado longa para o blogue, mas apenas aqueles trechos que mais curiosidade me suscitaram, anotados e comentados a cor azul - parêntesis retos e notas são da minha responsabilidade. 

[De como Ricardo Jorge humildemente se apresenta]

SR. PRESIDENTE, MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES.

Pois que fiaram de mim um tema de escolha a versar sobre literatura nacional e comparada, não havia senão que entrar com ele de plano e a direito, desviando o aparato usual de saudações e cerimónias. Não posso porém calar a estranheza que a mim próprio causa, quanto mais aos outros, a minha presença neste posto, e feito ainda cerra-fila de conferentes, esses sim magistrais, dignos desta grande iniciativa cultural e deste auditório seleto. Duas antinomias patentes mo deveriam vedar: uma, a destes cabelos brancos a denunciarem quão longe está a data do batismo e quanto já ultrapassei o marco da idade, além da qual a Lei retira a validade mental, infligindo a interdição do minus habentes [2]; outra, a carência de colação de título ou ofício, abonadora da capacidade idónea. Usurpações estas de personalidade e graduação, confessadas ambas pelo penitente, mas que o Diretor da Faculdade de Letras, convidador e ordenador deste empreendimento didático enjeitou in limine [3], sob sua alta responsabilidade, na qual declinei passivamente a minha. 

[De como Ricardo Jorge relaciona as literaturas nacionais]

MEUS SENHORES.

Não há, nem houve, literaturas autárquicas, no sentido que hoje se dá ao termo em matéria económica, isto é, letras que vivam de si próprias, nutridas como os filhos do pelicano, do sangue estreme bicado do seio do povo ou do país em que medram. Não existem então literaturas nacionais, como geralmente se crê, as chamáveis demo-tópicas, tão apregoadas como timbre específico da terra, do clima e da gente, à moda tainiana [4]? Dissemo-lo já, vêm a tornar-se nacionais, mas não nascem nacionais. Acertado o juízo crítico de Hennequin [5]: ”Uma literatura exprime uma nação, não porque esta a produziu, mas porque a adotou”. Por singular que pareça, à formação das literaturas cultas preside a exogenia, qualquer que seja a confluência dos fatores autóctonos.
Pode-se comparar o tráfego literário ao mercantil. Circula a obra escrita, como circula a mercancia, num intercâmbio felizmente libérrimo. Contra as maiores valias da ideação artística, inútil erguer barreiras aduaneiras e pautas proibitivas; nada mais veloz que o pensamento, diz o povo – nenhum obstáculo o detém, sobre todos salta. Importam-se e exportam-se as produções da pena e deste comércio é que se geram as correntes do gosto, a evolução contínua de géneros, modos, estilos, escolas e épocas.   

Comentário: imagino como esta opinião não tenha sido pacífica naqueles idos anos trinta do século passado, ao francesismo modista do século XIX e da Primeira República, adveio o nacionalismo extremado pela afirmação salazarista e hoje, o extremo é novamente dos estrangeirismos; em várias épocas, sempre a mesma falta de equilíbrio de influentes medíocres e embasbacados; o mérito de Ricardo Jorge, é trazer bom senso à equação.

[De como Ricardo Jorge explica a divulgação da literatura portuguesa pelo mundo]

Este Extremo Ocidental tinha e tem contra si, para a difusão da sua atividade espiritual, a situação e a língua. À ilharga dum país, como Castela, de largo território – o nosso povo diz “Portugal é um ovo, a Espanha uma peneira, a França uma eira” – Castela, que de posse ao tempo do mais forte e do mais amplo imperialismo europeu, vulgarizou nos centros estrangeiros o seu idioma e quanto nela forjaram os seus escritores famigerados – Portugal, esse falava uma língua que não deve nada a nenhuma em excelências locutivas, mas que não era facilmente acessível. Entrámos mais intimamente no convívio internacional pela fama dos nossos descobrimentos e pela porta do comércio quando pela rota da Índia nos tornámos o empório importador e distribuidor dos géneros asiáticos. A nossa judiaria [6] pela sua força social e pela preclaridade [7] intelectual serviu também grandemente, antes e depois da diáspora da expulsão, a propaganda da linguagem do país que os israelitas amaram e honraram como segunda terra de promissão. Não deixaram tantas das nossas obras de vogar no mundo, trasladadas, ora em latim, ora nas línguas vivas – desde a dos místicos como Tomé de Jesus e Heitor Pinto, as dos aventureiros como Fernão Mendes Pinto e António Galvão, as dos cronistas como João de Barros, Góis e Castanheda, até o Poema formidável de Camões que dum jato conquista a admiração cultural da Ibéria e do Mundo – hinário do esforço civilizador de Portugal ao abrir mares e continentes para a expansão das gentes, até aí constringidas no aro da velha terra.

Comentário: os descobrimentos como veículo de divulgação da língua e literatura portuguesa é um lugar-comum por todos aceite; a importância dada aos portugueses judeus, à sua capacidade intelectual, antes e depois da sua diáspora após a miserável expulsão manuelina, é para mim, a maior originalidade desta explicação; Ricardo Jorge tinha estudado a história destes portugueses, muitos deles notáveis médicos, como Amato Lusitano e Garcia de Orta.


Notas:
[1] Das outras grandes figuras da nossa medicina, do tempo de vida de Ricardo Jorge, etimologicamente “conterrâneos”, verifiquei que poderia citar os nomes de uma miríade de médicos, tantos e tão importantes são, que receio pecar por escasso. Muitos deles dão hoje nome a fundações, instituições e hospitais. Referirei apenas como exemplo, Sousa Martins, Santo do povo de Lisboa, e o Nobel Egas Moniz.
[2] minus habentes – incapazes.
[3] in limine – de início.
[4] tainiana – do historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893), que estudava a arte no contexto da “raça, meio e momento”.
[5] Hennequin – Émile Hennequin (1859-1888), que tentou teorizar a criação artística.
[6] portugueses judeus – consultar texto 1, texto 2 e texto 3, neste blogue.
[7] preclaridade – capacidade, brilhantismo.

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