segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ricardo Jorge (1858-1939): uma lição de literatura portuguesa – II


Anotações e comentários a cor azul [ou entre parêntesis reto], da responsabilidade deste blogue.

[De como Ricardo Jorge entende a importância de Os Lusíadas]
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Com o Épico, Portugal inscreve o nome e a língua nas tábuas doiradas de toda a literatura europeia dos Quinhentos. Não houve idioma que o não vertesse – testemunho universal de apreço inexcedido, mas, distinga-se, não de correspondente influência imitativa. Os Lusíadas fermentaram ativamente e até excessivamente, levedando epopeias à flux [1]; todavia este poder fecundante nem sempre benéfico, esgota-se in situ, em Portugal e Espanha. São coisas diversas, o valor intrínseco, estético, duma obra e a sua ação extrínseca, de imitação e reprodução.Desde a sua esplendorosa aparição, a Epopeia Magna tem sido até hoje sopesada, dissecada e microcopizada [2], pela crítica, e às pesquisas dos nacionais ajuntaram-se as estranhas. Esta exegese camonológica, por penetrante e positiva que seja, descai por vezes em subtilezas e até em fantasias; às lendas e invenções primeiras, outras se somaram de tal arte que, apesar de tanto feito, há muito que fazer e ainda que desfazer. Deve-se estimular este afã no culto e cultivo do grande génio poético da Lusitânia, mas – proclame-se bem alto – sem atirar ao limbo tantos dos demais portugueses que prosaram e poetaram obras insignes.

Comentário: embora se reconheça a genialidade de Os Lusíadas, a sua ampla tradução e divulgação, a sua capacidade mimética, fora do espaço das línguas portuguesa e castelhana, é limitada, na opinião de Ricardo Jorge; diz mesmo que a dimensão da obra, corre o risco de ofuscar outras grandes criações literárias de autores portugueses.

[Obras portuguesas com influência na literatura estrangeira]

Por duas vezes em cheio nos Quinhentos atuamos sobre a produção literária universal: a primeira, com as novelas de cavalaria, desde o Amadis de Gaula do Lobeira ao Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Morais; a segunda, com as novelas pastorais, a Diana de Jorge de Montemor e seus epígonos [3]. Duas estirpes de raça portuguesa que bracejaram por toda a parte e filharam fecundamente.

[As novelas de cavalaria]

Amadis de Gaula salva donzela (1860)
de Eugene Delacroix
O Amadis de Gaula exerceu fascinação de feitiço sobre os seus leitores que foram quantos soletrassem letra redonda, de todas as idades, de todas as nações e de todas as falas. Bastará dizer que até em hebraico o traduziram em Constantinopla. Sobre galvanizar dextras [4] de guerreiros, escandeceu seios de donzelas, rastilhou o fogo das paixões, soltou caudais de lágrimas como punhos – pungiu, enterneceu e deliciou. Que maior prestígio pode alcançar um livro que o de cativar a Cosmópolis [5] durante mais de um século? Êxito mundial e mundano.


Rivaliza-o no milagre o Palmeirim de Inglaterra; mais cuidado de feitio, mais vistoso de efeitos, melhor entrechado, com mais variedade e delicadeza, não admira que o Barbeiro e o Cura do Cervantes o livrassem da fogueira na casa de D. Quixote. Li-o em tempo sem enfado e conservei a memória da tenção da Miraguarda e do façanhudo Gigante do Castelo de Almourol que ainda se mira na veia do Tejo. Roberto Southey [6], visitante ilustre da nossa terra, traduziu-o ainda em inglês no princípio do século passado [século XVIII] e vi algures que uma cabeça como a de Burke [7] se entretinha com a sua leitura. Quem diria que, se me não engano e oxalá que sim, nunca mais veio a lume na sua terra desde 1852!
Tramóias de cavalarias! Era popular no meu tempo o Carlos Magno, extasiei-me em criança com as valentias de Oliveiros e Roldão e com o arreganho da Giganta Amiota, que mereceu lembrança a Garret.

[As novelas pastorais]

Quem cria o género e o eleva de chofre ao fastígio da fama e do aplauso, é Jorge de Montemor, natural de Montemor-o-Velho, familiar da Casa da Infanta D. Joana. A sua Diana, romance em prosa e verso, não se imagina hoje o entusiasmo que a acolheu e a auréola que circundou o afortunado Autor, guindado logo a engenho primaz da Península, por voto unânime de cultos e incultos. “Nenhum outro livro, diz bem Bouterwek [8], assim deu eco depois do Amadis e teve de súbito tantos imitadores como o Amadis”.
Saída à luz em 1558, dão-na à estampa quase todos os centros gráficos da Península, inclusive Lisboa. Em França, recebe três traduções, publicadas em edições repetidas; sucede o mesmo em italiano, em inglês e em alemão. A sua descendência foi múltipla e lata. O renascentista britano Philip Sidney [9], inspira-se da Diana na sua Arcádia e verte alguns dos poemetos de Montemor. Até em Shakespeare se divisam traços imitativos, por exemplo em The Two Gentlemen of Verona.

Comentário final:
Como somos ignorantes. Eu assim me senti ao ler esta lição. E como Ricardo Jorge continua a ter razão hoje, passados tantos anos; como é possível termos chegado ao século XXI, e nunca termos estudado - ou sido obrigados a ler e estudar, no ensino secundário – Amadis de Gaula, Palmeirim de Inglaterra ou Diana?

O original de Ricardo Jorge é um texto maior e mais rico – a sua totalidade encontra-se no livro, Sermões dum Leigo de 1925.

Notas:
[1] à flux – em abundância
[2] microcopizada – não encontrei o significado – poderá ter que ver com copiar?
[3] epígonos – descendentes.
[4] dextra – A mão direita.
[5] Cosmópolis – ou cosmópole, grande cidade onde pessoas de várias culturas e proveniências vivem.
[6] Robert Southey (1774–1843), poeta romântico inglês.
[7] Edmund Burke (1729–1797) politico e filósofo britânico.
[8] Friedrich Bouterwek (1766–1828), alemão, escreveu a História da Literatura Espanhola e Portuguesa, publicada entre 1805 e 1817. 
[9] Sir Philip Sidney (1554–1586) poeta inglês.

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