sábado, 23 de julho de 2011

Três poemas de Gregório de Matos (1636-1695)


Gregório de Matos 
 (com o Pelourinho de SS da Bahia)
Nascido e falecido em terras brasileiras no século XVII, a vida do luso-brasileiro Gregório de Mattos e Guerra, é a de homem crítico e rebelde. Ver biografia no excelente sítio da Academia Brasileira de Letras. Como Camões, era mulherengo – repare-se como ele elogia os dançares das mulatas – e arranjou poderosos inimigos. 
O primeiro poema que selecionei, lembra-nos “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” de Camões, o segundo, não carece comentários extras e o terceiro continua atual, pois contrariamente ao que possamos pensar, os nossos vícios são os mesmos daquele tempo, que hoje parece distante.
Por não ter papas na língua, chamaram-lhe “Boca do Inferno” [ver foto abaixo].

Ler aqui 100 poemas de Gregório de Matos.

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Soneto sobre a instabilidade das coisas no mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

                  ***

Elogio ao bailar das mulatas

Ao som de uma guitarrilha,
que tocava um colomim [ver nota final]
vi bailar na Água Brusca
as Mulatas do Brasil:
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi [ver nota final].

Não usam de castanhetas,
porque cos dedos gentis
fazem tal estropeada,
que de ouvi-las me estrugi:
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.

Atadas pelas virilhas
cuma cinta carmesim,
de ver tão grandes barrigas
lhe tremiam os quadris.
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.

Assim as saias levantam
para os pés lhes descobrir,
porque sirvam de ponteiros
à discípula aprendiz,
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.

                ***

Sátira às falsidades dos homens

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo,
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos,
Sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã ‘té à tarde:
Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:
Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:
Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido,
Com maior merecimento:
Anjo Bento!

Destes avaros mofinos
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:
Deus me guarde!

                   ***

A "Boca do Inferno" - fica em Cascais, Portugal, é uma reentrância na rocha
da costa atlântica, de águas revoltas - foi a alcunha do poeta Gregório de Matos.




















Nota final: colomim ou colomi é um indígena do Brasil; o paturi, foi uma dança popular no Brasil, na segunda metade do século XVII, antes do famoso lundu(m).

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