quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Trasgo Loiceiro: espírito mau da tradição popular portuguesa.

Selos dos CTT: Leite deVasconcelos
e Emília de Sousa Costa

Leite de Vasconcelos (1858-1941) é uma referência, dos estudos de linguística e de etnografia em Portugal e por isso fui consultar o seu livro de 1882, “Tradições Populares de Portugal” para procurar saber quem era a figura do Trasgo Loiceiro. No livro, são adiantadas várias possibilidades, consoante as fontes. Poderia ser um diabrete ou o próprio Diabo, uma pessoa ou um espírito mau caseiro, que aparece durante a noite, principalmente para sobressaltar mulheres. Leite de Vasconcelos cita uma história em que o Trasgo Loiceiro incorpora um banquinho. A história completa, fui encontrá-la num livro para crianças, “Castelos no Ar”  de Emília de Sousa Costa (1877-1959), que inclui contos e lendas populares portuguesas, publicado em 1918:

O Trasgo Loiceiro

Era uma vez certa mulher chamada Maria Rita, natural de Santa Marta, pequena aldeia nos arredores de Penafiel, uma cidadezinha muito alegre e asseada da província do Douro.
A Maria Rita tinha dois péssimos costumes: ser indiscreta, isto é, contar tudo quanto diante dela se dissesse e rogar pragas o que, em linguagem popular, quer dizer, desejar mal a alguém.
Quase sempre de humor desagradável e de génio assomadiço, proferia palavras indecentes ou grosseiras, ao mais fútil pretexto para zangar-se e, à mais ligeira contrariedade, mandava tudo e todos para o diabo.
Apenas se arreliava, fosse com quem fosse, depois de vomitar um longo rosário de indecências, rematava com: Strenoque-te para o diabo dos infernos!” – o que na sua pouco própria linguagem de fúria significava “Vai para o diabo!”
Toda a gente lhe chamava mulher insuportável e mal educada e evitava, por isso, conversar ou conviver com ela.

Ora, numa noite tempestuosa, dormia a Maria Rita muito descansada, depois de todo o santo dia ter ralhado e descomposto meio mundo, quando sentiu na cara uma tremenda bofetada.
Ilustração de Alfredo de Moraes
Strenoque-te para o diabo dos infernos!” exclamou ela furiosa, depois de uma das suas habituais ladainhas de tolices, enquanto procurava fósforos que deixara sobre a arca, para acender a candeia, espetada pelo gancho de ferro à cabeceira da cama.
Palavras não eram ditas, outra bofetada estalou na face oposta. Candeia, fósforos e Maria Rita, tudo rolou no chão, tal o atordoamento produzido pela violência da bofetada.
Começou então a gritar, com quanta força tinha, que lhe valessem. Aos seus gritos acudiram alguns vizinhos, que supondo tratar-se de ladrões, vieram armados de ancinhos, trancas, pás, espadelas, enfim, dos primeiros objetos que puderam haver à mão.
Ao saberem do que se tratava, todos desataram a rir, dizendo-lhe que tinha sido pesadelo e que se deitasse e dormisse.

Maria Rita protestava e mostrava a cara ainda avermelhada das bofetadas e queixava-se de forte dor de cabeça, quando entrou a tia Pulquéria de Jesus, velhota muito entendida em rezas e bruxarias e considerada um oráculo naquelas redondezas.
“Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!” murmurou ela ao entrar.
“Para sempre seja o Senhor Louvado!” responderam em coro os assistentes.
“Hadei (*) o que aconteceu?” inquiriu a tia Pulquéria, aconchegando do pescoço uma farta saia de franzidos com que à moda da terra, agasalhava os ombros e sentando-se placidamente na arca.
Maria Rita referiu o sucedido, entremeando os pormenores com grandes suspiros.
A tia Pulquéria, depois de pensar uns segundos, afirmou com ar convicto que não deixou dúvidas nem ao mais incrédulo dos presentes:
“Olha cachopa, andavas sempre a dar tudo ao diabo, ele com sua mão de ferro trouxe-te a paga. Eu vou benzer-te o ar ruim. Depois muda de casa, põe a língua mais curta e verás que não te acontecerá outra”.
E tirando do bolso três palhas-alhas [1], fez-lhe com elas três cruzes: da testa ao ventre, do ombro esquerdo ao direito e do direito ao esquerdo, dizendo:

“Jesus Cristo nasceu.
Jesus Cristo morreu.
Jesus Cristo ressuscitou.
E assim como é verdade,
O Senhor te tire esta dor,
Este mau olhado
De vivo, ou de morto,
Ou de excomungado.
Pelo poder de Deus
E do Senhor Santiago!”

 Depois de mais uma vez lhe recomendar que se emendasse, retirou-se seguida da assistência que presenciara a cerimónia com o maior recolhimento.
A Maria Rita lá se consolou como pôde e resolveu mudar de casa no dia seguinte, ajudada por uma vizinha. Assim fez.
Já tinha mudado tudo; só faltava um banquinho e ia buscá-lo quando, de repente, esse banquinho que ela guardava debaixo da cama e lhe servia para se sentar à lareira a fazer serão, começou a andar, a andar, sem ninguém lhe tocar.
A Maria Rita a correr atrás dele a perguntar: “Aonde vais banquinho?”
E o banquinho sempre a andar apressadamente e a responder: “Tu não te mudas? Pois também eu. Para onde fores, irei eu, porque

Eu cá sou o Trasgo Loiceiro
Da Mão de Ferro companheiro
Castigo quem é chocalheiro
Ou na linguagem é porqueiro.”

“Não que eu não te quero comigo!” replicou a Maria Rita assustada.
“Queres, queres. Que remédio tens senão querer. Tu bem vês que não me levas e eu vou”, retorquiu o banquinho muito arteiro [2].
Maria Rita não teve outro remédio senão abrir a porta da nova morada ao banquinho, mas para o não ver, fechou-o na arca.
Contudo, nunca, daí em diante, começou a repetir coisas que não devia, ou a proferir palavras grosseiras ou mal soantes, que não ouvisse uma voz esganiçada gritar-lhe:

“Eu cá sou o Trasgo Loiceiro
Da Mão de Ferro companheiro
Castigo quem é chocalheiro
Ou na linguagem é porqueiro.”

E o caso é que a Maria Rita, lembrando-se das bofetadas e do susto que sofrera, aprendeu a calar-se, e a moderar-se, tornando-se numa mulher discreta e prudente.

Bendito e louvado! Meu conto acabado!

Nota do texto original:
(*) Nas cercanias de Penafiel e entre o povo da mesma cidade, emprega-se frequentemente este termo, desconhecido dos lexicógrafos; supomos que seja corruptela de – e daí.

Notas deste blogue:
[1] Palhas-alhas – folhas secas do alho.
[2] Arteiro – manhoso ou astuto.

Comentário final:

A designação “trasgo loiceiro” ainda não está clara para mim. A palavra “trasgo” significa, de acordo com o meu melhor dicionário, “uma aparição sobrenatural, duende, travesso”. Existe o verbo “trasguear”, que significa fazer travessuras de trasgo ou traquinar. “Loiceiro” é um fabricante ou negociante de loiças, um guarda-loiças, um utensílio, formado de um tronco vertical, com galhos, para neles se pendurar a loiça da cozinha ou um tabuleiro para se colocar a loiça. Não vejo a relação entre “loiceiro” e “trasgo”: será que existiria algum negociante em loiças de mau caráter? Será que a criatura teria chifres, simbolizados pelos galhos para se pendurar a loiça? Chama-se por vezes “loiça”, a qualquer artigo de olaria ou cerâmica e também a chocalhos de animais. Enfim. Permanecerei na dúvida até que algo ou alguém, me esclareçam. Entretanto, aqui fica transcrita esta pitoresca história.

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