domingo, 2 de outubro de 2011

A Cidade dos Livros de Gentil Marques

Estou a organizar a minha querida biblioteca. Não é uma biblioteca grande nem valiosa - a não ser afetivamente, para mim - mas tem um conjunto suficiente de livros, para que, por vezes, me seja difícil encontrar o assunto ou título pretendido. Julgo que a principal razão desta dificuldade, é a sua deficiente arrumação. Terei de organizar a Ficção por Autores, separando-a entre a Língua Portuguesa e as Estrangeiras e criando grupos por género: Romance, Contos, Crónicas e Memórias, etc. A Poesia estará à parte. Depois separar o Ensaio por Assuntos: História, Economia, etc. Como nas livrarias.
Precisarei de uma estante livreira que me vai ocupar todas as paredes da sala de estar. Esta, ficará com menos espaço. Mas a sala de estar cá em casa, já é uma sala de leitura, sem televisão. A melhor disposição dos livros, sonho eu, ir-me-á permitir ter uma verdadeira Wikipédia em livro, com todos os autores e assuntos que mais aprecio e gosto de ler e reler.
Estava seguro desta intenção até encontrar uma opinião totalmente oposta, a de Gentil Marques [Gentil Esteveira Marques, 1918-1991]:

CURIOSIDADES E SEGREDOS DA CIDADE DOS LIVROS
Em “Saber Não Faz Mal, 4º Volume” (1947) de Gentil Marques

Todos nós, na grande maioria, temos uma biblioteca. Pequena ou grande. Rica ou pobre. Geral ou especializada. Essa biblioteca é a nossa cidade dos livros  - a capital do nosso mundo íntimo. E muitos de nós – a grande maioria, talvez – procura catalogar os seus livros, dar-lhes uma ordenação regular, seguir o exemplo das grandes bibliotecas de que nos fala a história – desde a tão remota de Assurbanípal, em Ninive, até, por exemplo à de Paris, que é hoje considerada a maior biblioteca do mundo [1], com os seus quatro milhões de volumes e os seus cento e vinte e três mil manuscritos e os seus milhares de estampas e medalhas...
É certo que há exceções. Existem pessoas que veem de um modo diferente a organização de uma cidade dos livros. Pessoas que não têm interesse de maior pelos catálogos, pela classificação dos volumes, pela sua arrumação em lotes de assuntos e de espécies.
Eu sou uma dessas pessoas, por exemplo. A minha pequena biblioteca – e pequena, especialmente, pelo mundo infinito que eu gostaria de conter dentro dela – parece, à primeira vista, um simples amontoado de livros de todos os tamanhos e de todos os géneros de literatura e de todas as épocas, enfileirados, lado a lado.
Lin Yutang - Foto em www.amoymagic.com 
Devo confessar desde já que não “inventei” este processo. Segui o exemplo de um espirituoso autor chinês, que me fascinou. Chama-se o autor Lin Yutang [2] e foi ele que me revelou pela primeira vez na vida a mais completa das máximas que conheço – “mostrar o pequeno no grande, mostrar o grande no pequeno, encontrar o real no irreal”. Eis uma das grandes máximas do autor de “Fou-Cheng-Lin-Chi”, mestre de Lin Yutang. Eis uma das grandes máximas da vida de sempre, pois que é hoje oportuna como nunca e foi escrita há alguns milénios de anos.
Dizem os peritos que uma boa biblioteca deve ter os seus livros classificados. Discordo pessoalmente dessa opinião. E digo pessoalmente, porque me refiro apenas à minha biblioteca – a cidade dos livros que tenho aqui mesmo à minha frente, enquanto estou a escrever. Não pretendo, de modo algum, influenciar o espírito dos leitores. Quero apenas mostrar-lhes alguns segredos e algumas curiosidades de uma “cidade dos livros”, que não segue os princípios rígidos dos peritos...
Sim, segundo penso, os livros não devem ser classificados. Faço minhas as palavras de Lin Yutang “classificá-los é uma ciência, mas não os classificar é uma arte”.
E na verdade, pensem neste simples pormenor, leitores amigos: uma das prateleiras da vossa estante está cheia de volumes de histórias, referentes por exemplo, ao III Império Francês, essa estante deixa de “existir” na vossa biblioteca. E o que acontece a tal secção, repete-se para muitas outras. E o que se passa durante uma hora – pode durar semanas e meses.
Agora, vejam o lado contrário. Vou levar-vos a um breve passeio diante de uma das estantes da minha cidade dos livros.
Ao lado de um poema de Tagore, encontra-se o volume científico “Novos Rumos da Medicina Legal”, de Afrânio Peixoto. A seguir vem “As Vinhas da Ira”, romance de John Steinbeck, “Pequena História do Mundo”, de H.G. Wells, “A Tragédia Biológica da Mulher”,  de A. W. Nemilow, “O Japão na Literatura e na Lenda”, de César dos Santos, “A Casa Perdida”, romance policial de Agatha Christie, a série “Science of Life”, de H.G. Wells, Julian Huxley e G.P. Wells, a peça “Eureka e os Fantasmas” de Eugene O’Neill, “As Melhores Poesias Brasileiras”, “Psicologia da Vida Exótica”, de Freud, “A Técnica do Cinema”, por vários autores, “A Tempestade”, romance de Ferreira de Castro, a biografia de “Einstein, o Criador de Universos”, escrita por H. Gordon Garbedian, alguns folhetos do “Reader’s Digest”,  “A Canção de Bernardette”, romance de Franz Werfel, “Habitantes de Outros Mundos”, de Flamarion, “A Bíblia”, “Sonetos”, de Antero de Quental, um dicionário português-alemão, “O Estudo da Grafologia”, por Harold Myers, “Treze Cachimbos”, contos de Elya Ethrembourg, “Os Diálogos de Platão, e assim por diante...
Ou seja, por este pequeno exemplo posso, de facto, garantir-vos que todos os recantos da minha biblioteca estão cheios sempre, para mim, de interesse e de atualidade. Nunca há perigo de me esquecer de certos livros – pois de quando em quando, ao procurar outros, eles surgem-me perante a vista.
Dirão talvez que a procura é muito morosa. Não creiam. E o pouco tempo quer se perde é sempre compensado pelas lembranças despertadas no pensamento através das lombadas que vão desfilando.
Sim, eu sou contra as estantes muito arrumadas – às vezes tão arrumadas que são mesmo a certeza de uma utilidade meramente decorativa [3].
Sim, eu prefiro a desordenação aparente das estantes da minha cidade dos livros. Aí há aventura. Cada pesquisa que eu faço – em busca de qualquer livro – é um passeio deliciosamente agradável. Tal qual como correr as ruas de uma grande cidade, à procura de uma rua qualquer.
Lá disse Lin Yutang que a biblioteca deve sempre possuir a “dissimulação das mulheres e o mistério dos grandes países”.
Mais do que isso, porém, a minha cidade dos livros espalha-se por toda a casa. Ás vezes, encontro junto da cama, no chão, um livro de versos, esquecido [4]; outras vezes, tenho diante dos olhos, na casa de jantar, um volume de história; outras vezes, ainda, perto da banheira [5] estão tombados romances policiais [6].
E como é bom – ler assim um livro, inesperadamente, um livro que nos aparece como que por milagre.
Na verdade, caros leitores, a cidade dos livros tem os seus segredos e as suas curiosidades. Mas é necessário saber desvendar esses segredos e essas curiosidades...
               
Notas da responsabilidade deste blogue:

[1] Isto seria em 1947. Hoje em dia, a maior biblioteca do mundo é a Biblioteca do Congresso em Washington, EUA.
[2] Lin Yutang (1895-1976), escritor chinês.
[3] Conheço pessoalmente muita gente com estantes assim. Mal sabem eles como os classifico em termos mentais, o que obviamente não ouso revelar-lhes. Não tenho vocação eremita.
[4] No original lê-se “esquido” e não “esquecido”. Creio tratar-se de uma gralha tipográfica.
[5] Vou ser muito claro: não tenho destes hábitos desleixados! Reprovo deixarem-se livros ao pé da banheira. O banho de imersão e a própria casa de banho com livros, é perigoso para a saúde dos livros. Gosto demasiado deles. Um jornal ou uma revista recentes, desde que não seja a “National Geographic”, então sim.  
[6] Gentil Marques era casado com Mariália, também escritora, que teria certamente a mesma paixão do marido pela leitura e pelos livros. Julgo ser esta a explicação da tão grande invasão dos livros pela casa.

Os livros tendem de facto a ocupar toda a casa, e, reproduzem-se no chão, de baixo para cima, como sabem todos os bibliófilos.

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