sábado, 8 de outubro de 2011

Maià Póçon I – O canudo de Lisboa e o regresso a S. Tomé

Maià Póçon é um livro de contos de 1937, Edições Momento. Segundo o seu autor, Viana de Almeida, “Maià Póçon, no idioma santomense, quer dizer, Maria da Cidade”. É também o nome do primeiro conto do livro.

Tive alguma dificuldade em obter o livro - só o consegui de aluguer – e informações sobre o autor, João Maria da Fonseca Viana de Almeida, santomense, que consegui apurar ser descendente dos Barões de Água-Izé. A Roça de Água-Izé é uma das mais importantes de São Tomé (para saber informações sobre a Roça de Água-Izé clique aqui, e veja o trabalho efetuado pelos alunos da professora Marta Gomes no Liceu Nacional de S. Tomé e Príncipe).
Livro biográfico sobre o 1º Barão de Água-Izé e o seu
retrato. Foto da Roça Simalô na Ilha do Príncipe.
Ver Nota Final.

O 1º Barão de Água-Izé tinha introduzido na sua Roça Simalô – e, em consequência disso, naquela zona de África, no início do sec. XIX – a cultura do cacau, trazido do Brasil. . Viana de Almeida era bisneto do 1º Barão, e colaborou com o jornal alfacinha O Século.

Maià Póçon não é um livro de contos vulgar, porque nele não se respira a ficção, mas a autenticidade. Viana de Almeida tem a capacidade de nos transportar sempre para a vida real, sejam momentos tristes e dramáticos, sejam momentos de alegria e felicidade. Dir-se-ia que presenciou aquelas situações, e que o livro de contos é uma reportagem de acontecimentos vividos. Parece que o autor apenas utiliza a fórmula do livro de contos, para nos trazer ao conhecimento uma realidade que conhece muito bem, senão mesmo, de forma "autobiográfica".
Um excelente exemplo da escrita de Viana de Almeida, é logo no início do livro, a descrição que faz sobre a vida de um recém-licenciado santomense, em Lisboa. Nesses tempos, eram muito poucos os cidadãos, mesmo os vivendo em Portugal, que teriam possibilidades de concluir o ensino superior. Certamente menos de 0,5% da população. A percentagem de 1% só seria atingida durante os anos 70 do século passado – e encontra-se hoje ainda, abaixo de 8%, segundo a PORDATA. Por isso, naquela primeira metade do sec. XX, em Portugal, a sensação de acabar uma licenciatura, deveria ser algo de muito raro e especial.

RECÉM-LICENCIADO SANTOMENSE EM LISBOA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Maià Póçon” de Viana de Almeida, 1937.

Saí – eu, Valentim de Sousa Dantas [1], natural da ilha de S. Tomé – não há muitos meses da Escola Médica de Lisboa [2], formado, segundo me dizem, na arte de tratar as mil e uma enfermidades que afligem o corpo e a imaginação dos meus semelhantes. Eis-me, pois, médico, com a minha carta metida num canudo de folhas conforme velhos usos que encontrei consagrados pela tradição de dezenas de gerações e que eu, embora tocado de algum fermento revolucionário, respeito e sigo reverentemente.
A verdade é que este canudo, de aspeto tão banal, que já me acostumei a ver como um objeto familiar pousado sobre a mesa de pinho envernizado do meu quarto de pensão, me inspira um sentimento complexo de respeito, de alegria e, ao mesmo tempo, de receio.
Efetivamente, dentro encerra, como um ente adormecido, que pode ser benfazejo ou maléfico, segundo os casos, o diploma que recebi da secretaria da Universidade de Lisboa e cujo primeiro contacto nas minhas mãos me deu a sensação de apalpar, corporizado, o objetivo das minhas ambições, acarinhado durante anos de trabalho e de fadiga.
Como não experimentar alegria com a posse de um documento, que é a prova tangível de que, finalmente, me libertei dos receios e angústias que pontualmente me esperavam no fim de cada ano letivo, como dragões mitológicos defendendo o acesso aos diferentes andares de uma torre, cuja escalada se faz com mortais dificuldades? Porque, podem crer, nunca fui um estudante mau de todo e as minhas classificações atestam que muita vez cheguei a fazer figura distinta nos exames. Mas, confesso-lhes também – e isso com íntima  humilhação – jamais pude abordar um júri sem uma impressão singular de ventre que subitamente se esvaziou e de nó que me aperta a garganta, produzindo uma espécie de soluço angustioso. Dramático e cómico não acham?
Pensem, além disso, que esta caixa de folha contém, como tesouro precioso, a justificação do tratamento com que, atualmente, me distinguem. Ah! Ainda não perdeu a sua força dominadora esta voluptuosidade que se apodera de mim, quando oiço ou vejo o  meu nome precedido do título de “doutor” em cumprimentos que recebo na rua ou nos envelopes das cartas que me mandam. Volúpia igual devia experimentar, em tempos que já lá vão, o traficante enriquecido, que se via guindado, de um momento para outro, de plebeu a fidalgo.
Mas também não consigo escapar a um sobressalto secreto nos momentos de contemplação beatífica de tal caixa. Já, quando ainda estudante, eu era encarregado do tratamento de algum doente – e é preciso notar que este tratamento era feito sob os olhares vigilantes do professor ou de um assistente – me preocupou, a ponto de me tirar algumas horas de sono, a ideia de depender de mim a sentença de vida ou de morte pesando sobre a cabeça de um doente. Que vida será a minha, quando, em vez de um infeliz, eu tiver a responsabilidade da existência de uma clientela numerosa? Mas uma conversação com um colega já batido na vida dissipou-me parte das minhas dúvidas.
Garantiu-me este médico, que goza da estima e gratidão dos seus clientes, que eu, como novato, atravessava uma fase natural, mas passageira. Aconselhou-me a não ser orgulhoso e a considerar, como elemento preponderante no êxito ou no fracasso dos meus tratamentos, a fatalidade.
Sobre cada enfermo pesa um destino certo e cego: não será a competência do facultativo [3] a sua salvação, nem um erro de diagnóstico – natural em todo aquele que estuda as doenças caprichosas – motivo do seu despacho para um mundo melhor. Agora, o essencial é manter a distância necessária entre nós e os acontecimentos. Sem ela, a maior sumidade não passará de um asno chapado.
Depois de formado tive de resolver o problema do rumo que havia de dar à vida. Não basta triunfar do último exame da escola: alcançado o diploma é necessário saber servirmo-nos dele e procurar o sítio em que o seu emprego nos poderá proporcionar maior rendimento. No decurso dos meus estudos, sorriu-me sempre o projeto de me estabelecer e fazer clínica em Lisboa. Aplicar-me-ia e, bafejado por fortuna e boa sorte, conquistaria fama, atrás da qual viriam rendosos honorários, ganhos à custa de ciência e de trabalho. Residiria nas Avenidas Novas com qualquer lisboetazinha de corpo nervoso e alma ingénua que quisesse associar o seu destino ao meu, dando por compensada a minha cor escura com a categoria de doutor de fama. Esta arvéola [4] poder-se-ia encontrar: depois que me formei, algumas moradoras do meu bairro passaritam à minha roda, ansiosas por adivinhar os meus desejos.
Seria uma vida deliciosa, mas tive de abandonar o projeto. Tenho de acreditar que, ou o clima de Lisboa afugenta as doenças ou que existem nesta cidade tantos médicos, que não sobra mais espaço para os recém-chegados, famintos de casos de estrondo e de riqueza.
Até agora, só pude tratar um companheiro de pensão, a quem por decoro nada pedi, e uma vaga senhora idosa das minhas relações, atacada de histerismo.
Uma carta da minha madrasta, junta à minha impaciência, fez-me enveredar para novos caminhos. Meu pai morreu há três anos, deixando-me algumas propriedades em S. Tomé, e à sua mulher legal a sra. D. Eugénia Dantas. Enquanto eu tirava o meu curso, a sra. D. Eugénia encarregou-se da administração das terreolas, mas a pobre senhora, idosa e cheia de achaques, encontra-se muito cansada e sente um receio salutar de administradores gananciosos. Escreveu-me então, aconselhando-me a ir assumir a gerência dos nossos modestos haveres. Com trabalho e persistência poderia aumentar as minhas posses, e nada me impediria de consagrar-me ao exercício da minha profissão, que havia roças que estavam precisando de médicos.
O alvitre pareceu-me sensato e resolvi pô-lo em prática. Disse adeus à vida de Lisboa, à graça das suas mulheres, resolvi adiar por alguns anos a conquista de um suave coração, já fiz as minhas malas e aqui estou pronto a partir no primeiro paquete da Companhia Nacional de Navegação. Não foi sem custo que me resignei a este projeto, mas tomada a resolução, senti-me invadir por uma onda de recordações de infância que me impelem para a terra natal e, a esta hora, sinto-me impaciente de pisar o solo santomense.
   
Notas da responsabilidade deste blogue:
[1] Acredito ser o próprio autor com um nome diferente.
[2] Creio que a velha Escola Médica era ainda no Campo Santana, estando ligada ao Hospital de Santa Marta. Nos anos 50 foi transferida para Santa Maria, onde é hoje a Faculdade de Medicina de Lisboa.
[3] Facultativo – Médico, indivíduo que exerce legalmente a medicina.
[4] Arvéola – Nome de pássaro.

Nota Final:
A paternidade da figura tem diferentes origens, consoante as imagens.
- O livro de Amândio César, encontra-se no sítio da Livraria Candelabro.
- A imagem do 1º Barão de Água-Izé estava em “Saber tropical”, sítio excelente do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), num artigo onde se procura determinar a origem da introdução da cultura do cacau em África.
- A imagem da Roça Simalô (ou Simaló, como escreve Amândio César) encontra-se no interessante blogue Stparquitecturarte, em blogspot, da autoria de Neco Bragança.
A todos, o meu reconhecimento.


 Ver ainda Maià Póçon II e Maià Póçon III

2 comentários:

  1. Os meus parabéns pelos excelentes textos no seu blogue - E nomeadamente as referências a S. Tomé e Príncipe - a minha segunda pátria - Conto hoje publicar, no meu site, Odisseias nos Mares, um texto acerca da verbe poeta do Barão de Água Izé - O livro, a que se refere, é, sem dúvida, uma obra muito interessante de Amândio César, que eu tive o prazer de conhecer em S. Tomé - Pena que, no seu ensaio, que dedicou a estas ilhas, ele tivesse optado por citar o texto de outro autor.

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  2. Caro Jorge Trabulo Marques,
    Agradeço o seu comentário elogioso e muito obrigado por me ter alertado para o seu http://www.odisseiasnosmares.com/ que está muito bom e faz algo importantíssimo: a divulgação de São Tomé Príncipe.

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