sábado, 15 de outubro de 2011

Maià Póçon II – O ódio de raças

Sem título de Manuel Ceita
em www.artafrica.info 
No livro de contos “Maià Poçon” de 1937, Viana de Ameida continua a história, que desconfiamos ser em boa medida autobiográfica, de um estudante santomense que acabado o seu curso em Lisboa, volta a casa (ver Maià Póçon I – O canudo de Lisboa e o regresso a S. Tomé), num período – segundo quartel do sec. XX – em que aquele país, era ainda colónia portuguesa.
Num dos contos do livro, “Ódio de Raças”, utiliza-se a personagem de um vivido médico santomense, Augusto de Almeida, que durante uma conversa de café com um amigo, conta a sua atribulada experiência após retorno à terra natal. Embora seja um “conto de ficção”, são citados nomes conhecidos de São Tomé, como Demóstenes de Almeida ou Jorge Neto, referências reais, como que a indicar-nos que a história é mais próxima da realidade que da ficção.

Escrever sobre o racismo em São Tomé num ambiente editorial de censura oficial, não deve ter sido tarefa fácil para Viana de Almeida. A ditadura salazarista estava pujante nos anos 30. É o único texto que conhecemos desta época a tratar diretamente o tema do racismo e da prepotência dos colonos sobre os africanos, nas colónias portuguesas. Mas com arte e habilidade, o escritor deixa-nos este relato.

RACISMO E CONFLITOS ENTRE COLONOS E NATIVOS
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Ódio de raças” de Viana de Almeida, 1937.

[Diz o médico santomense Augusto de Ameida sobre a sua experiência em São Tomé, após concluir os estudos em Lisboa]

A minha geração estudava e pandegava, mas, tanto nas horas de trabalho como de boémia, os meus camaradas nunca fizeram distinções de cores.
Terminados os estudos, pensei logo em tratar da vida, instalando-me como clínico na nossa terra. Nesse tempo, muitas roças importantes tinham mudado de dono, passando das mãos de patrícios nossos para as de potentados europeus, que ainda hoje são seus possuidores. Ao mesmo tempo, um grupo de rapazes santomenses, briosos e ardendo em desejos de se educarem e defenderem os interesses dos nativos, formavam agremiações com caráter recreativo e cultural. Encomendaram-se livros, organizaram-se pequenas bibliotecas, os mais cultos encarregavam-se de orientar os que desejavam trabalhar, ensaiavam-se os que mostravam alguma vocação para o teatro, enfim, esboçava-se na terra um movimento para a elevação mental e social do negro que despertava entusiasmo.
Parece-me que este entusiasmo só poderia ser simpático, mas o certo é que ele não foi bem visto por certos elementos dos colonos europeus. Tiveram a argúcia de descobrir nele não sei que intuitos revolucionários e libertadores, tomaram-no como um desafio insolente à supremacia que, na opinião deles, o branco deve exercer sobre o preto, qualquer que seja o meio em que se encontrem. Deste estado de espírito resultaram provocações, e já algumas questões se tinham travado quando desembarquei em São Tomé. Você sabe de que maneira lá na terra recebem os patrícios que voltam da Metrópole, com evidente cultura e requintada ilustração. Eu cheguei acompanhado de outros rapazes, como Demóstenes de Almeida, José Sequeira, Jorge Neto, André Batista, Adalberto Aguiar, e outros que se tinham formado em direito, engenharia, etc. Trataram-nos como heróis e, muito naturalmente, sem que déssemos por isso, achávamo-nos dirigindo o movimento cultural de que eu lhe falei.

Sem título de Armindo Machado
em www.artafrica.info
Você compreende que, muito naturalmente também, a maior força dos ódios recaiu sobre as nossas cabeças. Os nossos contendores não nos pouparam insultos, barafustaram e chegaram a reclamar que fosse proibida a admissão de negros ás Universidades. Entre eles destacava-se um homem muito conhecido em São Tomé pelo nome de Bruno Vinagre. Você com certeza que o conheceu. Era um homem de estatura regular, atarracado, sanguíneo, de punhos grossos. Tinha ido para lá numa condição muito humilde, mas trabalhara, fizera-se negociante de importância. Era o tipo do homem inculto, impulsivo, que se deixa arrastar e dominar irresistivelmente por certas ideias que lhe são transmitidas por qualquer forma. Entre estas, estava a do desprezo pelo negro. Pelos seus atos, dir-se-ia que o ódio de raça era um sentimento que lançava raízes até ao fundo da sua alma. No entanto, chegou a época de se fazerem as eleições para deputado. Tomava-se unanimemente entre os santomenses, a resolução de fazer deputado um filho da terra, e a escolha recaíra sobre mim. Não sei dizer-lhe a quantos estratagemas recorreram aqueles que nos combatiam, com o fim de impedir os eleitores de votarem nas diferentes localidades e a marcha regular das operações. Subornaram, ameaçaram, chegaram a destruir estradas que conduziam às vilas onde se votava. Houve, como não podia deixar de ser, tumultos e a luta chegou a um tal grau  de acuidade, que as nossas instalações foram assaltadas e destruídas. E como os homens não sossegavam, o governador tomou a resolução de me afastar por algum tempo da Colónia. Estive em Angola por alguns meses e regressei de novo à minha vida. Os ânimos tinham serenado e eu empreguei todos os esforços por trabalhar nobremente sem suscitar ao de leve novos conflitos.
Uma noite, seriam umas três horas da madrugada, dormia a sono solto, foram acordar-me, dizendo-me que um dos meus colegas brancos me chamava com urgência. Abotoei à pressa o pijama e fui dar com o Dr. Eduardo Salgueiro com o qual eu mantivera sempre relações cordiais. O que há, o que não há, ele expôs-me o que se tratava.
Antes de continuar, devo dizer-lhe, meu caro amigo, que dentro da minha profissão há um ramo ao qual me tenho dedicado com uma certa felicidade: é o da obstetrícia. Posso mesmo dizer-lhe, desculpe-me a ufania que, entre as dezenas de casos difíceis encontrados na minha carreira, só me recordo de um que fosse fatal.
Mas, voltando agora ao Salgueiro. Vejo-o com cara de enfiado e ele diz-me:
- Meu caro Augusto, antes de qualquer outra coisa, deixe-me declarar-lhe que venho recorrer não só à sua reconhecida competência de clínico, como também à sua generosidade de homem. Eu sei perfeitamente que você tem graves motivos de queixa de Bruno Vinagre. Pois bem: a mulher dele está neste momento para dar à luz uma criança, mas está em perigo de vida. Somos vários médicos reunidos em torno dela, mas nenhum de nós possui a sua especialização e estamos todos de acordo em que se há algum recurso que possa salvar a infeliz senhora, esse está em suas mãos.
E, continuando, ele disse-me que tinham tido um trabalhão para convencer o Bruno a chamar-me e que o homem, desesperado, chorava, dizendo que, apelar para o meu auxílio, seria uma vergonha para ele, dado o estado das nossas relações.
E o Salgueiro, fitando-me muito nos olhos, disse-me:
- Mas eu tenho confiança em si, meu caro Augusto. Você não se recusa, não é verdade?
Eu respondi simplesmente:
- Sem dúvida. Aliás, não faço mais que o meu dever.
Vesti-me e partimos. Em casa do Bruno abriram-nos a porta, atravessámos uma sala de visitas, onde, na pressa com que íamos, distingui, entre vários vultos, o nosso homem profundamente abatido e que não ousou avançar para me cumprimentar. Introduziram-nos no quarto da enferma. Vejo a desordem do aposento alumiado por um candeeiro de petróleo, o rosto pálido como cera, os olhos desvairados da mulher. Deixei falar um momento os meus colegas, depois pedi-lhes que me deixassem apenas acompanhado do enfermeiro. Assim, sentia-me mais à vontade, e eles obedeceram ao meu desejo. Era, efetivamente um caso desesperado. Quando no quarto se extinguiu o tumulto de tanta gente que o ocupava, procurei tranquilizar a doente e inspirar-lhe coragem. Depois, com estas grandes mãos que você aqui vê, trabalhei o ventre que tanto sofria e, daí a pouco, um grito lancinante ecoava pela casa. Um silêncio... depois cortado pelo vagir de um recém-nascido.
Ia-me voltar e dirigir-me para a porta, mas ela abriu-se com ímpeto e, antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, senti as pernas presas pelo Bruno Vinagre que, de bruços, bradava alucinado:
- Perdão! Perdão!
Levantei-o e abraçámo-nos.
Desde então, somos os melhores amigos deste mundo. Rompeu-se o véu da ilusão criada por doutrinas inumanas, e o homem que exigia uma separação absoluta entre as duas raças, é hoje um defensor convicto dos negros.

O racismo é a forma de pensar mais estúpida e irracional que uma pessoa que se julgue civilizada, pode ter. Esteve presente em matanças e genocídios e nas piores guerras civis e internacionais, como foi o caso da Segunda Guerra Mundial. O racismo não está assim tão longe de nós como gostaríamos de pensar. É um inimigo poderoso. Ainda em 2007, um anúncio da Amnistia Internacional na televisão portuguesa, contra o racismo dirigido aos imigrantes, fazia lembrar este conto de Viana de Almeida e usava também a figura de um médico negro:

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