domingo, 30 de outubro de 2011

Maià Póçon III – Domingo na roça

Foto antiga da formatura, na roça de Água-Izé. Ver nota [7]
São Tomé e Príncipe é a vegetação luxuriante, as praias equatoriais e o turismo, as roças, o cacau, e principalmente, a sua gente. Mas, quando falamos na cultura do país – para quem não é santomense – a ignorância, é quase total. Vem-nos apenas à memória nomes como os de Viana da Mota e de Almada Negreiros, mais ligados à cultura europeia que à africana. Não conhecemos os seus escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, etc. Apesar disso, encontrar o livro Maià Póçon do santomense Viana de Almeida, de 1937, não é apenas um mero exercício de curiosidade literária, é o conhecimento que ele nos dá de todo um povo, nos idos anos 30 do século XX. Nestas poucas linhas do conto que aqui transcrevo, Viana de Almeida, condensa aspetos da vida de um trabalho forçado, a música e a dança, a tristeza e a alegria.

Na minha modesta opinião de leitor, Maià Póçon é uma rara pequena-grande jóia da literatura de língua portuguesa do século passado. Um livro não se mede aos palmos. Pela realidade que cuidadosamente descreve, pelas temáticas que discute, pelo estilo elegante e principalmente, inteligente. Se nos dias que correm, os contos de Maià Póçon parecem estar esquecidos ou menorizados, nos tempos que estão para vir, creio, as novas gerações descobrirão o seu real interesse. Único.

TRABALHO E DANÇA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Domingo na roça” de Viana de Almeida, 1937.

(...) A multidão dos trabalhadores, homens, mulheres e crianças, irrompe das portas das senzalas [1] e, ainda ultimando os preparativos, alinha-se numa formatura impecável de batalhão treinado em manobras militares. Os capatazes que hão de dirigir os diversos grupos, já estão a postos. O Administrador da roça observa da varanda da sua casa e o Feitor Geral passa revista minuciosa, dando a este e àquele uma ordem seca e breve. Ao cabo, perfila-se e comanda: larga!
Ordenadamente a formatura desfaz-se e compõe-se vários grupos que se dispersam pelos centros de trabalho. Mas a tarefa, ao domingo, não é fatigante. Para uma minoria consiste em dar o último toque a qualquer ocupação que, no dia anterior, tivesse ficado em suspenso. Os demais vão cortar capim que ficará amontoado num celeiro para pasto do gado durante o dia.
Ora, sabem que cortar capim é obra que a ninguém assusta: pelo contrário, faz-se agradavelmente. Em primeiro lugar, a tarefa chega ao final em pouco tempo. Ao meio dia, soa a hora de largar o trabalho. Este assim, realiza-se todo de manhã, pela frescura das primeiras horas do dia. O sol não castiga a pele, fazendo correr pelas costas regos de suor. Na atmosfera lavada corre uma aragem que sussurra no alto ervaçal. E depois não se sentem os olhos dos capatazes cravados nos que mourejam, em vigilância constante.
Há possibilidade de trocar dois dedos de paleio para amenizar, chalacear com certa rapariga ao pé e de cantar uma melopeia monótona, mas que ajuda a suportar o cansaço. Desta forma, chega o momento de regressar à Sede. De grandes molhos de capim sobre a cabeça, aí voltam eles em alegre tropeada [2] sob a direção, por um dia, negligente dos capatazes.

Há uma nova formatura no terreiro. Quando o Feitor Geral terminada a revista, dá ordem de largar, de todos os peitos sai um grito estrepitoso de júbilo. Deixam a formatura em balbúrdia de palavras e exclamações e, como um rebanho tumultuante, dirigem-se para as senzalas.
Hora alegre! Hora pela qual começa uma tarde de descanso bem ganho, de festa, de lambança [3]! Hora única na semana, para a gozar, deitam-se para trás das costas todos os cuidados!
Primeiro que tudo, trata-se da paparoca. Toca a pôr as panelas ao lume e a preparar a farinha da mandioca fina, a malagueta cáustica e estimulante e o peixe seco que há de dar molho de fazer cantar a língua nos dentes. Tudo isto há de servir para a confeção do “funje” [4] que, ao domingo é o prato de todos aqueles que verdadeiramente se prezam.
Daí a pouco, espalha-se no ar o cheiro do azeite de palma frito e, quando se põe o almoço na mesa feita de esteira, então, senhores, é que é ouvir as risadas de alargar o peito, os gritos estrídulos [5] das mulheres, as palmadas que ressoam nas coxas.
Quando a fome já se encontra satisfeita, cada um pode fazer o que lhe der na cachimónia. Se há quem tenha amigos ou namorada nas outras Dependências da roça e quer cumprir os seus deveres de etiqueta, é livre de se pôr a caminho e de lhes levar o gosto da sua presença e da sua conversa. Outros ao invés, fazem as honras da casa e recebem visitantes que vêm de longe. Há novidades a ouvir e impressões a trocar sobre a forma como as coisas correm.
É bom que se deixe abrandar o ardor da canícula, antes de sair para o terreiro, para começar o batuque. Á hora em que o sol começa a descer para o mar, é que um homem pode conhecer bem o que é a embriaguês das músicas, dos tambores, dos chocalhos, da dança. Mas já se começam a ouvir os primeiros repiques, ensaiados por dedos nervosos sobre a pele de cabra. Até o sangue parece que lateja mais forte nas veias. O que será então quando a “puíta” começar com os seus borbotões surdos!
Quando chega o momento, esperado com tanta impaciência, já o coração pula, os músculos estão contraídos esperando a ocasião de se distenderem, os artelhos não sabem como se hão de conter por mais tempo, todo o corpo estremece em vibrações reprimidas.

Puíta. Ver nota [6]
Dispõe-se numa roda ampla, em que se alternam homens e mulheres. Aqueles têm o tronco modelado pelas camisolas. Sob os panos de riscado e blusas das mulheres, pressentem-se linhas com o garbo característico dos corpos de ginastas. No contorno interior da roda, dispõem-se, de espaço a espaço, os rufadores de tambor. O que vai tocar “puíta”[6] coloca-se entre eles também. É uma espécie de tambor de pele furada ao centro em cujo orifício se mete um pau com um êmbolo na extremidade. Do outro lado coloca-se a mão esquerda, acende-se uma fogueirazinha que se deve manter viva. Coloca-se sobre ela, a uma certa altura, a “puíta”, o calor dilata a pele e, quando o tocador agita o êmbolo num movimento de vaivém, extrai do instrumento um som entrecortado e rouco.
É de tarde, e tudo no terreiro está em imobilidade que dir-se-ia expectante. Em torno, são linhas convulsas de montanhas cobertas até o perder de vista pela sombria massa de frondes majestosas. Do lado do poente, o planalto em que o terreiro está situado, vai descendo, mansamente, em socalcos de brando relevo, alarga-se depois em planície fecunda que se arrasta até se confundir com o mar.
Mas, na calma sonora, os tambores ressoam e a “puíta” começa a fazer ouvir as suas variações rítmicas. Um improvisador coloca-se ao centro e canta, numa melopeia cadenciada pelos tambores, palavras que a inspiração do momento lhe trouxe. Toda a roda acompanha o ritmo batendo as palmas e, em coro, repete a cantilena e os versos do poeta.
Os tambores rufam mais ansiosos e a “puíta” parece que a cada instante vai ganhando mais febre. Um dançarino frenético pula para dentro do círculo, baila que baila e aproxima-se numa reverência de uma mulher da sua escolha. Recua para se aproximar de novo. A assistência canta, batendo sempre as palmas. Depois, o bailarino, num implulso, chega-se ao pé da negra com os braços levantados e, ao grito de homem, os dois corpos chocam-se em contacto ligeiro de ventre com ventre. É o convite para a dança. Ela sai e o par renova, dentro da cadência imutável da “puíta”, dos chocalhos e dos tambores, as reverências e multiplicam, segundo a sua ciência, os passos consagrados do batuque.
Separando-se, a mulher toca com o ventre um homem; o seu par faz o mesmo a outra negra. O novo par envolve-se na dança e, de tempos a tempos, há nova improvisação feita por outro poeta.

Uma tarde, enquanto se dançava, passou, como raras vezes acontece, um vapor muito próximo da terra. O entusiasmo cedeu lugar, por um instante, à curiosidade e o batuque teve um curto intervalo.
Ia para o Sul, o vapor. Ia para Angola, a terra de onde quase todos os que ali estavam haviam sido transportados e que nunca mais tinham voltado a ver. Uma saudade confusa passou no ar. Mas nisto os repiques chamaram novamente. Então, da roda saiu um velho. Tinha a pele engelhada, curtida por sóis e misérias e os músculos como cordas que perderam a elasticidade. A carapinha era toda branca, uma barbicha rala orlava-lhe o queixo. Era o Cambanza, um dos grandes animadores das festas, improvisador sempre com chalaças e alusões galhofeiras.
Pôs-se no centro, voltou-se para o lado do mar e cantou na sua voz quebrada:
- “Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas. Diz à nossa gente que ainda não morremos. Trabalhamos sob o sol e sob a chuva. Queremos partir, mas não podemos. Vapor, vapor, tu segues e nós ficamos... A nossa dor não tem fim.”
Quando acabou, os soluços tinham-lhe embargado a voz. Em roda, a paisagem era de uma quieta serenidade e o ritmo da “puíta” tinha-se feito caricioso e dulcíssimo, como a voz de uma alma que não pode clamar e chora baixinho... A mesma onda de emoção dominou os festeiros e a multidão, chorando, cantou:
“Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas...
Depois os pares dançaram um momento em silêncio. Mas num grito prolongado, Cambanza anunciou que era chegado o intervalo para o repouso.
Quando a roda se recompôs, a vaga de emoção tinha passado e os tambores, a “puíta”, os apitos e os chocalhos, incansavelmente repicaram até que a noite, serena, caiu sobre a terra.

Após esta leitura, fui procurar a música de São Tomé e Príncipe na net. Fui ter ao sítio dos videos da National Geographic e, ao fazer a pesquisa “são tome”, encontrei um documentário curto sobre os elementos do conjunto Grupo Tempo. Depois no YouTube, deparei com esta maravilha,  em http://www.youtube.com/watch?v=3GgZ08IvqpA:

video

Notas da responsabilidade do blogue:

[1] senzalas –  originalmente, as senzalas eram habitações muito pobres, destinadas aos escravos; o nome manteve-se para os trabalhadores das roças.
[2] tropeada – de tropel, barulho com os pés.
[3] lambança – muita conversa.
[4] funje – creio tratar-se de uma papa de farinha de mandioca.
[5] estrídulos – estridentes.
[6] puíta – no texto original “puita” sem acento agudo. A foto pode ser encontrada em http://eportuguese.blogspot.com/2011/09/instrumentos-musicais.html
[7] Formatura na roça de Água-Izé, ver foto em postais antigos de São Tomé no sítio http://stomepatrimonio.blogspot.com/2007/12/roa-gua-iz.html


Nota importante:

Porque estamos a falar de São Tomé e Príncipe, o meu muito obrigado a João Carlos Silva, aos seus programas, à sua exemplar comunicabilidade e sobretudo, às suas receitas, principalmente as doces, sempre com muito amor. Talvez por esses tachos na roça, quem sabe, a minha primeira curiosidade pelo Maià Póçon.

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