domingo, 6 de novembro de 2011

Curiosidades na Internet à volta da palavra “Moura”

Passeei por esta internet e consultei uma plêiade de sítios, com histórias, sobre pessoas, localidades, sobre os mais diversos temas, tudo a propósito da palavra “moura”. Aquilo que encontrei é o assunto deste artigo.

a)      MOURA – ORIGEM DA PALAVRA

Não descobri a origem da palavra “moura”, feminino de “mouro”. Aponta-se a palavra grega “mavros” (μαύρος), que significa “negro” ou, do latim, a palavra “maurus”, habitante do noroeste de África, província romana da Mauritânia. Esta última talvez seja a mais provável.

Mapa do Império Romano em 125 dC na Wikipedia. Ver as províncias
romanas designadas "Mauretania", nos actuais países Marrocos e Argélia..





















b)      MOURA – ENCANTADA

Uma das reminiscências da estadia dos mouros em Portugal são as histórias que se contam das lendas das mouras (ou moiras) encantadas, de que já se falou neste blogue em Crenças Populares II.
Muitas destas narrativas são histórias de amor ou estão ligados a certos lugares específicos, de norte a sul do nosso país. Por exemplo, em Trás-os-Montes, Alexandre José Parafita Correia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD, fez um extenso estudo e levantamento, que está na Net em ficheiro PDF. Do trabalho por ele apresentado, extraí um desses contos:

A moura do Castelejo

Na aldeia de Pombal de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, num monte sobranceiro ao rio Tua, e junto às águas termais de S. Lourenço, há um conjunto de fragas muito bem alinhadas a que o povo chama Castelejo. O povo diz também que em noites de lua cheia ali se ouve o bater de um tear e, às vezes, o choro triste de uma moura encantada. Há quem tenha conhecido na aldeia um pastor que, ao passar ali numa certa noite, viu a moura a pentear os seus longos e belos cabelos. Cheio de curiosidade, e porque lhe parecia uma mulher muito bonita, aproximou-se para meter conversa com ela. Só que nessa altura pôde vê-la melhor, e descobriu que ela apenas era mulher da cintura para cima. Daí para baixo era uma cobra.
"era tão bela como nenhuma outra mulher"
O pastor arrepiou-se todo e deu então três passos atrás, pronto para fugir. Mas ela chamou-o, dizendo:
– Não tenhas medo da minha triste sina. Estou neste estado, mas sou uma mulher bela. E se tens dúvidas, vem cá na noite de S. João, e ver-me-ás, tal como sou, a banhar-me nestas águas.
Diz-se que o pastor lá foi nessa noite, e que a viu a tomar banho nas águas de S. Lourenço. E que era tão bela como nenhuma outra mulher. Também se diz que, durante muito tempo, era costume as moças da aldeia, nas noites de S. João, irem banhar-se nessas águas, na crença de que ficariam belas e sedutoras.

Fonte – versão A: TEIXEIRA, Flora – "O Castelejo", in O Pombal, Carrazeda de Ansiães, Associação Rec. E Cultural de Pombal de Ansiães, Setembro de 1997. Fonte – B: Inf.: Maria da Conceição Félix Fonseca, 43 anos; rec.: Zedes, Carrazeda de Ansiães, 2000.


c)       MOURA – LOCALIDADE

Brasão de Moura, Alentejo.
A cidade alentejana de Moura deve o seu nome, diz-se, a uma história sobre mouras. Trata-se da conhecida Lenda da Moura Salúquia, que se atirou por desgosto da torre do castelo, quando as tropas cristãs conquistaram a cidade no tempo de Afonso Henriques. Esse acontecimento, está inscrito no brasão da cidade.

Há uma outra pequena cidade chamada Moura, mas que fica nos antípodas do Alentejo. Trata-se de Moura, em Queensland, na Austrália. Curiosamente, foi um britânico, Charles Marshall, que atribuiu o nome ao local, situado numa zona interior do nordeste australiano, em 1854. Marshall tinha servido no exército inglês durante as guerras peninsulares, e talvez estivesse com saudades da Moura alentejana, onde tinha estado, ou de alguma moura encantada...
A Moura de Queensland foi muito citada no final de 2010, início de 2011, quando terríveis cheias inundaram três quartos do enorme estado de Queensland. Em Moura, estabeleceu-se um dos mais importantes centros de evacuação e apoio às populações.

d)      MOURA – APELIDO

Máquina inventada por Bento
de Moura Portugal, publicada
no Philosophical Transactions,
Royal Society, Londres, em 1752. 

Há muita gente ilustríssima com o nome Moura: o escritor Vasco Graça Moura, o cavaleiro tauromáquico João Moura, o candidato presidencial Defensor Moura, a jornalista Manuela Moura Guedes, o professor/cantor José Barata Moura, a fadista Ana Moura, o arquiteto Souto Moura - que recentemente ganhou o prémio Pritzker, etc. Depois, há os apelidos Mouro, Mourão, Mourona, Mourinho e Mourinha. Lembro-me sempre daquele nosso notável professor de economia que foi Francisco Pereira de Moura. Recordo a sua figura e as suas Lições de Economia, que todos nós, estudantes de economia, tínhamos de ler.

Mas gostaria de referir especificamente duas figuras históricas: Bento de Moura Portugal (1702-1776), o grande físico português do século XVIII, protegido de D. João V e que acabou por falecer nas cadeias  Pombalinas e o brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928), inventor da transmissão sem fios, um dos pais da rádio. Sobre Bento de Moura Portugal, sugiro a consulta ao blogue de Carlos Fiolhais e outros, Rerum Natura, e sobre Landell de Moura, o artigo do sítio A Minha Rádio.

 e)      MOURA – CONCLUSÃO

Uma palavra apenas, chega para revelar a nossa gigantesca ignorância e a nossa ainda maior curiosidade. Resta-nos a fraca consolação de que nunca poderemos saber tudo, mas apenas uma pequeníssima parte de todo o conhecimento acumulado. “Maturidade” e “Sabedoria” são, de certa forma, mitos. Obrigatoriamente, morremos todos ignorantes e infantis. O nosso corpo é frágil e transitório demais, para carregar as potencialidades de conhecimento de um cérebro humano a funcionar em pleno a longo prazo. Um dia, acredito, conseguiremos resolver este problema relativo.

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