sábado, 19 de novembro de 2011

Quadras Populares: poesia do povo.

As quadras dos Santos Populares, de Amor, dos poetas Fernando Pessoa e António Aleixo, são as minhas preferidas. Depois, claro, temos muitos cantares com quadras, incluindo o Fado. Deixo por isso, um pequeno extrato de um fado muito conhecido.

SANTOS POPULARES
  
Santo António, Santo António
Ó meu Santo milagreiro
Arranja uma moça bonita
Para um rapaz solteiro.

Se São Pedro me ajudar,
Solteirinha é que eu não fico!
Pois por certo hei de arranjar
Quem regue o meu manjerico!

Meu querido São João
És um Santo popular
Traz teu arco e teu balão
Vem com o povo dançar!


"Santos Populares" de
Célia Freitas e Miguel Gomes














AMOR

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.

Costumei  tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que, de tanto confundi-los,
Nem já sei quais são os meus.

Ó meu amor, se te fores,
Leva-me, podendo ser,
Que eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.
















ALEIXO

Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão 
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são,
Maiores querem parecer. 

Para não fazeres ofensas 
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
















PESSOA

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu ...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Saudades, só os Portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranquilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!
















CANTIGAS

Se eu pudesse contar
Num poema o meu passado,
Com a Guitarra a trinar,
Minha vida dava um Fado.

O padre da minha aldeia,
No sermão do mês passado,
Jurou p’la saúde dos filhos
Que nunca tinha pecado!

Aqui vai um cheirinho de uma canção interpretada por Frei Hermano da Câmara, da qual apenas pretendi exemplificar a parte do cantar da quadra. Quem quiser ter a música completa, deverá comprar o disco. Será uma belíssima prenda de Natal.

Toma lá colchetes d'oiro,
Aperta o teu coletinho,
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho.

video 

6 comentários:

  1. ~ESTAS QUADRAS SÃO MUITO BONITAS

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  2. No Brasil as quadras são chamadas trovas:

    Maria, só por maldade,
    deixou-me a casa vazia...
    - Dentro da casa, saudade,
    e, na saudade... Maria!

    Infância é um brinquedo usado
    que um dia a vida resolve
    tomar um pouco emprestado
    e nunca mais nos devolve!

    Meu lenço, na despedida,
    tu não viste em movimento:
    - Lenço molhado, querida,
    não pode agitar-se ao vento!

    A vida, às vezes, resume
    contrastes deste teor:
    Só se morre de ciúmes
    quando se vive de amor.

    Saudade, lembrança triste
    de tudo que já não sou...
    Passado que tanto insiste
    em fingir que não passou...

    Ante as sandálias furadas
    que entre cascalhos gastei,
    não culpo o chão das estradas,
    culpo os maus passos que dei!

    Eu suplico: “Volte breve”,
    num bilhete... e na verdade,
    a esperança é quem escreve
    e quem assina é a saudade!...

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  3. Caro amigo Carlos
    Obrigado pelo esclarecimento e muito obrigado pelas trovas que aqui nos mostra. Prefiro a primeira, a quarta e a sexta.
    Abraço

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  4. AI VAI UM;TRIM TRIM MEU SO RVETE QUEROLIM MINHA MAE MANDOU A ESCOLA PARA APRENDER O BEABA MAS COMO EU ERA INTELIGENTE SO QUERIA NAMORAR NAMOREI UM GAROTI NHO DA ESCOLA MILITAR MAS O DANADO DO GAROTO SO QUERIA ME BEIJAR

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  5. O poema do saudoso António Aleixo encerra uma mensagem de vida que se todos interiorizássemos e aplicássemos no nosso viver quotidiano, certamente, que este mundo em que vivemos seria bem mais bonito! Tenho pena de não termos esse talento.

    Ps. Gosto muito de poesia e partilho da opinião de Natália Correia quando dizia: " Oh analfabetos de espírito, a poesia é para se comer.
    Ana Paula Silva Carvalho

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    1. Cara Ana Paula,

      Muito obrigado pelo seu comentário.

      O Aleixo é certeiro. Vivemos sempre com o coração na boca. "Descobri" recentemente o Leal Conselheiro, escrito por Dom Duarte no século quinze, onde ele se queixa da nossa falta de sizo.

      A boa poesia mistura lógica e sentimento, ritmo e beleza e parece por vezes conseguir transportar a palavra escrita para um patamar fantástico, quase metafísico. Por isso é fascinante.

      Cumprimentos

      Ricardo Esteves

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