domingo, 18 de dezembro de 2011

Votos para 2012? Que seja o ano da economia.

Intermitentemente, neste blogue, onde se gosta mais de escrever sobre livros, também se fala de economia. E a esse respeito, 2011 foi um ano muito importante para Portugal. Que me desculpem a franqueza e o estilo, mas vou ser direto sobre o tema, sem paninhos quentes:

- O país sentiu-se enganado, não apenas por um político e um partido, mas por toda uma legião de políticos, diria mesmo, por todo o funcionamento do sistema político saído do 25 de Abril, onde durante muitos anos em cada eleição, vencia quem prometia mais benesses ao povo, caídas do céu. Vencia quem era mais demagogo, bem parecido e bem falante. Depois, iam irresponsavelmente pedir empréstimos ao estrangeiro. Por três vezes já, após 1974, tivemos de chamar o FMI para evitar a bancarrota. Sem essas intervenções, é muito provável que a democracia não sobrevivesse sem percalços bem maiores.

- Nas eleições de Junho de 2011, a maioria dos votantes decidiu apoiar partidos de direita, que apresentavam um programa liberal e cujo principal desígnio era o de pôr em ordem as contas do país. Pela primeira vez em muitos anos, os políticos que ganharam não prometeram o céu e a terra. Falaram em dificuldades e em cumprir um plano de austeridade assinado pelo PS, pelo CDS e pelo PSD, com a União Europeia e o FMI, como forma de ultrapassar as dificuldades financeiras.  

Desejo que 2012  seja novamente um ano muito importante para Portugal:

1)    Que sejam cumpridos os acordos assinados, e sejam obtidos os resultados esperados, para que não nos falte o dinheirinho, que tanta falta nos faz, e possamos, tão rápido quanto possível, saltar fora deste constrangimento para todos, que é o programa de austeridade.

2)    Que para além da austeridade, 2012 seja o ano da economia, o ano em que descobrimos o rumo que queremos traçar, e unimos esforços para o seguir. É uma caminhada que teremos de percorrer. Só assim se poderá garantir a manutenção de um “Estado Social”, com serviços estatais de educação e de saúde, subsídios públicos de reforma e de desemprego.

3)    Que nada de mau aconteça ao Euro e aos nossos parceiros europeus, porque precisamos deles com moeda e economia estável. Se eles estiverem mal, seremos arrastados. Este é um cenário que ninguém de bom senso desejará. Portugal beneficiará, como beneficia e já muito beneficiou desde 1986, ano de entrada na então CEE, com uma Europa forte, unida e solidária.

Compreensivelmente, em 2011, as nossas atenções estiveram sobretudo viradas para a austeridade e para os problemas financeiros. Dos comentadores económicos portugueses, poucos tentaram sequer, abordar o tema da economia. Aos especialistas que comentam, não basta dizer que o governo precisa ter uma estratégia económica, é preciso também lançar e discutir ideias, sugestões, propostas, projetos.

O último “Negócios da Semana” da SIC Notícias, transmitido na passada quinta-feira, dia 14-12-2011, deu  um bom pontapé de saída para se discutir o tema da Economia Portuguesa em 2012. O programa é da responsabilidade de José Gomes Ferreira, que tem demonstrado ser um excelente jornalista económico e nesta semana teve dois convidados de luxo: a de José Eduardo Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa, um conhecedor do universo empresarial, e a de José Ferreira Machado, diretor daquela que é hoje, a melhor faculdade de economia  em Portugal, a Faculdade de Economia da Universidade Nova. Os temas levantados ao longo do programa, são certamente um bom começo para discutirmos as questões económicas em 2012. Escolhi um pequeno excerto:

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Parece lógico o conceito do Professor José Ferreira Machado sobre crescimento económico sustentável: temos de contar em primeiro lugar com as nossas próprias forças e vantagens competitivas. A miragem do investimento estrangeiro nos vir salvar, não é mais do que isso, apesar dos projetos de investimento estrangeiro serem bem-vindos e úteis a Portugal. Mas chegam tão facilmente, como se vão. A economia tem de ser recuperada pelas pequenas e médias empresas em articulação com as vantagens competitivas locais e nacionais. 
Tenho dúvidas sobre a ideia de criar em Sines, um porto gigante tipo Roterdão: uma vantagem de Roterdão é estar perto dos maiores mercados europeus, Alemanha e França. Sines, não só está longe dos mercados do centro da Europa, como também o transporte das suas mercadorias dependerá sempre da boa vontade de Espanha, de que não acredito, pois é potencialmente o nosso principal concorrente. Além disso, necessitará provavelmente de muitas centenas de milhões de euros, aplicados pelo estado. Os “investimentos produtivos” estatais, transformam-se demasiadas vezes em despesas gigantescas e improdutivas. Elefantes brancos pagos por todos nós, sem qualquer benefício. Admito estar enganado, e gostaria de ver debatido o tema mais detalhadamente, para formar uma opinião melhor fundamentada.

Diz Aquilino Ribeiro em “Aldeia - Terra, Gente e Bichos ”, creio que de 1946 (tenho a edição Bertrand de 1964), a propósito dos portugueses: “este português, filho da má sorte ou da felícia, não sabemos – que tem vivido sempre de ilusões, a Índia, o Brasil, as mouras, os tesouros enterrados no tempo dos franceses, o volfrâmio, confiado em tutelas, nem sempre eficientes, Santa Bárbara, S. Jerónimo, o brasileiro, o deputado, o senhor administrador – pouco faz para que tenha o seu poço cheio de água e a fonte da sua terra sempre a deitar com abundância e limpeza.”

A nossa última ilusão foi o Euro. Pensámos que podíamos viver com dívidas ilimitadas.

A dívida incontrolada não é coisa pouca: origina golpes de estado e ditaduras. O hitlerismo só foi possível como consequência dos desmandos da república de Weimar, o leninismo da corrupção do czarismo e Salazar, da anarquia em que caiu o regime saído do 5 de Outubro. Só não temos hoje em Portugal a hiperinflação e a desvalorização, irmãos da dívida que acompanharam aqueles regimes, porque perdemos a autonomia monetária, mesmo antes do Euro, e a Europa recusa imprimir (e oferecer-nos) as notas que tanto ambicionamos. Mas temos a estagnação económica, e pior que tudo, o desemprego, especialmente o de longa duração e o dos jovens.

Não sei se serve de consolação dizê-lo, mas não estivemos sós. Pessoalmente, não é consolação ter de integrar o meu país entre os mais mal governados da Europa nos últimos 15-20 anos.  Viver em democracia, não nos exime do trabalho, do estudo e da disciplina, da organização e da seriedade, pelo contrário, esses são valores estruturantes básicos para uma vivência social saudável. Valores que se devem assimilar desde criança. Espero, que de uma vez por todas, tenhamos enterrado o discurso das facilidades e aprendido a desconfiar dos fala-baratos. O vigarista é sempre muito simpático.

Desde há demasiado tempo na nossa terra, que existe muito por mudar e por fazer. Precisamos que 2012, seja a altura de começar a construir um país melhor. Para nós e os nossos. Estamos cá para isso. Senão, o que é que andamos todos aqui a fazer?

Bom Natal, saúde para todos e votos de Feliz Ano Novo de 2012!


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