sábado, 7 de janeiro de 2012

Vitorino Nemésio I: poeta.

"Se bem me lembro"
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (nascido a 19-12-1901 em Praia da Vitória na ilha Terceira, falecido a 20-02-1978 em Lisboa), publicou o seu primeiro livro de poemas muito jovem, em 1916. No ano seguinte publicaria o seu segundo livro e em 1920, dois novos livros. Até 1924, altura em que lança “Paço do Milhafre”, um livro de contos, todos os seus livros são de poesia. Os poemas revelam o homem, que se autodefiniu na sua última lição na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1971, como um professor que “parecia não preparar as lições”:

“(...) realmente era raro trazer um plano de aula articulado ponto a ponto. Respeitava apenas o que se pode chamar as leis do campo de interesses — o título do curso e o assunto — procurando manter um mínimo de nexo didático. Isto me criou fama de professor interessante e persuasivo mas pouco fiel aos padrões. Sofri com o «mas» sabendo-o exato. Mas a vocação era essa, e ou me salvava resgatando a deficiência metodológica com certo poder socrático de acordar o nosce te ipsum fornecendo-lhe contudo, de caminho, algumas noções aferidas, ou teria de concluir por um desacerto de carreira imputável à escola que me selecionara e sobretudo a mim mesmo.(...)”.

Eram assim também as suas conversas televisivas, no programa “Se bem me lembro”. Imagino por isso, cada um dos poemas de Nemésio como uma viagem com destino, mas através dum caminho que só ele conhece e sabe conduzir. 


IDEAL

Voa, meu coração, mui brandamente,
Aos páramos da Luz e da Poesia!
É lá que hás de estar bem. Só lá se sente,
Lá se canta e se habita na Elegia!

Voa, meu coração, co’o Sol poente,
Vai no eco suave da Harmonia!
Sobe... sobe... e verás mui de repente
Aquilo que sonhaste em certo dia.

Voa, meu coração, que o Céu é belo,
Que só lá há o Prazer e a Ventura,
Voa, meu coração, pobre e doente,

Que, depois, satisfeito o teu anelo,
Hás de dizer-me assim da branca Altura:
Oh!... Deixa-me aqui estar eternamente!


BICHO HARMONIOSO

Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes
E as raparigas que os leem quando eles já são tão leves
Que passam a tarde numa estrela,
A força do calor na bica de uma fonte
E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.

Assim, gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstratos, mas vivos;
Rarefeitos, mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às ervas grossas da chuva
E indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!

Ser a vida e não ter já vida ― era um destino

Depois, dar a minha Mãe a glória de me ter tido;
A meu Pai, vendado de terra, um halo da minha luz; e tocar tudo,
Onde eu houvesse estado, de uma sagração natural; ―
Não digo como as Virgens Aparecidas,
Que tornam imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como certo orvalho de que me lembro, em pequeno ―
Para lá da janela a luz cortada por chuva,
E uma prima que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao fundo.

Tudo isto, e vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma mão de mulher pronta a fingir de asa aberta;
E preguiça,
Impressão de morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir, vogado, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor forrado de desgosto,
Como as estrelas encobertas,
Que, depois de girar a nuvem, mostram como estão altas:
Tudo isto seria aquele poeta que não sou,
Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.

Mas não. Do canto necessário
Para me diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a soltar senão uma vaga nota,
E a noite faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No meu buraco vil de bicho harmonioso.

Deixarei, estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem fremente dos meus dedos, num pouco de terra
Estranho fóssil!


SEM TÍTULO

O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.

Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave!
Ter as mágoas pequenas.


DESENGANO

Já não estou para rosas! Gastei tudo.
Queimem o dia até ao fim!
Só sinto gosto no que mudo
E, se restar, é para mim.

Lá onde nem saudades,
Longe, sem mais desejos,
Errante e casto nas cidades,
Morto sem beijos.

E frio como o aço,
Forte de mão e úmero,
Íntimo no que faço,
Inteiro como um número.

Que a terra que nos come
Cria duro.
Nenhuma estrela dome
O que germina no escuro.

E lá, gastada em si, que seja a vida,
Sem flores nem passos sequer,
Coisa neutra, dividida
Fora de homem e mulher.

Assim se faça. E aumente
No mar a força do mar.

Que grande vela de repente!
O que eu gostei de navegar!

1 comentário:

  1. A poesia é uma arte maravilhosa que nos faz transportar a um mundo de sonho, é única.

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