domingo, 15 de janeiro de 2012

Vitorino Nemésio II: açoriano.

Vitorino Nemésio e os Açores
Embora vivendo no continente, as suas referências aos Açores são múltiplas e permanentes. É difícil recordar a obra e o autor, sem o identificarmos como açoriano, e como tentando definir as características exclusivas e diferenciadoras do ilhéu, da apologética do açorianismo. É desta forma que ele define o arquipélago em “Corsário das Ilhas” de 1956:

Os Açores são humanamente mais novos que a Madeira cerca de um quarto de século. Em vez de uma grande ilha pletórica que reduz Porto Santo a uma relíquia, como acontece ao grupo insular madeirense, pontuado pelas Desertas, dos Açores já se disse que são como um porta-aviões de seiscentos quilómetros, tantos quantos separam Santa Maria do Corvo. Embora a maior população e as maiores riquezas económicas e paisagísticas se concentrem na ilha de São Miguel, todas as outras ilhas conservam a sua originalidade e o seu poder, e o arquipélago desenvolve-se como uma teia de três malhas — os três grupos ou pequenas constelações de ilhas próximas — , omitido um dos quais, ou uma das mais ínfimas unidades (Santa Maria ou o Corvo, a Graciosa ou as Flores) se arrisca a harmonia do conjunto.
No extremo sudeste a pequena plataforma escalvada de Santa Maria vibra de motores de aviões: no extremo noroeste o Corvo persiste no seu velho sono sem história. Numa ponta do mapa, São Miguel com a sua velha civilização concentrada e progressiva: na outra, as Flores com o seu viver patriarcal e vaqueiro, não isento das visitas inopinadas dos cómodos que a emigração para a América provoca. No coração do sistema a Terceira couraça-se ainda como um velho reduto histórico, ressoante de combates e cheio de relíquias gloriosas: não longe, São Jorge refecha-se numa existência arcaizada de teares e de pascigos [pastagens]. A Graciosa conserva os seus vinhedos e a sua furna como que à margem do mundo: o Faial antepara a muralha vulcânica do Pico com um porto-canal e uma cidadezinha, a Horta, que alia a um viver semi-rural uma nota cosmopolita.
Os seiscentos quilómetros do porta-aviões açoriano referenciam-se a voo por nove manchas vulcânicas: a mais próxima da Europa a mil e quatrocentos quilómetros, a menos longe da América a três mil e seiscentos.

Outra curiosidade é a definição que faz do ambiente açoriano, por exemplo no epílogo de “Mau Tempo no Canal”, de 1944, romance hoje considerado um clássico da literatura portuguesa e a obra-prima de Vitorino Nemésio:

Um céu de algodão sujo tolda o arquipélago das nove ilhas; o «mormaço» apaga os contornos do mar e da terra, e, amolecendo os pastos à custa da pele do proprietário e do pastor, dilui e arrasta as vontades, dá a homens e a coisas uma doença quase de alma, a que os ingleses, médicos do bem-estar, puseram uma etiqueta como quem descobre uma planta nova neste mundo seco e velho: azorean torpor.

Só consigo comparar esta sensação, com a indolência provocada pelo calor, atribuída aos povos do sul. Mas o clima é aqui totalmente diferente, nada calmo. Baixa amplitude térmica, próxima dos 20 graus, com muito mais humidade, chuva e nuvens que no continente português, terramotos, vulcões, furacões, e sempre ao longe o grande mar. Diz Nemésio neste soneto:


AZOREAN TORPOR

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.

A cidade? Esqueci... Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais — talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde...

E um desconsolo, um não-partir paira nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.

E no entanto, nada me faria pensar como lisboeta, que o açoriano se possa sentir desta maneira na sua terra. Talvez porque sempre tive a sorte, desde os tempos da faculdade, de privar com açorianos cultos e cosmopolitas, ativos e criativos. Mesmo na política portuguesa nacional os açorianos se distinguiram, bastando citar os nomes de Melo Antunes, Mota Amaral, Jaime Gama, Medeiros Ferreira e mais antigos, como Teófilo Braga e Hintze Ribeiro, mas também intelectuais como Antero de Quental ou Natália Correia e músicos como José Medeiros.

Nemésio não está para os Açores exatamente como Torga, por exemplo, para Trás-os-Montes. O que é comum a estas duas notáveis figuras, é o valor da obra escrita que nos deixaram e o apego à terra de origem, mas em tudo o mais eram diferentes. Torga nunca abandonou a imagem do provinciano de origens humildes e simples, da figura solitária e de alguma forma desconfiada e isolada. Ajudava a defini-lo como uma figura de princípios e de caráter, do “antes quebrar que torcer” serrano. Nemésio era um intelectual extrovertido que conviveu sempre com as grandes figuras da cultura do seu tempo. Era professor, gostava de falar pelos cotovelos, gostava de generalizar e teorizar, e gostava que o ouvissem. Nemésio inventa o conceito de “açorianidade”.

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