sábado, 28 de janeiro de 2012

Vitorino Nemésio III: prosa e vida.


Figura da capa do romance "Mau Tempo no Canal".

Nemésio foi igualmente um importante romancista e contista. Destaca-se em especial, “Mau Tempo no Canal”, com a história daquela extraordinária personagem, “Margarida”, que parece ter existido na vida real do autor, embora com outro nome, como descobriu David Mourão Ferreira. Mas apesar do enorme fascínio que este romance é capaz de exercer sobre nós, é sobretudo noutras narrativas, talvez mais pitorescas, que encontro Vitorino Nemésio tal como o imagino: simultaneamente observador e divertido, como nesta passagem de “O Mistério do Paço do Milhafre”:

Quando o Abílio foi para o Brasil, a mãe dele fez-lhe medas e medas de camisas e de ceroulas. Lembro-me disso muito bem. Éramos uns poucos: o Abílio, eu, o Fausto, o Hemetério, o Francisco da Segunda, o Tiàzé. Mas estes dois não iam jantar nem passar tardes connosco, de bibes embrulhados ou pela mão dum criado, como o Chinchinho. Cheiravam a peixe e, quando o ranho era muito, limpavam-no à manga do casaco e engoliam o resto, fungando.
O Francisco da Segunda era miúdo e vivo como azougue; o Abílio pacato e pesado. O Hemetério tinha um corpo de galgo e pegava-se um pouco na voz; o Fausto estava acima de todos na escola e era pitosga. Quem o queria bravo era meter-lhe um calhau na algibeira ou puxar-lhe disfarçadamente pelas abas da jaca, quando estava a estudar. As duas coisas ao mesmo tempo, comandadas pelo Francisco da Segunda (que para isso piscava o olho), punham-no fora de si. Tornava-se muito vermelho, baixava a cabeça e investia. Então fugíamos todos; e enquanto o Segunda, leve como um macaco, o ia capeando, ouvia-se em coro o apupo selvagem:
– Fausteca doida! Fausteca doida!

O Abílio evitava tomar parte nestas montarias, bonacho e gordo. Só pensava nas marcas do jogo e num irmãozinho de cinco anos que tinha em casa e nascera fora de tempo: o Pirrilha. Sendo preciso, o Abílio corria cem metros dum fôlego e nem o Segunda lhe pegava: apertava muito os beiços, e, de rabona a dar, a dar, estalava a patada na meta que até se acabava o mundo! Mas, se corria muito, ficava a suar. Sentava-se nos degraus da escola e precisava de minutos para se lhe não ouvir o fôlego. Depois, limpava as bagadas do suor e ficava para ali um fraquezas, que o próprio Tiàzé lhe chegava o cuspo ao nariz sem perigo de chapada no focinho.
Tínhamos inventado havia pouco essa maneira suprema de levantar a luva. A mínima pega de palavras — uma aposta, um pião contestado — o mais forte ou afoito fazia peito:
– É mintira? É mintira?! Toca-me no nariz!

Além dos Açores e do mar, Nemésio era também um amante de serras e de moinhos: foi presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos, e era proprietário de três moinhos no concelho de Penacova, em Portela de Oliveira. Daí, a Câmara Municipal de Penacova, após a dádiva pelos herdeiros de Nemésio de um dos seus moinhos ao Município, ter criado o Museu do Moínho Vitorino Nemésio. Essas viagens a Penacova talvez fossem devidas à amizade entre Nemésio e Manuel da Silva Gaio, seu professor de Coimbra, que fazem lembrar os apontamentos de Tomás Ribeiro sobre António Silva Gaio (pai de Manuel da Silva Gaio), na introdução de “Mário”. Imagino-os em passeios no Buçaco, e a banhos na Curia ou em Buarcos.

A propósito de serras, escreve Nemésio sobre a Arrábida, em “Ondas Médias”:

A Arrábida não é deste mundo. Depois dos cabreiros, é dos ermitas e dos poetas. Todos nós nos lembramos do austero Herculano das seletas, quando, entre lágrimas como punhos, filhas da nossa má sintaxe, nos obrigavam a entoar aquele «salvé, ó vale do sul, saudoso e belo!», o vale de A Arrábida. Ouvia-se latir o lebréu, e a brisa inclinar os topos do zimbro nos versos rijos de Herculano. As vezes a mão do sr. Professor enrijava a nossa a outro ritmo... Mas eram bons tempos. Havia vagar, havia estilo...

Na prosa, na poesia, como professor, enquanto estudioso, personagem da televisão, molinologista ou regionalista, Nemésio marcou todos os caminhos que percorreu.

2 comentários:

  1. Olá Esteves! Sou de Manaus AM. Para mim foi um grande achado na internet o seu blog. Agradeço-lhe pela riquesa de deste seu trabalho. Tem aqui muita coisa para ler, mas vou devargazinho. É muito legal para mim apreciar a cultura da lingua portuguesa desse outro ponto de vista, aí em Portugal.

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  2. Caro Cláudio Frota,

    Muito obrigado pelo seu comentário.

    Saudações fraternas

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