segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Alberto d’Oliveira I - Postais antigos.

Leda e o Cisne, escola de Leonardo da 
Vinci. Zeus, disfarçado de Cisne, seduz Leda.
Os filhos varões foram Castor e Pólux.
O meu primeiro contacto com a escrita de Alberto d’Oliveira (1873-1940), nascido e falecido no Porto [não o confundir com o grande poeta do parnasianismo brasileiro, Alberto de Oliveira], foi através do livro Pombos Correios de 1913. É um conjunto de crónicas publicadas no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro durante o ano de 1912. Alberto d'Oliveira, conjuntamente com Agostinho de Campos, alternava a autoria destas crónicas. Os dois usavam o pseudónimo Castor e Pólux [nome dos filhos gémeos de Leda - da mitologia grega - e das duas estrelas mais brilhantes da constelação de Gémeos]. Esta colaboração despertou a minha curiosidade, visto que Agostinho de Campos tinha sido uma figura importante das letras portuguesas do século XX e foi alvo da atenção deste blogue por mais de uma vez.

Não fiquei dececionado pela leitura, pelo contrário, li as crónicas de Pombos Correios num ápice. Nesta era de internet [ver Nota final], emails, Skype e SMS - ou Short Message Service dos telemóveis, um texto em especial de Pombos Correios gostaria de destacar. É sobre os postais ilustrados e a importância da sua utilização no início do século XX.

Bilhetes postais ilustrados

Mal sabia decerto o genial anónimo a quem devemos a invenção moderna dos bilhetes postais ilustrados, a que ponto a sua iniciativa era benemérita, além de tão lucrativa. O post card está sendo com efeito um apreciável instrumento de educação social, um mestre diligente de história, geografia e arte, com o mundo inteiro por discípulo. Graças a esse ubíquo retângulo de cartão, até o mais boçal habitante da mais escondida aldeia pode aprender o nome e contemplar a imagem das cidades, das paisagens, dos monumentos mais belos do seu ou dos alheios países. Uma coleção de bilhetes postais, ora é uma viagem, ora um museu, ora um livro. Considere-se a impossibilidade absoluta, em que até há pouco tempo ainda, se encontravam três quartas partes da humanidade, de ter uma ideia plástica do mundo em que habitam, e veja-se agora com que facilidade uma criança de dez anos fala, por os ter visto reproduzidos, num quadro de Murillo ou de Rubens, na baía do Rio de Janeiro ou na de Constantinopla, nas geleiras da Suíça ou nas lagunas de Veneza.  Nomes, descrições e datas teriam rapidamente murchado na sua memória volúvel e não lhe deixariam senão impressões vagas ou abstratas. Uma gravura impressiona com outra eficácia os seus olhos sensíveis. Deveriam mesmo organizar-se nas escolas primárias, como livros de consulta ou como prémios, séries completas e coordenadas de bilhetes-postais, dando a respeito de cada país, ao lado do facto, do lugar ou da obra, um curto comentário explicando-as e situando-as no espaço ou no tempo. Ponham a empresa nas mãos de artistas e vê-la-ão desentranhar- se em benefícios para a direção e vulgarização do bom gosto público. Ruskin [nota deste blogue: John Ruskin foi talvez o mais importante e influente crítico de arte e crítico social britânico da segunda metade do século XIX; fundador do então inovador projeto, Guilda de São Jorge], por intermédio dos tecidos chamados Liberty, deu a toda a Inglaterra uma lição fecunda de desenho e de arte. Pelo bilhete-postal é igualmente possível ensinar um povo, não só a mobilar o seu espírito, como a sua casa.
John Ruskin (1819-1900). Quadro 
de John Everett Millais.

Veja-se ainda a boa influência do bilhete-postal no estreitamento das relações sociais. Pouca gente aprecia ou sabe escrever cartas. E só amizades muito sólidas resistem á ação lenta mas contínua da ausência e do silêncio. A vida vive-se cada vez mais depressa e o egoísmo é o melhor carvão de cada máquina. Os corações vão ficando pequeninos, pequeninos... Para a mentalidade geral uma carta é uma tarefa árida. E para a gente bem-criada um bilhete postal, da forma antiga, era incivil entre particulares, por ser uma confissão tácita de falta de assunto, da mesma maneira que a cortesia manda encher até á ultima linha as quatro páginas de uma carta, como meio amável de sugerir ao nosso correspondente que foi pouco todo o papel para o muito que tínhamos de agradável a dizer-lhe.
Surge porém o post card ilustrado e eis cortados todos estes pequenos nós górdios. Escrever a um amigo ou a um conhecido torna-se um prazer barato e fácil. Basta escolher uma vista risonha do sítio em que nos encontramos e pôr-lhe ao lado, no milímetro de cartão disponível, quatro palavras rápidas de cumprimento ou de afeto. A natureza mais rebelde á prosa, a pena que mais fastidiosamente gaguejasse diante da folha branca e muda de uma carta, logo achará inspiração e espírito, quando para a primeira se lhe proporciona uma linda estampa e para o segundo apenas se lhe reclamam duas linhas. O distante amigo, cuja imagem começava a ser antipática, desde que a ela se ligava a ideia de uma resposta a dar ou o remorso de não a ter dado! A pena com que agora te escrevemos já nos não pesa na mão. O sentimento que nos inspiras é mais vivo e não o enfraquece a menor sombra de enfado.

Assim o movimento do correio aumentou por toda a parte em proporções inesperadas, desde que os bilhetes postais lhe deram este impulso. Meio mundo, antes calado e a caminho de indiferente, dá noticias em permanência a outro meio. Cruzam-se no ar, em rede cada vez mais espessa, os bons-dias, as boas-festas, os abraços, os beijos, as saudades. Parece que isto vale pouco, mas na Natureza nada se perde e a eletricidade afetiva desenvolvida por este aquecimento das relações humanas é uma riqueza nova e uma força nova de que a concórdia, a paz e a solidariedade universais virão a ser seguras usufrutuárias.

Foi por causa deste artigo que fui revisitar os cartões postais antigos de família. É um exercício de recordação e saudade pelos entes queridos desaparecidos, mas também de algum voyeurismo, principalmente quando revemos os textos de pessoas que nunca chegámos a conhecer. Os postais antigos revelam ainda imagens de um tempo passado, de uma atitude, vivência e estética, hoje desaparecidas. Selecionei alguns:




Nota final: 
Os CTT estão com uma iniciativa interessante, aliando as ferramentas da internet ao velho conceito do cartão postal, a que chamam O Meu Postal
Ver em http://www.ctt.pt/fectt/wcmservlet/ctt/loja/produtos/meu_postal/

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