sábado, 3 de março de 2012

Alberto d’Oliveira II – O casamento de Madalena, de A Morgadinha dos Canaviais com Jacinto, de A Cidade e as Serras.

Alberto d'Oliveira, desenho de 1894.

No livro de Alberto d'Oliveira Eça de Queiroz – Páginas de Memórias [ver Nota Final], de 1919, um capítulo em particular tem a minha preferência, o que compara a temática de dois conhecidíssimos romances: o autor começa por confessar que quando “a vida pesa”, recorre a certos livros “medicinais”, que lhe “enchem o peito de ar da montanha, e que numa dessas leituras, de A Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis, apercebeu-se das suas semelhanças com A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz: 

Qual é, na verdade, o pensamento central da Morgadinha? Pôr em contraste a vida do Campo e da Cidade, mostrar os benefícios daquela e os malefícios desta; de uma condenar o artifício, o tédio, a futilidade mental e o desequilíbrio moral, e da outra louvar, em comovidos hinos, a beleza e a salubridade, a pureza e a graça, a variedade e a fecundidade. Para Júlio Dinis (...) a Babilónia carregada de pecados, é naturalmente Lisboa. É lá que aloja o seu Henrique Souselas, que da nossa modesta capital faz o seu universo, e não concebe a vida fora das suas barreiras. Essa vida é folgada e tão “jacíntica” quanto em Lisboa, e a imaginação calma de Júlio Dinis, era dado realizá-la. Henrique tem fortuna e gasta-a com dignidade. Ama a leitura, adora a música, coleciona “com paixão” quadros, móveis, estátuas, bibelots, cultiva a elegância e o mundanismo com gosto e êxito. É, enfim, um homem civilizado, requintado, e sem afazeres, além dos que, por vontade e escolha própria, lhe servem de distração. A existência não deve ter para ele senão doçuras. Corpo e espírito devem medrar e desabrochar em tão macio ambiente.

Entretanto, este venturoso Henrique começa um dia, sem motivo inteligível, a desencantar-se de todos os encantos do seu viver. Tudo o que o interessava o aborrece, tudo o que o alegrava o entristece. Um fastio invencível – o que mais tarde Eça de Queiroz, pela boca sincera do escudeiro Grilo, chamaria fartura – invade simultaneamente o seu ser físico e moral. O mal-estar vago logo assume as feições de doença nítida e reclama a intervenção dos médicos. Mas os médicos receitam e não acertam. Esgotam-se em vão os recursos da farmacopeia, experimentam-se a alopatia e a homeopatia, sem que o mal consinta em dar-se por vencido. Até que um doutor mais filosófico intima o doente a que mude de ares, sob pena de morte, e sendo informado que Henrique tem uma tia no Minho e essa tia uma quinta em Alvapenha, onde este mesmo sobrinho passara a infância, expede-o resolutamente para junto da tia e para a quinta.

As primeiras páginas do romance encontramos Henrique de Souselas, por uma medonha noite de chuva (aquela mesma que, tantos anos depois, conduziu o desditoso Jacinto através de Espanha, e o obrigou a abandonar as malas em Medina), encontramo-lo subindo a cavalo, na rude companhia de um almocreve, a penosa encosta que tarda horas, compridas como séculos, a aproximá-lo da casa de Alvapenha. Mil vezes se arrepende de ter trocado, na esperança louca da cura, todas as suas comodidades e aconchegos de Lisboa, por esta bárbara jornada – pelo que Eça de Queiroz chamaria “os abrolhos da Incivilização”. Ei-lo que chega por fim á velha casa familiar, desprovida de tudo o que pode lisonjear os seus hábitos, mal acolhido por ferozes cães de guarda que lhe faltam ao respeito (os mesmos que virão receber Jacinto a Tormes), melhor acolhido pelos braços ternos da tia Doroteia e da sua fiel criada Maria de Jesus. E todos conhecem de cor as peripécias dessa chegada, a singularidade com que é metralhado o hóspede, o seu crescente mau humor e impaciência. Deste seu inicial contacto com a vida simples só destacarei a primeira sensação agradável: a de uma “gorda galinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha lavada e na melhor loiça da copeira”, que Maria de Jesus lhe serve para a ceia e que ele sorve e saboreia com um regalo bem diverso do fastio que lhe causavam, desde tanto tempo, os manjares cultos e complexos de Lisboa. Esta canja é histórica, pois atuou como primeiro remédio eficaz de todos os seus males. E esta canja é ainda histórica, por ser a mesma que foi servida pela copiosa Ana Vaqueira, de peitos trementes, ao príncipe Jacinto, na sua primeira ceia no solar desmantelado dos seus avós, a mesma que pareceu saciar-lhe uma “velhíssima fome” e que logo foi completada por aquele vinho de Tormes, “fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo!”.

Saciada a fome e a sede, importava contentar o sono, um sono maltratado por longas noites, parisienses ou lisboetas, de cuidados, tormentos, cismas e persistentes insónias. E com gosto verificamos que Henrique em Alvapenha e Jacinto em Tormes, um no colchão de penas e no travesseiro de folhos ternamente preparados pela tia Doroteia, o outro na enxerga improvisada sobre o soalho, e metido dentro da camisa de estopa de uma moça serrana, ambos dormiram o sono longo e restaurador de que ambos, desde longa data, precisavam, e ambos acordaram na manhã seguinte, para empregar as expressões mais novas e mais fortes de A Cidade e as Serras, “desanuviados, desenvencilhados, com pensamentos ligeiros de liberdade e paz".

Mas Alberto d'Oliveira não se limita a enumerar semelhanças entre os dois romances, descobre também uma importante diferença: Jacinto, a figura masculina principal de A Cidade e as Serras, encontra-se mais pormenorizadamente desenvolvida que Henrique de Souselas, “a sua pálida sombra de Lisboa e Alvapenha”; as figuras femininas de A Morgadinha dos Canaviais, em especial Madalena, são bem melhor retratadas que a “fugidiamente esboçada Joaninha de Sandofim da casa da Flor de Malva” de A Cidade e as Serras.

Por isso, e embora penitenciando-se do facto - que “as memórias queridas de Eça de Queiroz e de Júlio Dinis me perdoem” - Alberto d’Oliveira não resiste à tentação de considerar que Jacinto não terá ficado casado com alguém da “sua igualha intelectual e moral e com quem ele poderá constituir uma família digna do seu nome”. Propõe assim “casar o ilustre D. Jacinto, fidalgo de Tormes, príncipe da Grã Ventura, com a não menos princesa Madalena, morgadinha dos Canaviais. O professor Augusto era pouco para ela e a indecisa prima Joaninha era pouco para ele”.    


Nota Final:

Projeto de capa para a revista O Serão
Apenas conheço de Alberto d’Oliveira, a prosa de Pombos Correios, Eça de Queiroz – Páginas de Memórias, Palavras Loucas e alguns textos e poemas dispersos. Tenho também o livro (em formato PDF) com os versos da peça Suave Milagre, mas não os li ainda. Todos os três livros de prosa vivem principalmente das experiências, observações e opiniões do escritor, extraídas da realidade - julgo mesmo que Alberto d'Oliveira nunca publicou qualquer romance ou conto, e que a sua diversificada obra, além da crítica, da política, da diplomacia, do teatro e do memorialismo, é poética, desde os tempos de estudante de Coimbra, na revista Boémia Nova. Nessa revista também colaborava António Nobre, de quem se tornou grande amigo. É António Nobre quem o apresenta pela primeira vez a Eça, em Paris, em 1892. Eça, então com 47 anos, era um diplomata já maduro e com nome feito nas letras portuguesas e brasileiras, enquanto Alberto d'Oliveira e António Nobre, eram apenas dois moços “cheios de sonhos” [ver Cartas Íntimas de E.Q.] de 19 e 25 anos, respetivamente. Em Agosto de 1894, Eça critica em carta paternalmente amiga dirigida a Alberto d'Oliveira, o livro Palavras Loucas [Ver Correspondência de E.Q.]. Tentaram juntos, lançar a Revista O Serão, projeto que nunca conseguiram concretizar. Ficaram amigos, até ao falecimento de Eça no ano de 1900.

2 comentários:

  1. Seu blog esta me ajudando MUITO para o termino de meu seminário sobre Crônicas quatrocentistas de Portugal.
    Parabéns! claro que citarei seu blog como fonte!

    Marina de Melo.

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    1. Marina,

      Muito obrigado pelo seu comentário! Acredite que eu também aprendo quando faço o blogue. Estamos sempre todos a aprender.

      Ricardo

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