domingo, 18 de março de 2012

Alberto d’Oliveira III – Poemas.

Alberto d'Oliveira, 1902.
Ocupei o tempo livre dos meus últimos 15 dias a ler a poesia de Alberto d’Oliveira, tempo que não dei por desperdiçado. Decidi por isso, que valeria a pena trazer a este blogue alguns dos seus poemas.

De 1896 a 1935 Alberto d’Oliveira enveredou pela carreira diplomática. O seu primeiro cargo foi em Tânger. Durante algum tempo, já durante a I República Portuguesa, foi cônsul de Portugal no Rio de Janeiro. Por isso, comecei por escolher estes dois poemas, um sobre o Brasil e outro sobre Tânger. Sobre o primeiro, um soneto dedicado ao Brasil, escreve o poeta: “ouvi sempre dizer bem do Brasil em redor de mim, talvez porque meu pai ali labutou e ali deixou, no cemitério de uma pitoresca cidadezinha fluminense, alguns irmãos meus mortos em tenra idade, e antes de eu nascer, já na Pátria”. Como sempre disse, “amava” o Brasil. Trabalhou como cônsul no Rio, com o desígnio de estimular a aproximação entre o Brasil e Portugal.

AO BRASIL - III (1935)

Éramos de almas um milhão apenas,
Nesta esquina da Europa acomodados,
Povo de lavradores e soldados,
Aguerrido nas lutas sarracenas.

E um dia, porque achássemos pequenas
Nossas fronteiras, eis-nos arrojados
Aos mares nunca dantes navegados,
Renome a disputar a Roma e a Atenas.

Vós, quarenta milhões somais de gente,
É vossa Casa infindo continente,
Riquezas possuís sem termo ou par...

Que te falta, Brasil, Portugal Novo,
Para ser amanhã o maior Povo
Que a História jamais teve de cantar?

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Suponho que a Tânger que Alberto d’Oliveira conheceu, sessenta anos antes da independência de Marrocos, seria muito diferente da atual. Muito mais pequena e onde provavelmente seriam mais facilmente observáveis o distinto caráter e vivências de árabes, europeus e judeus. Através do poema, revela-se o fascínio do poeta pela beleza da cidade aberta ao mar e ao céu estrelado e pelo ritmo marcado com as orações muçulmanas.

NOITE DE TÂNGER (1902)

Lua cheia de Alá... cheia de tanta luz
Como o luar que banha as terras de Jesus.

As estrelas de Deus, com suas claras mãos,
Deitam bênção igual a moiros e cristãos.

Neste fundo silêncio, a este luar profundo,
Todos os corações têm sede de outro mundo...

E eis que vejo surgir, da noite que fulgura,
Em cada minarete, uma branca figura.

Eis que, no burgo em paz, rompem vozes contritas
Dos verdes torreões de todas as mesquitas!

Seus cânticos iguais fendem o ar dormente
Num coro que procura as bandas do Oriente.

É a mesma oração, de Tânger ao Saará,
Mil vozes numa voz: “Só Alá é Alá!”

É todo um povo imenso, em seus brancos terraços,
Para os distantes céus erguendo ansiosos braços!

São milhões e milhões de almas religiosas,
A chamarem por Deus com vozes desditosas...

É a mesma ansiedade, o mesmo coro aflito,
A vertigem humana em frente do Infinito.

E essa voz de aflição, de sonho e de tristeza
Ecoa longamente em toda a Natureza.

O céu cheio de luz, transbordante de estrelas,
Acolhe as orações, parece compreendê-las...

O mar parou a ouvir aquela prece seguida
Da escuridão da Terra às nascentes da Vida.

E adivinha-se Deus, esparso nas alturas,
A ungir de igual amor todas as criaturas...

Minarete em Tânger





















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Alberto d’Oliveira, devido à carreira diplomática, dispôs da oportunidade de conhecer muitos países. Além disso era um poliglota: tem poesia escrita em francês, castelhano, italiano e latim. Assim, não é de estranhar que por vezes, como nos poemas acima selecionados, se socorra da experiência adquirida fora de portas, para assunto dos seus poemas. E é um seu pequeno e simples poema sobre a Galiza – escrito no Dia da Galiza, presumo que a 25 de Julho de 1922, que resolvi aqui trazer. A proximidade entre o povo galego e o português, com a mesma génese e com a mesma língua, faz com que sejam não apenas vizinhos, mas também irmãos.

IRMÃOS E VIZINHOS (1922)
(Aos poetas daquém e dalém Minho)

Guardam a fronteira, de um e de outro lado
Do Minho formoso, do rio encantado,
As lusas e galegas cotovias;
E mal rompe do Oriente o clarão matinal,
Logo se cruzam no ar as meigas melodias
Do seu perpétuo idílio e madrigal:
-“Bons dias vizinho e irmão de Portugal!”
-“Galiza, boa irmã, amada irmã, bons dias!”

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Não se pense que Alberto d’Oliveira não fez poemas sobre Portugal. Tem-nos em grande quantidade, em especial sobre Coimbra, terra onde estudou e que nunca esqueceu, mas também sobre aspetos da vida no campo, os poveiros, o Porto, o Mondego, Lisboa, etc. Se existe uma temática central da sua poesia, ela é Portugal e o português. Gosto particularmente de um dos sonetos dedicados ao rio Tejo.

AO TEJO - I (1935)

Chego ao Terreiro do Paço,
Olho o Tejo, e de repente,
Acho tudo diferente,
Quer no tempo, quer no espaço.

Nossa História, passo a passo,
Ali toda está presente:
E esse Mar que nos fez gente,
Que deu rumo ao nosso braço!

Se o batismo do Jordão
Foi o prólogo divino
De todo o mundo cristão,

Tão fecundo e benfazejo
Ao lusitano destino
Foi o batismo do Tejo.

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Os poemas de amor enchem a poesia de Alberto d’Oliveira, como a de muitos outros poetas. É sempre fácil gostar de um poema de amor. Neste que escolhi, o poeta tinha apenas 20 anos de idade.

NAS MENINAS DOS MEUS OLHOS (1893)
(Cantiga)

Nas meninas dos meus olhos,
Para onde quer que elas vão,
Que imagem vês refletida?
Mar? Céu? Arvoredos? – Não!

Errantes por longes terras,
Perdidas na multidão,
As meninas dos meus olhos
São como cegas, não são?

Nas meninas dos meus olhos,
Para onde quer que elas vão,
Só anda a tua figura,
Dona do meu coração!

Anda o teu santo retrato,
Tua adorada expressão,
Nas meninas dos meus olhos,
E toda a vida andarão...

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E não sei exatamente porquê, mas estes, foram os dois poemas que mais gostei de Alberto d’Oliveira. Privilégio de simples leitor. Se algo mais existe, pensando bem, talvez seja uma certa carga esotérica...

CINCO SENTIDOS (1935)
(Depois de ler uma página de Maeterlinck)

Cinco sentidos são os cinco dedos
Com que o homem tateia a escuridão,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haverá mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior visão,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencerão.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido!


LIÇÃO QUOTIDIANA (talvez 1935)

Cada manhã ressuscito
Do sono, esse irmão da Morte,
Que é minha estrela do norte,
Meu professor de infinito.

Hora por hora medito
Sua lição clara e forte;
Mas nem assim minha sorte
Encaro menos aflito.

E, se acordo com o dia,
Cheio de fé e alegria,
Julgando-me imorredoiro,

À noite estou moribundo...
E em meu vazio tesoiro
Vejo o meu fim, e o do mundo!

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Nota Final:
Em 1999, a Lello Editores decidiu publicar - com o patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, o primeiro volume das Obras de Alberto d’Oliveira. Com o subtítulo Poesias, o livro reúne a grande maioria dos seus poemas e integra-se na coleção “Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Século XIX”. É um livro disponível.

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