quinta-feira, 29 de março de 2012

O "Dom cardeal" medieval de Júlio Dantas

Júlio Dantas, 1913.
Para os anglo-saxónicos, católico é sinónimo de “papista”. A história de Portugal, sem que haja dúvidas do seu catolicismo, tem muitos exemplos de um catolicismo pouco ortodoxo e mesmo irreverente, frequentemente para desespero do seu clero, ao contrário do seguidismo e fanatismo católico, por exemplo, da vizinha Espanha.

Um dos meus textos preferidos sobre as relações do nosso rei fundador, D. Afonso Henriques com Roma, é o “Dom cardeal” de Júlio Dantas, publicado em 1914, no livro Pátria Portuguesa.

Para tornar o relato mais verosímil, Júlio Dantas recorre a muitas palavras e expressões que podemos ter dificuldade em saber o significado ou pouco utilizamos na linguagem comum ou mesmo que são antigas e caíram em desuso. Essas palavras estarão assinaladas com asteriscos dentro de parêntesis retos [*]. No final, são listadas alfabeticamente com os respetivos significados. Aqui, valeram-me os dicionários de antanho, e ainda assim, alguma interpretação foi-me indispensável. Quando em dúvida total ou parcial do significado, acrescentei um providencial ponto de interrogação [?].  

Embora romanceada, a história tem por base documentos do século XV [ver Nota Final], e dá bem a imagem do rude ambiente medieval, com a brutalidade e miséria humanas retratadas com todo o realismo possível, de quem lê a história oito séculos mais tarde. Não é portanto uma história de elegâncias aristocráticas ou de delicadezas de salão. 

DOM CARDEAL, Século XII, por Júlio Dantas

Capa da 3ª edição.
Numa casa quadrada da alcáçova [*] de Coimbra, junto dum lar montado sobre cachorros de pedra onde estalavam toros de castanho a arder, três figuras bárbaras de homem, debruçadas sobre uma arca enorme coberta de guadamecins [*] vermelhos, jogavam em silêncio, comendo pedaços de nata com as mãos e movendo os trebelhos [*] doirados sobre uma velha távola de xadrez. Um deles, moço, ruivo, gigantesco, os cotovelos na arca, os dedos metidos pela barba revolta, a expressão dura e selvagem, embrulhava-se num perponte [*] de pano verde de Ruão e tinha os pés calçados de fortes balegões [*] de ferro: era o conde Afonso Henriques, que os seus homens de armas já tratavam de rei. Os outros dois, raça de hércules escuros, as cabeças chamorras [*] pintando de branco, as mãos felpudas e enormes, os olhos ingénuos e bons, a malha barbarisca [*] a romper debaixo das roupas largas de estanforte de Bruges [*], eram os dois grandes amigos do rei: Lourenço Viegas, o “Espadeiro” que enfiara uma barreta vermelha na cabeça; Gonçalo Róis, o bravo “Braganção”, que meditava sobre a távola do xadrez, a face entre os punhos cerrados, as barbas lambuzadas de nata branca. Num braço de ferro embebido no forte saimel [*] dum dos arcos da abóbada, uma tocha ardia, sacudida do vento, tisnando [*] de fumo as pesadas aduelas de pedra [*] e alongando no lajedo [*] a oscilação de três sombras. O largo janelão românico abria-se sobre a noite imensa. Um silêncio espesso, apenas cortado pelo bater dos trebelhos, pesava no ar.
A jogar xadrez. Desenho
de Alberto Sousa.
Subitamente, na calada da noite, o sino do mosteiro de Santa Cruz tangeu a capítulo [*]. Um vozeiro de povo e um tropear de bestas [*] alarmou o velho burgo. O rei levantou-se, de repelão, bateu no tijolo as balugas [*] de ferro, debruçou-se do janelão enorme que um mainel [*] de pedra geminava, e olhou. Lá baixo, na congosta [*], galgando em direitura ao mosteiro, palpitava um clarão de cerofalas [*] acesas, ferrolhavam no lajedo canelos de azémolas [*], um bezoar [*] confuso de vozes subia até à alcáçova.
— É o dom cardeal? — rugiu Afonso Henriques para o clérigo Sueiro, que assomou à porta levantando a alfola [*] moirisca de pano de Granada. — É o dom cardeal que chega?
— Já entrou em Santa Cruz, e ainda lá baixo, no marmoural [*] dos moiros, veem azémolas carregadas de riquezas.
Os olhos do rei cintilaram numa expressão brutal. Depois, estalando uma risada seca, a bocarra enorme coberta de pelos ruivos:
— Por Deus de cruz, dom Sueiro, deixai entrar a garça!
Ganhou o escano [*] onde pousava um canjirão [*] de prata cheio de água, meteu-o à boca, emborcou-o gorgolejando, limpou os beiços às costas da mão gadelhuda, e, atirando-se outra vez de bruços sobre a arca, continuou a jogar tranquilamente.
— O dom prior de Santa Cruz manda recado a vossa mercê, — esguelhou do lado [*] o clérigo Sueiro, a tremer.
— Recado, a mim?
— Para vossa mercê ir beijar a mão ao dom cardeal. Diz que lha beijaram no caminho todos os reis da Espanha.
O “Braganção” atirou um murro à arca. Lourenço Viegas destampou a rir, a barreta vermelha enterrada na cabeça. O rei olhou o tonsurado [*], apontou-lhe a porta e uivou:
— Ide à crasta [*] de Santa Cruz e dizei ao dom prior que não há tão honrado cardeal em Roma que me estenda a mão para lha beijar, que eu lha não corte pelo côvado!
Já o velho pano de Granada caía pesadamente nas costas do clérigo, e ainda o “Braganção” trovejava para o rei, batendo punhadas no guadamecim da arca:
— Se vossa mercê não sacode Roma, sacode-o Roma a vossa mercê!
Pouco tempo andado, entravam na câmara do rei o cancelário da cúria [*], magister [*] Alberto, e o mordomo [*] Nónio Mendes, dizendo-lhe que o cardeal vinha a caminho da alcáçova, e que a ele, Afonso, como senhor daquelas terras, cumpria recebê-lo com honra. O povo do burgo, acordado pelos sinos, pelo rumor da tropeada e pelo clarão das cerofalas, galgara como um rebanho de cabras as congostas do castelo, rosmeando [*], enxameando, pendurando-se pelos fraguedos [*], os olhos inquietos, as cabeças negras encapuzadas nos capeiretes [*], o burel [*] dos zorames [*] e das aljubas [*] trescalando [*] a ovelha, as avarcas [*] bezerrunas [*] a estalar, a tairocar [*] nas lajes. Que quereria um cardeal de Roma ao senhor rei de Portugal? E os homens, rudes, broncos, escuros, vindos das corujeiras [*] moiriscas do burgo, a gaguejar, a grunhir, olhavam-se, levantavam os braços para as altas lumieiras [*] da alcáçova, enquanto as mulheres, pobres lobas de fereza [*] e de volúpia, de instinto e de desgraça, aos molhos, descalças, sangrentas, açapadas [*] na terra, os filhos atados às costas, se espulgavam [*], cantando, uivando, chorando. Talvez o dom cardeal viesse, por mandado do Papa, castigá-los a todos por suas culpas; talvez obrigar o senhor rei a dar a liberdade à mãe, tolhida e presa no castelo de Guimarães; talvez fulminá-lo, por ter sagrado bispo, pelas suas mãos rebeldes, o moçárabe Soleima, quando o prelado de Coimbra, fugido pela noite, excomungara Portugal. Um vago terror, o terror supersticioso do castigo de Deus, filho ainda desse pavor secular do milenário, que cobrira a terra dum manto branco de igrejas, crescia agora naquela multidão negra, inquieta, convulsa, ululante, que já via outra vez diante de si, como um fogo de lepra, o flagelo sagrado das excomunhões, assolando terras, secando vinhas, queimando searas, envenenando fontes, ferindo de esterilidade mulheres, sementes e gado, escurecendo e esfriando o sol como uma revoada imensa de corvos. E quando a sombra vermelha do cardeal assomou lá baixo, seguida de clérigos e de tochas, sobre uma mula gualdrapada [*] de vermelho, debaixo dum enorme chapéu vermelho que um cordão de oiro soqueixava [*], os pés calçados em borzeguins [*] pontudos de ferro, um evangeliário [*] bizantino nas mãos, — todo aquele formigueiro humano, contrito, agachado, humilde, sacudido de superstições bárbaras e de terrores do inferno, caiu por terra de joelhos, bradando, suplicando misericórdia.
Foi por entre o pavor, por entre os braços crispados do povo obscuro, que o legado do Papa entrou na alcáçova de Coimbra, seguido do prior de Santa Cruz e duma leva de cónegos sofraldados [*], cobertos do velo [*] branco dos birros [*], as barretas pintadas de penas veiras [*], erguendo relíquias de santos e cruzes processionais [*] de prata. Lá dentro, a sua acolhida havia de ser outra, menos conforme à dignidade dum cardeal de Eugénio III. O rei Afonso, a barba ruiva cada vez mais revolta, sentado no escano ao lado do canjirão de prata meio de água, embrulhado ainda no mesmo perponte verde de Ruão, uma conca [tigela] de nata nas mãos, esperava-o, despreocupadamente, comendo e rindo. Em volta, apenas mestre Alberto, miúdo, curvado, atento, quase anão na sua roupa negra talar [*]; o mordomo da cúria, a barba branca enorme como uma onda de prata pintando o pelição [*] eriçado de marterénia [*]; oito ou dez homens de armas, os briais [*] de lã sobre os pesados lorigões [*] de ferro, — e ao pé do janelão, enormes, risonhos, hirsutos, o “Espadeiro”, com a sua barreta vermelha enterrada até às orelhas, o “Braganção”, olhos tranquilos de boi, braços nus e negros cruzados sobre o peito.
Quando o pano de Granada, que guardava a porta, se arredou para dar passagem à figura vermelha do cardeal, os pescoços tronchudos [*] e nus dos portugueses avançaram, num movimento brusco de curiosidade. Era o primeiro cardeal, o primeiro legado de Roma que pisava terras portuguesas. O clarão alto da tocha batia-lhe em cheio, alongava-lhe a sombra esguia sobre o chão de tijolo, quebrava-se nas abas colossais do sombreiro [*] vermelho, embebia-se no samito [*] vermelho da murça [*], denunciava-lhe a brancura fina das mãos, escorria pelas pastas de prata do evangeliário onde gesticulavam apóstolos, e ia lampejar, percorrendo-o como uma labareda, nos borzeguins de ferro polido, pontudos como calçaduras polacas. Devia ser um homem de quarenta anos, seco, face glabra [*] de italiano, dum trigueiro doirado, olhos argutos, lábios finos de raça. O rei Afonso encarou-o com estranheza, pousou a conca sobre o escano comprido, limpou as barbas à mão e trovejou:
— Dom cardeal, que viestes aqui fazer de Roma, — que de Roma nunca me veio senão mal? Que riquezas me trazeis da Itália para estas idas que faço dia e noite contra moiros? Dom cardeal amigo, se porventura me trazeis algo que me deis, dai-mo, — e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via!
O dom cardeal. Desenho
de Alberto Sousa.
O purpurado [*] desenrolou as letras do Papa, que trazia num pergaminho selado de chumbo, e deu-as ao cancelário. Depois, numa voz firme e persuasiva, declarou as razões da sua vinda a Portugal; disse a má impressão produzida em Roma pelo cativeiro da mãe do rei e pela forma por que Afonso Henriques recebera a admoestação do Papa, injuriando e perseguindo o bispo de Coimbra; afirmou que, ao sagrar bispo por suas mãos um clérigo, e ao atirar-Ihe sobre os ombros um pontifical [*] de ciclatão [*] pesado de oiro para oficiar a missa, o rei procedera como herege e cismático; e, com a mão direita erguida, o evangeliário de prata abraçado ao peito, o cardeal concluiu, perante o assombro de todos:
— E assim sou vindo a vós, dom conde, da parte do Santo Padre, para vos mostrar a fé de Jesus Cristo.
O rei arrancou, num uivo de fera:
— Herege sou eu, dom cardeal?
A barba branca de Nónio Moniz ergueu-se, implorando, diante da sua ira. O canjirâo de prata rebolou nos ladrilhos do chão. O prior de Santa Cruz, mitrado [*], o crânio de Santa Cecília nas mãos, correu a acalmar o rei. Os gritos do povo, que se pendurava lá baixo, pelos fraguedos, chegavam agora à alcáçova em lamentos de morte. Então, Afonso Henriques, nos braços do cancelário e do prior, os olhos faulhando, a barba eriçada e fulva [*] a tremer-lhe no queixo, deitou as mãos ao seu perponte verde de Ruão, rasgou-o nas dianteiras, de alto a baixo, desabrochou, em repelões, a aljuba de coiro, despedaçou a camisa de bragal [*] que trazia a carão da carne [*], e nu até à cintura, hercúleo, medonho, formidável, o torso felpudo de sátiro empastado de guedelhas ruivas, apontou, às punhadas no peito, perante o pasmo torvo [*] do cardeal, as vinte cicatrizes de vinte combates contra os inimigos de Deus, os sinais de vinte golpes, fulgurando, abrindo como traços roxos por entre os pêlos hirsutos, os estigmas da morte vinte vezes afrontada pela cruz do Redentor, — e uivando como um possesso, pulando como um animal sobre o tijolo, batendo com os punhos cerrados na arca do próprio peito, gritava para a sombra vermelha do legado do Papa, que se apagava, que se sumia já entre os cónegos:
- Herege sou eu? Herege sou eu, dom cardeal, assim miserado de [*] feridas para dar terras a Deus?
O rei arquejava, o torso sarrudo [*] de Hércules entre os braços do prior de Santa Cruz. Os homens de armas, entreolhando-se, avançavam já para o cardeal os pesados gocetes [*] de ferro. O povo, em baixo, clamava, suplicava, gemia. O italiano compreendeu a raça de fera que tinha diante de si; cuidou, na sua alma, que daqueles broncos portugueses nada faria Roma pela astúcia ou pela ameaça, e rodeado, protegido, oculto entre as cruzes, as cerofalas, as relíquias, os birros brancos dos cónegos regrantes, saiu da alcáçova, galgou as estribeiras doiradas da mula, e abalou, com todo o povo, a caminho da Sé. Já as ferraduras da alimária escorregavam no lajedo romano do burgo, ainda o rei trovejava na alcáçova, nu, enfiando o áspero bragal da camisa e batendo ferozmente no ladrilho as balugas de ferro:
— Herege sou eu, dom cardeal?
Duas horas depois, ante-matinas, o moço Afonso dormia sobre os dois almadraques [*] do leito, o focinho enterrado no plumaço enorme, uma cócedra [*] de peles velhas da Normandia a recobri-lo todo, quando o clérigo Sueiro, em roupas, a tremer, entrou de súbito na trescâmara [*], o sacudiu pelos ombros e lhe gritou, espavorido, que o cardeal chamara toda a clerezia à crasta da Sé, se revestira dum pluvial roxo, e, pela autoridade dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, dissera três vezes fiat, fiat, fiat, calcara a pés o lume das tochas, excomungara o rei e a terra de Portugal, e abalara, estradas fora, caminho da Beira, com todas as suas azémolas carregadas de riquezas. Os sinos dobravam já na catedral. O povo de Coimbra, em manadas, messando [*] as barbas, cobrindo-se, por penitência, de esterco dos corveiros [*] e dos bostais [*], os zorames negros pelas cabeças, as avarcas zebrunas [*] arrastando, cruzes processionais e relíquias erguidas nas mãos, cantava ladaínhas, implorava misericórdia, corria as alfurjas [*], espojava-se pelos adros, pendurava-se nos cruzeiros [*], arrepelava-se, ensanguentava-se, metia-se pelos campos, soluçando, gritando, chafurdando nas brenhas, nos enxurdeiros [*], nos morraçais [*] do rio :
— Miserere! Miserere!
O rei, mal estrovinhado [*], saltou do leito como um leão bravo, embrulhou-se numa roupa solta de escarlata [*], calçou as balugas, enfiou uma barreta negra, meteu no braço o loro [*] duma adaga, e antes que Fernão Peres, vedor [*] da casa, e o “Braganção”, e o frade confessor pudessem detê-lo, saltou para um cavalo em osso, cravou-lhe as puas [*] de ferro no ventre, desceu de escantilhão [*] a congosta, e sózinho, através da escuridão da noite, numa arrancada violenta, num repelão vertiginoso, devorando a terra, as ferraduras chispando nas pedras, o fraldão da roupa chicoteando o ar, atirou-se, campos fora, estradas fora, no encalço do cardeal. O povo, como um rebanho espantado de carneiros negros, tresmalhou-se diante das patas do cavalo, rezando quíries [*], erguendo cruzes, crispando as mãos; corriam à beira da estrada, numa revoada de névoa, casais, almuinhas [*], árvores convulsas e bracejantes, asas negras de corvos espantados, toda a alma noturna e silenciosa dos campos, palpitando, voejando, passando, desaparecendo, — e o rei, mordendo pó, ganhando terra, numa corrida desordenada, numa fúria devastadora, a vertigem a zumbir-lhe aos ouvidos, o vento a azorragar-lhe [*] a cara, sombra formidável sobre um cavalo formidável, resfolegava, tropeava, ferrolhava, galopava, enquanto ao longe os sinos de Coimbra dobravam a mortos e o clamor do povo, seguindo o cavalo, se erguia num rugido, numa súplica, numa imprecação, num desespero:
— Miserere! Miserere!
Ia já, léguas andadas, no caminho da Beira, quando viu, lá ao fim, na volta de uma estrada, pelas alturas de Poiares, um clarão de candeias e de lucernas [*], avançando, pulsando, marchando na escuridão. Era o cardeal que fugia, com a sua recua de azémolas.
O cavalo já não galopava; voava, cortava, rasgava o ar. Ia vêr, o legado do Papa, o dom cardeal de Eugénio III, o vigário de S. Pedro e de S. Paulo, com que moeda pagava Portugal cada raio de excomunhão. Um repelão mais, uma arrancada mais, e o rei Afonso, negro, gigantesco, desconforme, seguido já de perto pela tropeada do “Espadeiro”, do “Braganção”, do vedor da casa, do prior Teotónio, caía como uma tempestade sobre a comitiva vermelha do enviado de Roma, tresmalhando, dispersando, apavorando clérigos, bájulos [*], azeméis [*], ceroferários [*], derrubando fardos, espantando animais, apagando luzes. Um instante ainda, e o rei Afonso tinha o cardeal nas garras, travado pelo capelo, atirado sobre a mula, os olhos redondos de pavor, os cabelos empastados de suor frio, e trovejava, e urrava, possesso de alegria, o ferro da adaga sobre a garganta do italiano:
— Cá está a garça! Cá está a garça!
Mas as mãos potentes de Lourenço Viegas agarraram o rei; um sobrinho moço que o pupurado trouxera consigo pendurava-se-lhe fios braços; o “Braganção”, enfiado numa samarra pardusca [*], desviava-lhe o ferro, prestes a embeber-se no cachaço do cardeal; o prior de Santa Cruz, já sem mitra, metia-lhe aos olhos um Cristo ensanguentado, e todos lhe gritavam, lhe vozeavam em volta:
— Morte, não! Morte, não!
Afonso Henriques destravou do legado, abriu-lhe mão do capelo, deixou pender a adaga do loro, e com os olhos torvos de ira, os pêlos ruivos da barba espetados como puas, intimou-o ali mesmo, sob a ameaça de destroncar-lhe a cabeça, a revestir-se de panos sagrados e a lançar a absolvição ritual sobre a terra e sobre o rei que excomungara.
Lívido, transido de pavor, cambaleando sobre a mula gualdrapada, o cardeal apeou-se, amparado aos bájulos; mandou desentroixar a mitra de Santo Estêvão, um pluvial [*] silínio [*] alcachofrado de oiro, a alva [*], o amicto [*], o cíngulo [*], a estola; e debaixo do grande céu estrelado, em pleno silêncio, sobre as leiras revoltas de terra, entre árvores que ramalhavam, à luz das lucernas e das candeias de prata, esguelhando os olhos para o rei, resmoneou [*] a absolvição, em gestos espavoridos de bênção:
— In nomine Patris, et filii, et spiritus sancti...
O povo que ia chegando, povo da Vimieira e de Poiares, estremunhado, atado nos safões [*] de peles, os bragueiros [*] ásperos pelo joelho, olhava, grunhia, benzia-se, batia nos peitos. Esvoaçavam as sobrepelizes [*] ao vento, como asas brancas; feridos da luz, ícones bizantinos gesticulavam, faulhavam oiro nas dianteiras do pluvial romano; ao longe, pelos casais, pelos cortinhais [*] distantes, cantavam já os galos adivinhando a manhã; e o latim do cardeal caía, na escuridão da noite, roufenho, gaguejado, convulso, sacudido de pavor:
— Dominus noster Jesus Christus te absolvaf; et ego, auctoritate ipsius, et sanctissimi Domini nostri Papae mihi commissa, absolvo te, et regnum tuum, a vinculo excommunicationis...
Agora, eram já os sinos de Poiares que tangiam a rebate; o povo de Coimbra, de cruzes alçadas, chegava, as bocarras abertas de pasmo; e levantada a excomunhão, absolvida a terra, quando o cardeal, mitrado e revestido, ia a galgar à mula, a meter-se ao caminho, a ferrar o pé na estribeira, logo a mão brutal do rei Afonso, como uma pata felpuda, se lhe espalmou no ombro e o fez, quase, afocinhar na terra. Não. Não era tudo ainda. Em primeiro lugar, o legado do Papa havia de comprometer-se a mandar-lhe de Roma uma bula declarando que Portugal nunca mais seria excomungado. Havia de prometer-lhe que ninguém mais da cúria romana, papa ou cardeal, o estorvaria de fazer, na sua terra, os bispos que quisesse. Ficaria por penhor o seu sangue. Deixaria em reféns o sobrinho. Em quatro meses contados, ou vinha a bula, ou lhe ia a cabeça fora. E o rei, agarrando o moço pelo cachaço como um podengo, atirou-o, ganindo, para as mãos do “Braganção”. Contra aquela fera, era escusada a luta. O cardeal, os dentes cerrados de despeito, curvou a cabeça, aceitou tudo, prometeu as letras do Papa, era capaz de renegar o próprio Deus, — contanto que o deixassem seguir jornada, com a sua récua [*] de azêmolas, entre os bájulos que vacilavam e as lucernas que tremiam.
Em perseguição. Desenho
de Alberto Sousa.
Mas não. Esse rebento fulvo dos duques de Borgonha, bárbaro como o arquiavô Roberto de França, incendiário como o avô Hugo, ladrão como o avô Dalmácio, violento como os tios cartuxos [*], mas grande no destino sagrado de talhar um reino e de descobrir um povo, — não acabara ainda de ditar as suas condições. O legado do Papa não levaria consigo para Roma nem a poeira das riquezas que trouxera para Portugal. Nem oiro, nem prata, nem alfaias, nem bestas.
Quisera instalar-se neste ninho de águias, cortado de fraguedos e de barbaridade? Pois bem: havia de pagar ao senhor da terra o preço da sua audácia. Três mulas lhe bastavam para a jornada. O resto, todas as riquezas que trouxera enfardadas nas azémolas, cruzes, frontais, cendais [*] de Ádria, greciscos [*] de aluz [*], alaras [*] brancas de alvecim [*], maromaques [*] esplendendo [*] tecidos de oiro, sacos de morabitinos [*], casulas [*], dalmáticas [*], pluviais de Chipre, — ele, rei de Portugal, lhas tomava e roubava em nome de Deus todo-poderoso, porque o Papa era avarento e rico, e Portugal mísero e pobre; porque todos os dias a sua espada semeava igrejas em terras de moiros, que não tinham uma copa de prata para o ofício da missa; porque não era com bulas de Roma que se faziam reinos, mas com os braços, com o sangue, com a alma do povo, — e o seu povo tinha fome!
O cardeal, num assomo de fúria, esbravejando, vasquejando [*] nos braços dos homens de armas, quis ainda protestar, praguejar, fulminar, defender a sua riqueza, os seus paramentos, o seu oiro, as suas relíquias, — mas de novo a mão formidável do rei Afonso aferrou da pescoceira vermelha do legado, desta vez para o sacudir no ar, para o sentar na mula como um boneco, e para lhe ordenar, fustigando a besta com o azorrague de um azemel:
— E agora, dom cardeal de Roma, ide dizer ao Papa como eu sou hereje!


Significados de A a Z:

açapadas [caídas]
aduelas de pedra [pedras do arco da abóboda]
alaras [leques]
alcáçova [castelo ou fortaleza]
alfola [cortinado]
alfurjas [esterqueiras]
aljubas [vestimenta comprida de mangas largas]
almadraques [enxerga ou saco de palha]
almuinhas [hortas]
aluz [tecido felpudo]
alva [vestimenta eclesiástica de pano branco]
alvecim [seda branca e fina]
amicto [pano branco que cobre o pescoço e os ombros do sacerdote na missa]
avarcas [alpercatas ou calçado mal feito]
azeméis [almocreves]
azémolas [besta de carga]
azorragar-lhe [açoitar-lhe]
bájulos [carregadores]
balegões [sapato antigo em ferro]
balugas [botas em ferro]
barbarisca [de bárbaros]
bezerrunas [de pele de cria de vaca]
bezoar [berrar]
birros [chapéus]
borzeguins [botim de cano aberto]
bostais [currais de vacas]
bragal [tecido grosseiro cujo fio é de cordão de linho]
bragueiros [peça de vestuário que cobria o corpo da cintura para baixo]
briais [camisolas que os cavaleiros vestiam sobre as armas]
burel [tecido de lã grosseira]
cancelário da cúria [dignatário do clero responsável pela cúria do bispo]
canjirão [jarro]
capeiretes [capuz]
carão da carne [sobre a pele]
casulas [vestimenta sem mangas nem gola que os padres põem sobre a alva e a estola]
cendais [tecido fino tipo véu]
cerofalas [tochas]
ceroferários [transportadores de tochas]
chamorras [tipo de chapéu ou cabelo tosquiado curto]
ciclatão [seda bordada a ouro]
cíngulo [cordão que aperta a alva na cintura]
cócedra [colcha]
conca [tigela de madeira]
congosta [rua estreita]
cortinhais [campos vedados por sebes ou pedras]
corujeiras [habitações miseráveis dos penhascos]
corveiros [currais de cabras]
crasta [claustro ou convento]
cruzeiros [cruzes grandes em pedra
dalmáticas [vestimenta de bispos]
enxurdeiros [terrenos alagados, chiqueiros ou currais de porcos]
escano [banco que serve de caixa]
escantilhão [de roldão]
escarlata [vermelha]
esguelhou do lado [falou de lado]
esplendendo [resplandecendo]
espulgavam [catavam as pulgas]
estanforte de Bruges [roupa de lã vinda de Bruges]
estrovinhado [acordado]
evangeliário [livro missal com os evangelhos diários]
fereza [ferocidade]
fraguedos [penedias]
fulva [dourada]
glabra [desprovida de barba]
gocetes [luvas de ferro]
greciscos [panos preciosos]
guadamecins [antiga tapeçaria de couro pintada e dourada]
gualdrapada [com cobertura de manta por baixo do selim]
lajedo [chão de lajes]
lorigões [proteção do tronco de couro e de ferro]
loro [cinto de coiro] 
lucernas [lanterna]
lumieiras [archotes]
magister [mestre]
mainel [pilar]
marmoural [terreno alagado ou sepulturas dos mouros]
maromaques [tecidos de seda e ouro]
marterénia [tipo de pele com que se enfeitava o vestuário]
messando [puxando]
miserado de [desgraçado por]
mitrado [com o chapéu clerical]
morabitinos [moedas antigas]
mordomo [administrador]
morraçais [terra de moliços lamacentos junto a ribeiros ou rios]
murça [vestimenta de cor que os cónegos põem por cima da vestidura branca]
pardusca [pardacento]
perponte [gibão, casaco]
pelição [vestimenta de peles sobre o saio]
pluvial [capa que o sacerdote veste durante a aspersão da água benta] 
pontifical [veste de bispo]
processionais [de procissão]
purpurado [cardeal]
quíries [invocando Deus]
récua [grupo]
resmoneou [resmungou]
rosmeando [resmungando]
safões [calças curtas]
saimel [capitel]
samito [sublime] 
sarrudo [cabeludo]
silínio [de Silino na Rússia?]
sobrepelizes [vestidura branca com ou sem mangas que os padres vestem sobre a batina e que lhes desce até meio corpo]
sofraldados [com a orla do vestuário erguida]
sombreiro [chapéu de aba larga]
soqueixava [preso por baixo do queixo]
tairocar [fazer barulho ao andar]
talar [que desce até aos calcanhares]
tangeu a capítulo [tocou para o ajuntamento do povo]
tisnando [tornando negras]
tonsurado [tonsura, era o cabelo cortado em coroa, dos membros do clero]
torvo [aterrorizado]
trebelhos [peça do xadrez]
trescalando [tresandando]
trescâmara [divisão interior da casa]
tronchudos [grossos]
tropear de bestas [ruído das patas dos cavalos]
vasquejando [tremendo]
vedor [administrador]
veiras [delicadas]
velo [lã]
zebrunas [escuras?]
zorames [capa]

Nota Final:
O texto em que Júlio Dantas se baseia - julgo que será “As Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra”, é datado da segunda metade do século XV.
É um texto muito discutível, que se poderá basear na realidade ou apenas na tradição oral e na lenda – por exemplo a prisão de Dona Teresa por D. Afonso Henriques é contestada pelos historiadores. Ver também a versão - para mim menos emocionante que esta de Dantas, que do mesmo episódio nos transmite Alexandre Herculano em "O Bispo Negro". 

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