sexta-feira, 27 de abril de 2012

Namoro I - Conversa de namorados na aldeia


José Guerreiro Murta*

Algumas das páginas de livros antigos que mais me interessam, são da responsabilidade de professores. O professor liceal José Guerreiro Murta (1891-1979), no seu livro Como se Aprende a Conversar – tenho a edição do 11º milhar de 1943, deixa-nos esta peça deliciosa sobre o namoro nas aldeias. É  do tempo, não muito distante, em que as aldeias eram cheias de vida e de gente nova, mas também de pobreza, e não existiam ainda torneiras com água canalizada na grande maioria das casas. A água pura e fresca, para beber e cozinhar, era transportada em bilhas de barro enchidas nas fontes, e esse local era um dos poucos, em que surgia ocasião para conversa e namorisco. Um quadro rústico.


DIÁLOGO NA FONTE

O Manuel do Carmo, quinteiro no lugar, aproximou-se de Maria, uma cachopa alegre e desenvolta. Ela seguia-o de soslaio enquanto ria com as outras. O cenário, o mesmo de sempre: fonte velha, espaldar alto, água cantante das bicas para dentro das bilhas; moças à volta a rirem alto à espera do “derrete” (1).

— Menina Maria, uma palavrinha, disse Manuel a medo.
— Pois vá lá, rapaz, assentou ela, achegando--se dele.
— Se lhe não parecera mal... A modo que lhe vou fazer uma pergunta... Começou canhestro o rapaz.
— Diga lá... Cortou ela o silêncio em que ele se ficara.
— Tenho medo, sabe? Que a menina se atrigue (2) comigo.
— Oh lá! Que coisa tão importante será ela! Exclamou a moça num riso curioso.
— Promete que não diz que não?
— Oh, homem!... Numa admiração. Se eu não sei o que Vossemecê me quer dizer ou pedir!
— É pedir, é que eu quero...
— Então peça, homem de Deus, acabe lá de pedir, cascalhava Maria.
— Nem Vossemecê me anima a dizer-lhe as coisas com esse ar de escárnio — disse numa queixa o rapaz.
— De escárnio? Não dei por isso; assim Deus me ajude que é jeito. Diga, diga.
Ilustração de Martins Barata
— Então, lá vai. Assim como assim, vou dizer. A menina sabe... E, numa decisão, sim, sabe que olho para si.
— E então? — Indagou ela meio surpreendida.  
— Mas olhe que não olho para si como para as mais... Tenho uma coisa cá dentro na alma, que me faz olhar mais para si, menina Maria. 
— Muito me conta... Mas olhe cá, que tenho eu com isso?... Não me diz?
— Que tem com isso! Ora que havia de ter!?... Quando olho para a menina, também a vejo olhar para mim e a disfarçar. Ora aí tem!
— Quem lho disse?
— Hom'essa agora! Vejo eu, é quanto basta... Não precisei que mo dissessem... E é por isso que eu lhe quero perguntar o que lhe dizia ainda agora... E lá vai. Olhe, menina Maria, quer namorar comigo? — Indagou ele já bem afoito.
— Pois sim, respondeu após um silêncio de meditação fingida.
— Vê que não me enganava.
— Mas não vê que sou novinha como as uvas de S. João?
— Que tem isso? As uvas não amaduram depois da novidade?
— Toca toda a gente a saber...
— Veja lá se aquelas — e apontava para as outras cachopas, que, à espera uma das outras, sorriam à socapa da entrevista já longa — se elas se importam que a gente saiba!

E uma voz muito perto, voz de mulher na tarde serena da aldeia ribeirinha, cantava nêsse instante:

Amores de ao pé da porta
Quem nos 'sconde não sou eu;
Moro ao pé da tua casa,
Onde tu 'stás estou eu.

Entreolharam-se, e um aceno os separou, felizes, decididos, levando nos corações uma alvorada de amor.



DIÁLOGO EM QUADRAS (NUM DESAFIO).

ELE
Quero-te dizer Maria
 Pousa aí a cantarinha
A quem é que hei de pedir
Licença para seres minha.

ELA
Cuidais que não é pecado
Enganar uma donzela
Prometer-lhe casamento
E depois não casar com ela.

ELE
Costumei tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que de tanto os confundir
Nem sei já quais são os meus.

ELA
Eu não sei que simpatia
Meus olhos contigo têm
Quando estou à tua beira
Não me lembra mais ninguém.

ELE
Eu sou sol e tu és sombra
Qual de nós será mais firme?
Eu, como sol, a buscar-te
Tu, como sombra, a fugir-me?

ELA
Tu és sol e eu sou sombra
Qual de nós será mais firme?
Tu, como sol, a luzires
Eu, como sombra, a seguir-te?

ELE
Fui à fonte, por te ver;
Fui ao rio, por te falar;
Nem na fonte, nem no rio,
Nunca te pude encontrar.

ELA
Eu queria-te falar,
Mas tenho guarda defronte
Que me trazem na vigia
Como o coelho do monte.


No final do artigo Jose Guerreiro Murta agradece ao etnógrafo “Luís Chaves, o autor do Amor Português, que foi quem lhe forneceu “os elementos para estas conversações da aldeia”.

Notas da minha responsabilidade:
1)    Derrete – galanteio; namoro.
2)    Atrigar-se - perturbar-se com vergonha ou medo.

* Com a devida vénia, fica aqui registado que a imagem original do professor José Guerreiro Murta, foi retirada do interessante blogue Marafações de uma Louletana. Foi o único local onde descobri a imagem  do professor. 

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